Cruzeiro em Cuba

Já fui a Cuba em diferentes ocasiões. A primeira vez foi em janeiro de 1986, para um Encontro de Professores para um Mundo Melhor. Naquela época, Cuba era totalmente dependente da URSS e pude comprovar isso em todos os lugares e ocasiões. Depois, voltei em 1994, quando o país passava por uma crise danada e mal tinha comida para servir aos turistas que haviam pagado por isso. Foi uma semana de aflições e até a volta para casa foi tumultuada, pois a agência não tinha confirmado nosso voo de volta e, quando chegamos ao aeroporto de Havana, milhares de pessoas disputavam a tapa o voo para Caracas. Tivemos de entrar na confusão e aos berros e empurrões conseguimos embarcar de volta. Ao chegarmos a Caracas, pudemos comer à vontade e nos sentirmos livres de novo. Agora, nem pensar em passar por Caracas. Tentei isso o ano passado, quando nosso navio parou em La Guaira, mas ninguém nos respondeu ir. A situação da Venezuela é um verdadeiro caos, político, econômico e social.

No ano passado, fui a Cuba de novo, para um cruzeiro que percorria toda a ilha, saindo de Havana, passando por diferentes lugares daquela ilha fantástica como Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país, terra do Fidel, Cienfuegos, uma cidade que é uma verdadeira joia, pois conserva o estilo art nouveau em que foi feita, de onde pudemos ir, de táxi, a Trinidad, cidade colonial, umas das sete mais antigas de Cuba e das Américas.  Foi uma viagem incrível, pois em Cuba voltamos ao passado. Os carros antigos, as casas, a impossibilidade de usar a internet e de saber as notícias do mundo, tudo é como se aquela ilha, a maior do caribe, tivesse parado no tempo. O povo cubano é amável, a comida é boa, tudo lembra a Bahia. As praias são espetaculares e há cadeias de hotéis internacionais nos principais balneários. No entanto, tudo tem  de ser encarado ao jeito cubano, pois lá eles não têm pressa, não estão acostumados com a concorrência, não conhecem o estresse da vida capitalista.

Havana por si só já vale a visita. É uma das cidades mais interessantes do mundo, por sua arquitetura única, herança do colonialismo espanhol. É claro que muita coisa está em ruínas, o Capitólio estava em restauração e tudo lá é muito devagar, ao ritmo cubano. É um dos povos mais musicais do mundo e por toda parte, pode-se encontrar gente tocando, cantando, dançando, tentando se virar nos trinta para ganhar alguns trocados do turista. E esse me parece o maior problema do país, pois em sua passagem do comunismo soviético para o capitalismo, tudo é valor de troca, tudo é oferecido aos turistas, incluindo as belas e os belos cubanos. Não se espantem com a pouca luminosidade das cidades, a escuridão das ruas, o assédio constante. É um país sem violência. É claro que não se pode dar mole, pois furto há em todas as partes, mas nada comparado ao que vivemos por aqui.

PS: As fotos do post anterior também são de Cuba.

 

Lima, capital gastronômica latino-americana

Estive em Lima, pela primeira, em 1986. Era época de ditadura militar, o país estava em guerra civil e tivemos de sair do aeroporto com um salvo-conduto para chegar até o centro de Lima. No caminho, fomos parados por soldados e não sabíamos se eram da força do governo ou do “Sendero Luminoso”, grupo guerrilheiro que tentava tomar o país. Em Lima, ficamos hospedados no tradicional hotel Bolívar, bem próximo à Praça de Armas, mas havia toque de recolher e, à noite, ninguém podia sair às ruas. Um horror! Só quem viveu aqueles dias sabe o que passaram os peruanos e todos nós que fizemos períodos de exceção em que não valem as leis e a Constituição, mas as forças das armas.

Trinta anos depois, voltamos a Lima. A cidade era outra. Parecia que tínhamos chegado a outro continente, pois nem reconhecíamos mais aquela Lima cheia de nativos, com suas roupas coloridas, uma cidade enevoada e suja, pois ali, por fenômenos meteorológicos, nunca chove. Lima, hoje, respira um clima de prosperidade, há trabalho para todos, não se veem mendigos pelas ruas, a cidade está cheia de prédios, grandes avenidas, shoppings moderníssimos. Tornou-se a capital latino-americana da gastronomia, com restaurantes e chefes premiadíssimos, que exploram as delícias da culinária tradicional com a comida internacional. Os restaurantes mais sofisticados são concorridíssimos, há longas filas de espera, mas em qualquer lugar pode-se comer bem, seja os diferentes tipos de ceviche, o prato típico local, seja os peixes do Pacífico e frutos do mar ali feitos com sabor e arte.

Lima é uma cidade que preserva tesouros históricos da época em que foi capital do Vice-Reino espanhol e sua catedral, a igreja de S. Francisco e o palácio dos Vice-Reis fazem parte da monumental Praça de Armas. É surpreendente como a cidade é segura, se a compararmos com as cidades Brasileiras. Nos locais turísticos, idosos aposentados portam cintos cheios de moeda local, o Sol, para fazer o câmbio do dia aos turistas do mundo todo que ali acorrem para conhecer o Peru, as maravilhas peruanas, sua história centenária e seu presente exitoso. Muitos turistas ficam alguns dias em Lima e depois sobem para Cuzco e outras cidades da serra e do litoral. Alguns vão em busca das ondas do pacífico, outros da herança história dos Incas, o povo lendário que resistiu aos conquistadores espanhóis o quanto pôde e hoje forma a base etnográfica e cultural do país.

Fomos de navio, desde Valparaíso,no Chile,  e o porto de Callao é área perigosa para os turistas, segundo eles. Talvez o seja à noite. De dia, nada vi que pudesse amedrontar, se você não levar dinheiro, joias ou câmeras caras. É assim em todos os lugares. Em Lima, pode-se ficar no bairro mais nobre e mais bonito, o de Miraflores, onde estão os bons restaurantes e hotéis, mas o passado histórico tanto do período colonial quanto do pré-colonial está no centro e nos arredores. Os táxis são confiáveis, os motoristas super simpáticos e pode-se arrendar um deles, a preços módicos, para visitar as principais atrações limenhas. Vale a pena!

Os encantos de Marselha

Marselha é a segunda maior cidade, o maior porto comercial e a mais antiga da França. Seu nome origina-se do grego “Massália”, mas também foi porto para os fenícios. Sempre teve grande importância na história da França e da Europa mediterrânica, sendo conquistada e reconquistada por diferentes povos. Por sua grande diversidade étnica e cultural, já que lá vivem milhares de pessoas de diferentes raças, credos e culturas, Marselha foi eleita capital europeia da cultura, em 2013. Marselha também é considerada cidade da arte e da história e o hino nacional da França tão conhecido no mundo todo é chamado “La Marsellaise”, por causa das tropas revolucionárias de Marselha que atuaram nos combates da revolução francesa, em 1789. Outra contribuição cultural marselhesa é o baralho de Tarô, usado na cartomancia em todo mundo.

A cidade tem grandes atrações turísticas, além de estar próxima de outras cidades históricas como Avignon, a cidade dos papas, e outras regiões da antiga Provença, na qual se situa. Para quem vai pela primeira vez, basta ficar na cidade e curtir suas atrações, dentre as quais estão o Velho Porto e o Panier, bairro com ruas pequenas e estreitas, cafés e restaurantes, no qual Marselha foi fundada. Dali se pode visitar a principal atração turística, tomando um trenzinho que leva até a monumental Basílica de Nossa Senhora da Guarda. No caminho, que margeia o velho porto, poderá tirar boas fotos da cidade, de suas velhas fortalezas e do porto.

Uma segunda atração é o Castelo de If, uma antiga prisão situada numa ilha costeira à cidade onde o Conde de Monte Cristo foi encarcerado no célebre romance de Alexandre Dumas. Aos amantes de arquitetura, recomenda-se uma visita à “Cité Radieuse”, unidade habitacional de Marselha construída pelo célebre arquiteto suíço Le Corbusier. Aos que gostam de andar a pé, recomenda-se uma caminhada pelo “Cours Julien”, bairro tido como local de encontro da cultura alternativa marselhesa. Confesso que me senti numa cidade árabe-africana como Tânger, Túnis ou Casablanca. Ouvi mais árabe do que francês. Comprei tâmaras deliciosas da Argélia a um euro dois pacotes. Vi os sabonetes de Alepo, que nem devem estar mais sendo fabricados na cidade síria. Passeei nos mercados árabes de Marselha, deliciando-me com a balbúrdia, a sujeira e a bagunça nada europeias. A cidade esta repleta de turistas e não senti nenhuma insegurança. Sentamo-nos num café-restaurante, tomamos um “rouge” local, mais barato do que uma cerveja, e comemos “moules frites”, mexilhão com batata frita, que parece não combinar, mas é uma delícia. E vive la France!

Volta à Toscana

Na primeira vez em que fomos à Europa, há quase trinta anos, era bem melhor viajar, embora não houvesse celular, nem internet, nem cartão de crédito. Fizemos uma excursão de quase um mês, percorrendo vários países, dormindo cada noite em um lugar. Muito estressante, mas o preço compensava, pois era uma promoção de dois por um. Só assim um professor brasileiro ainda recente na universidade poderia ir à Europa naqueles tempos bicudos. Em compensação, os voos eram bem mais confortáveis. Viajava-se na classe turística com mais conforto, mais espaço e alguma cortesia, hoje inimaginável. Dentre os vários lugares que percorremos num busão guiados pela inesquecível guia espanhola Josefina, professora de História e o motorista José Luiz, chegar à Itália foi um deslumbre. Saímos de Innsbruck, na Áustria, sob neve, atravessamos as Dolomitas, passamos por Cortina D’Ampezzo e chegamos a Veneza. Nunca vou esquecer o por do sol naquele primeiro dia, quando saíamos de Mestre, onde nos hospedamos, para chegar a Veneza, de vaporetto. Depois, vieram outras cidades inesquecíveis como Assis, na Úmbria e Pádua, para uma parada estratégica no túmulo de Santo Antônio. Roma foi o encontro com tudo que tínhamos estudado nos livros de História. Em cada pedaço, um pouco da história da humanidade. Só não visitamos as catacumbas, naquela viagem, e fomos cobrados por aqueles que não sossegam enquanto não percorrerem de cabo a rabo tudo o que os guias turísticas anunciam de atração. De Roma, ainda fomos a Nápoles, Pompeia, ilha de Capri e, depois, a inesquecível Florença. Com o dinheiro contado, mal podia visitar um ou outro museu, mas não pudemos deixar de ver o Davi, no Uffizzi. De lá, passamos por Pisa, numa rápida parada para fotos (naquela época ainda eram as fotos com máquinas de rolo, que seriam revelados após a viagem e a surpresa de saber se as fotos tinham saído boas ou não). Tudo era diferente na época pré-digital que vivemos. Hoje, vejo como era arcaico e como o mundo mudou em trinta anos. Foi bom ter vivido para ver todas essas mudanças!

Várias outras vezes voltamos à Itália, nesses trinta anos; às vezes, só de passagem para outros lugares. Agora, há muito mais turistas, os lugares históricos têm filas enormes, o mundo virou um formigueiro de gente fotografando tudo e todos. Foi o que senti, agora, quando voltamos à Toscana e a Pisa. Paramos no porto de Livorno, que não é cidade turística e nem tem atração alguma. Mas o navio só para ali, para se visitar Pisa, Luca ou Florença. Decidimos por Pisa, para agradar ao casal de amigos que nos acompanhava, mas nos arrependemos. Antes tivéssemos ficado por ali, tirado algumas fotos, subido ao morro

onde está a igreja   a que os locais peregrinam, comido alguma coisa local e saboreado os ótimos vinhos que se fabricam na região. Enfrentamos uma fila danada, compramos os ingressos do ônibus que faz o trajeto Pisa-Livorno, de uma em uma hora, e fomos. Para quê? Parecia que a Ásia inteira tinha marcado encontro ali, para fotografar a torre inclinada. Sabe o que é ter de fazer fila para conseguir uma foto, fingindo que está segurando a maledetta?! Mamma mia! E , depois, para comer alguma coisa? Estávamos só com o café da manhã, andando desde cedo e, na Itália, para sentar, só pagando. Acontece que não havia lugares nos poucos bares para tão grande afluência de pessoas. O jeito foi comer aquela pizza horrível, em pé, esquentada no micro-ondas, beber alguma coisa e retornar para o ponto de ônibus à espera do próximo que voltasse. E ir ao banheiro, então? Só pagando. Leia-se o mesmo capítulo anterior.  Enfim, viajar para esses lugares famosos, só quando se é jovem e com mais disposição. Mas, como diz o povo, nunca se consegue reunir essas três coisas: tempo, dinheiro e disposição. Experimente!

Cartagena de Espanha

Cartagena é um porto muito antigo  e a cidade foi fundada pelos cartagineses, em 223 a.C, sendo conquistada pelos romanos pouco tempo depois, em 209 a.C, que lhe deram o nome de Nova Cartago. Aos que não são muito chegados à História, lembro que Cartago era uma cidade situada ao norte da África, onde hoje é Túnis, e foi, durante muitos anos, a principal rival de Roma.  Durante a Idade Média, Cartagena perdeu muito a importância para outras cidades, mas, a partir do século XVIII, torna-se uma base naval espanhola e voltou a ter destaque por sua importância estratégica nas diversas guerras em que a Espanha se envolveu.

Hoje, Cartagena é um porto muito visitado por navios de cruzeiro e suas maiores atrações são o anfiteatro romano, totalmente restaurado, dentro das modernas técnicas museológicas e um dos mais bem conservados da Europa. Para os mais aventureiros, pode-se subir até as ruínas do Castelo de la Concepción, o antigo castelo de Cartagena. Aos que gostam de caminhar sem muito esforço, é só seguir pela Calle Mayor, até a Prefeitura, ao final dessa rua, apreciando a beleza dos edifícios com seus balcões, Há restos de ruas romanas e de muralhas bizantinas, para os mais chegados às antiguidades e o Museu Nacional de Arqueologia Submarina , para os que apreciam ver o que foi encontrado, no fundo do mar, de povos antigos que por ali passaram, desde os fenícios.

Chegamos a Cartagena num domingo festivo e  ensolarado,os cidadãos locais estavam todos na rua, com seus trajes tradicionais. Foi lindo ver as crianças, cada qual mais bonita: as meninas com seus belos trajes típicos de espanhola e os meninos com suas roupas características. Na praça, enquanto degustávamos tapas típicas e a saborosa cerveja local, a preços bem módicos, pois o chope e a tapa servida a rodízio custavam um euro cada, apreciávamos bailados folclóricos de jovens e crianças, desfiles de cavaleiros em seus belos ginetes e trajes típicos, enfim, uma festa espanhola. Como sempre, há os loucos por tirar fotos que querem fotografar tudo, passando o tempo nessa correria louca, sem parar para curtir o que a vida e a Espanha lhe oferecem: o prazer de apreciar o momento, a paisagem, a culinária,a companhia dos amigos num dolce far niente de um domingo ensolarado e de férias. Confesso que não tenho nenhum prazer em fotografar como um louco. Tiro poucas fotos e de má qualidade. Quem me acompanha sabe que fotografar não é a minha praia. Prefiro a imagem que retenho na retina de minha visão já fatigada.Penso que as pessoas estão mais preocupadas em fotografar para mostrar depois as fotos no facebook do que em aproveitar os instantes com as pessoas que lhes estão próximas. Acho que os loucos por fotografias devem viajar sós e depois dividir com os que têm a mesma loucura esse prazer. Pronto, falei! Desculpem-me os que têm outra opinião e as fotos que seguem em meus posts.

Barcelona, cidade encantadora

Barcelona é uma das cidades mais atraentes do mundo, por isso, vive repleta de turistas. Visito-a desde 1988, quando lá estive pela primeira vez, e sempre me encanto por sua gente, sua alegria, pela muvuca que não para, dia e noite. Além das belezas de uma cidade portuária muito antiga, Barcelona foi toda remodelada após os jogos Olímpicos de 1992 e não para de se modernizar. Tomara aconteça o mesmo com o Rio de Janeiro!  O difícil, em Barcelona, é encontrar hotel com preço mais em conta e no centro, pois a maioria fica mais afastada. Apesar da enorme quantidade de hotéis disponíveis nos sites, os preços são muito altos, se comparados a qualquer outra cidade europeia. Por menos de cem euros, é quase impossível encontrar hotel bom e bem localizado. Gosto de ficar perto das Ramblas, da Praça Catalunha ou no bairro gótico, nas cercanias da velha catedral, mas as opções são poucas e caras.

Estive lá em maio, para mais um cruzeiro pelo Mediterrâneo, um dos maiores prazeres que tenho ao viajar, pois ali perto se encontram portos de cidades antigas e repletas de atrações, como Cartagena, que visitamos desta última vez, Valência, Málaga e Algeciras, de outras viagens. Há gente que não gosta de cruzeiro, forma de viajar mais apreciada para os de mais idade ou pouco aventureiros, turma na qual me encaixo. Certa vez, fizemos outro cruzeiro memorável saído de Barcelona, num navio caindo aos pedaços de certa companhia espanhola que agora está por aqui e no Caribe. Eu e minha esposa éramos os únicos brasileiros e de mais idade a bordo. Todos os outros eram jovens casais em lua de mel. Enturmamo-nos com alguns deles, que nos adotaram como os pais que deixaram na Espanha e entramos na farra. O problema é que o navio jogou muito, no golfo de León. O comandante brincou dizendo que era efeito da “luna de miel”. A cabine era embaixo e entrava água pelo ralo do banheiro. Apesar de tudo, foi uma viagem inesquecível, pela alegria a bordo, pelos lugares que visitamos, pela comida servida e pelas amizades que fizemos.

Vinte anos depois, decidimos fazer novo cruzeiro saindo de Barcelona e estávamos acompanhados por um casal de amigos. O porto de Barcelona foi todo reformado, está todo moderno, mas um jovem taxista, diferente do que tinha nos levado do aeroporto, resolveu nos explorar, dando voltas desnecessárias para cobrar mais no percurso. Pegou mal e deixou uma má impressão de uma cidade e de uma gente que sempre procurar agradar ao turista. Barcelona tem muitas atrações turísticas, o marketing para as obras de Gaudí ou de Miró é inflacionado e, portanto, há sempre filas de gente para ver seus monumentos. Há muitos restaurantes e preços variados, mas, ás vezes, cai-se numa esparrela quando anunciam um menu turístico com um preço baixo e depois aumentam o preço adicionando taxas de serviço, além da qualidade, é claro. Enfim, de tudo ficam as experiências, boas ou más. Barcelona é uma das capitais culturais da Europa e sempre há museus, exposições, shows, para todos os gostos. Na primeira quinzena de maio, quando a Espanha comemora a festa de São Firmino e abre a tempo rada de touradas, a Catalunha, que não as permite, se engalana com a presença de milhares de turistas que a buscam por suas atrações artísticas e culturais. Barcelona é uma festa!

 

Santiago do Chile no verão

É sempre bom voltar a Santiago do Chile, pois a cidade se renova a cada visita. Há sempre um canto novo para conhecer, um museu diferente, novas exposições, e é diferente visitar um país em cada estação. A primeira vez que fomos a Santiago foi em 1986, há mais de trinta anos. Era inverno e Pinochet estava no poder. A cidade tinha toque de recolher às dez da noite e, na primeira noite, por desconhecermos isso, mal conseguimos comer alguma coisa, antes de voltar correndo ao hotel. Estávamos hospedados no luxuoso Carrera,que não mais existe, bem próximo ao Palácio Presidencial, o La Moneda, e sempre que passávamos por ali avistávamos a guarda do palácio com seu imponente uniforme de inverno, suas botas reluzentes e passos bem marcados, além das caras fechadas, que em tudo se assemelhava a um exército nazista.

 

Várias vezes voltamos ao Chile e a Santiago, evidentemente. A última foi agora no verão de janeiro, quando a cidade estava um calor de mais de trinta graus, o que para os chilenos é muito. Era apenas uma noite e um dia antes de regressarmos, após a viagem de travessia do Rio de Janeiro a Valparaíso. Gosto de ficar no centro histórico, embora os melhores hotéis estejam sempre nos bairros mais afastados. Para dormir uma noite, não importa tanto o hotel, basta que seja limpo e tranquilo e, dessa vez, pegamos um apart-hotel, pelo preço. Não foi uma boa experiência. Esse negócio de ter de fazer café, ao acordar, ninguém para arrumar o quarto, só é bom quando se vai ficar mais tempo e se viaja com mais pessoas, para economizar. Confesso que ainda prefiro o velho e bom hotel turístico, com portaria e um cafezinho da manhã. Valeu como experiência.

Caminhar pela Huérfanos é tudo de bom. Há de tudo, lojas para todos os gostos e os sensacionais artistas de rua, com suas performances, estátuas vivas e cantorias. Dessa vez, pegamos um grupo de jovens artistas líricos, em férias, cantando árias famosas de óperas, bem em frente ao nosso hotel. Era uma delícia sentar num dos bancos do passeio, tomar um sorvete e ouvir aquelas vozes celestiais. Pena que não dava para saborear um vinho por ali mesmo, mas havia as cerejas, era tempo delas, e só não gosta de cerejas quem não conhece seu sabor.

Ali perto, havia a Catedral, que sempre visito, para admirar e rezar; o museu histórico, sempre com alguma novidade e, dessa vez, visitamos o Centro Cultural atrás do Palácio La Moneda. Moderníssimo, interativo, estava cheio de crianças em férias. Que bom um país que valoriza a cultura de diferentes maneiras e educa sua juventude com boas práticas. A educação chilena é a melhor da América Latina e é uma sociedade leitora. Na Calle Huérfanos mesmo, vi um shopping só de livrarias, fato impensável em nosso país, pátria deseducadora. Não sei se a internet está mudando os hábitos de leitura da juventude por lá tão fortemente como aqui. Pode ser que sim, pois o fenômeno é mundial. Lá como aqui todos estão grudados nas redes sociais o tempo todo e os livros de papel estão condenados a uma confraria de bibliófilos, como a dos amantes dos discos de vinil.

Gibraltar, enclave britânico na Espanha

 

Gibraltar é uma pequena península no sul da Península Ibérica, com uma superfície de 6,5 km quadrados; tem uma estreita fronteira terrestre com  Espanha e está situada entre o  Mar Mediterrâneo, o  Estreito de Gibraltar e a  baía de Algeciras, com 12 km de linha de costa. O seu aspeto é de um rochedo com 426 m de altitude e o seu clima é mediterrânico, com invernos suaves e verões quentes. Embora tenha sido ocupada por uma força anglo-holandesa em 1704, a Espanha ainda mantém a reivindicação sobre o Rochedo, o que é totalmente rejeitado pela população gibraltina, cerca de trinta mil habitantes, súditos da Rainha Elizabeth II.

O nome Gibraltar origina-se na expressão árabe jabal al-Tariq  que significa “montanha do Tárique”. A montanha, um promontório militarmente estratégico na entrada do mar Mediterrâneo, guarnece o estreito oceânico que separa a África do continente europeu. O nome é uma homenagem ao general muçulmano Tárique que, no ano de 711 d.C. aí desembarcou, iniciando a conquista do reino visigótico. Antes foi chamado pelos  fenícios de Calpe, uma das Colunas de Hércules. Popularmente, Gibraltar é chamada de “Gib” ou “The Rock” (o Rochedo).

Por sua importância estratégica, já pertenceu acartagineses, romanos, vândalos, muçulmanos e espanhóis. Em 1462, os espanhóis expulsaram os muçulmanos num episódio de reconquista territorial. Atualmente, o brasão e a bandeira evocam o antigo reino de Castela. Uma força anglo-neerlandesa liderada por Sir George Rooke apoderou-se de Gibraltar em 1704. O território foi cedido à Grã-Bretanha pela Espanha no Tratado de Utrecht, em  1713, como parte do pagamento da Guerra da Sucessão Espanhola. Nesse tratado, a Espanha cedeu à Inglaterra “a total propriedade da cidade e castelo de Gibraltar, junto com o porto, fortificações e fortes (…) para sempre, sem qualquer exceção ou impedimento.”Apesar de tudo, o tratado de cessão estipulava que nenhum comércio por terra entre Gibraltar e a Espanha deve ocorrer, exceto para provisões em caso de emergência, se Gibraltar não conseguir ser abastecida por mar. Uma condição especial nesse tratado é que “nenhuma permissão deve ser dada sob qualquer pretexto, tanto a judeus quanto a mouros, para morarem ou terem residência na dita cidade de Gibraltar”. Esta restrição foi rapidamente ignorada, e por muitos anos tanto judeus quanto árabes moraram pacificamente em Gibraltar. Numa cláusula de reversão, se a coroa britânica quiser abandonar Gibraltar, deve oferecê-la primeiro à Espanha.

Nos tempos de Franco, as fronteiras do “rochedo” estiveram encerradas, dificultando a vida aos seus 30 mil habitantes. A passagem de pessoas e bens voltou a ser possível em 1985.Num  referendo de 1967, a população de Gibraltar ignorou a pressão espanhola e votou maciçamente por permanecer sob dependência britânica. Em 2002, 99% dos votantes rejeitaram qualquer proposta de partilha de soberania entre o Reino Unido e a Espanha. No entanto, os gibraltinos têm buscado um status mais avançado e um relacionamento com o Reino Unido que reflita o presente nível de autogoverno. Uma nova constituição para o território foi submetida a aprovação.

Uma vez que Gibraltar não possui recursos agrícolas nem minerais, os seus habitantes ganham a vida graças ao porto, às docas e às bases da OTAN. As principais atividades econômicas são as reparações navais, o abastecimento aos navios, as indústrias alimentares e de bebidas, o turismo, o comércio e os serviços de reexportação. Embora a presença naval britânica em Gibraltar tenha diminuído muito desde o seu auge, antes da Segunda Guerra Mundial, o estreito de Gibraltar é uma das mais frequentadas vias marítimas do Mundo, com a passagem de um navio a cada seis minutos. Sobretudo no verão a pequena Gibraltar fica cheia de navios de cruzeiro e de turistas do mundo em busca de suas atrações, que não são muitas e podem ser vistas todas em um dia. Primeiro, os macacos de Gibraltar, famosos no mundo todo, pois são os únicos monos livres da Europa, uma população de 250 protegida e alimentada pelo governo. São macacos africanos, que atravessaram o estreito em algum momento da história e não mais regressaram. Os machos têm o saco escrotal azul, iguais aos que vi no Zimbabwe e na Tanzânia, mas diferentes deles, não têm rabos. A evolução fê-los perder o rabo, talvez pela inexistência de grandes árvores naquele rochedo. Mais uma vez, Darwin estava certo. Depois dos macacos, as atrações principais são: a Ponta Europa, um mirante, de onde se pode ver as costas do Marrocos, do outro lado do estreito; a caverna de São Miguel, de origem neolítica, hoje usada como sala de concerto; o túnel  Siegel, Impressionante construção feita na rocha por  soldados, como estratégia militar; o jardim botânico, o teleférico, que vai da rua principal ao alto do rochedo e até a observação de baleias e golfinhos na baía, se for de sorte. Muitos turistas, no entanto, nem visitam essas atrações. O que querem mesmo é percorrer as lojas com artigos sem impostos para levar lembranças para casa. Comprei alguns perfumes e realmente eram bem mais baratos do que nas lojas do aeroporto. E torcer para pegar um bom tempo, pois pegamos uma chuvinha fria, bem diferente do calorão que estava em Cartagena, no dia anterior.

Patagônia revisitada

Visitamos a Patagônia, fazendo a travessia do estreito de Magalhães e o Canal de Beagle, pela primeira vez, em janeiro de 2006. Era um velho e pequeno navio da Princess, o Regal, que entrava pelos fiordes e parava bem perto das geleiras. Nosso quarto era o penúltimo, bem perto de uma jacuzzi ao ar livre que só era ocupada por alguns russos nossos vizinhos, os únicos que ousavam sair sem roupa naquela temperatura. Foi um passeio lindo! O sol estava radiante, naqueles dias, o mar calmo e fizemos uma travessia inesquecível. Nunca vou esquecer a visão do Cabo Horn e a entrada no Atlântico, após um dia inteiro de travessia. Por esse motivo, resolvemos, dez anos depois, fazer o mesmo roteiro, pelo caminho inverso, agora saindo do Rio de Janeiro e terminando em Santiago. A viagem já começou complicada no embarque. O porto do Rio estava em obras e levamos uma eternidade para chegar perto com as malas, mesmo vindos do aeroporto Santos Dumont. Ao chegarmos, o caos total. Havia oito navios embarcando simultaneamente, pois era a primeira segunda-feira após o réveillon, onde vários barcos estiveram para o espetáculo de fogos. Com calma e jeitinho, conseguimos embarcar com umas duas horas de espera. Teve gente que levou oito. Com isso, oi navio só saiu com algumas horas de atraso, logo recuperados na travessia até Buenos Aires. Até aí,m tudo bem. Tempo bom, mar de almirante, Buenos Aires é sempre uma festa para brasileiros, apesar de pequenas rusgas com taxistas, sempre querendo levar vantagens sobre turistas como em (quase) todas as partes do mundo.

Ao sairmos de Buenos Aires, o bicho começou a pegar. O tempo virou, o mar ficou agitado, vento de 120 km/h, ondas de seis a oito metros. A próxima parada deveria ser nas ilhas Falklands, Malvinas para os hermanos, mas não deu. O navio não pôde atracar e um passageiro teve de ser retirado de helicóptero, por problemas de saúde, numa operação arriscada. O comandante dava avisos frequentes aos passageiros, mesmo na madrugada, e isso causou um clima de certo pânico aos passageiros. Havia muitos brasileiros a bordo, alguns navegantes de primeira viagem. Alguns poucos chegaram a se vestir com os coletes salva-vidas e não os tiravam nem para o café da manhã. O comandante passou pelo Cabo Horn, nevava e fazia muito frio, um vento que impedia de sair para tirar as fotos tão sonhadas e depois seguiu para Ushuaia, onde não tivemos permissão para desembarcar. Chegamos, vimos do mar a bela cidade do fim do mundo com suas casinhas coloridas, tiramos fotos, demos adeus e seguimos viagem. Uma decepção para todos que não a tinham visitado de outra vez, como nós. Daí pra frente foram dois dias de pura maravilha. Para compensar a frustração, o navio percorria cada canto do Canal do Beagle, mostrando a beleza de suas geleiras, céu e mar em harmonia. Isso até chegarmos a Punta Arenas, já no Chile. Embora estivesse ventando muito e o mar não estivesse favorável, o navio conseguiu atracar. Passageiros e tripulantes desceram em peso. Mais de três mil foram a terra, pois já estávamos há uma semana a bordo, desde Buenos Aires, sem pôr os pés no chão. Eu e minha esposa não tivemos pressa. Já tínhamos visitado Punta Arenas antes e agora era só conferir o que mudou. Quando descemos, nossa lancha teve dificuldade para atracar; algumas pessoas se aborreceram com o pobre piloto, chamando-o de barbeiro, sem prever o que viria depois. Saltamos, pegamos um city-tour local, com alguns brasileiros que conhecemos ali, fomos ao cemitério e visitamos a mais famosa sepultura que existe ali, embora não seja a mais grandiosa. É a do índio desconhecido, uma homenagem dos nativos da região aos seus antigos antepassados. É lugar de peregrinação dos nativos, que veneram esse índio como uma divindade. Alguma coisa parecida com os nossos cultos umbandistas. Voltamos para o centro da cidade, fizemos algumas comprinhas. O vinho ali era muito barato, pois é zona livre de impostos, mas, infelizmente, só se podia levar duas garrafas a bordo, uma por passageiro. Vi vinhos de quase cem reais aqui, a cinco dólares lá. Que pena! Eram duas horas apenas, mas disse para Teca: Vamos voltar, pois esse tempo pode virar. Já tinha virado. Havia uma fila enorme e só conseguimos embarcar mais de uma hora depois. Foi a última lancha permitida. A partir daí, a marinha chilena impediu o embarque e cerca de duas mil pessoas ficaram em terra, sem poder voltar. Aí foi uma agonia tanto para os que ficaram quanto para os que estavam a bordo, pois o comandante avisa o tempo todo o que estava tentando fazer para socorrer o povo e trazê-los a bordo. Havia velhos e crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e os que necessitavam de medicamentos. De quatro da tarde às dez da noite, foi um sofrimento generalizado. Somente a partir das dez da noite, quando o vento amainou, foi permitido iniciar o retorno dos passageiros para o navio, operação que levou às quatro horas. Somente às duas da manhã, com todos a bordo, pudemos prosseguir a viagem até Valparaíso, aonde chegamos dois dias depois. Depois de tanto contratempo e para evitar um motim a bordo, no dia seguinte, todos receberam uma cartinha do comandante pedindo desculpas pelos inconvenientes, devolvendo o dinheiro das taxas pagas pelos portos onde não desembarcamos e dando a cada passageiro um crédito no valor do que pagamos pelo cruzeiro, sem as taxa, para utilizar em próximos cruzeiros da companhia. Medida justa e acertada para um cruzeiro nada tranquilo e favorável para quem sonhou com uma prazerosa viagem de férias.

Colônia do Sacramento

A primeira vez que fui ao Uruguai foi por terra. Fui a um congresso em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e de lá estiquei até a fronteira, atravessei-a a pé até Rivera e comprei uma passagem até Montevidéu. Fiquei lá uma noite e depois voltei de ônibus para Porto Alegre.  Depois, fiz um cruzeiro até Buenos Aires, que parou um dia em Montevidéu. Tentei ir a Colônia, mas o tempo era pouco. Agora deu. Fizemos um cruzeiro do Rio de Janeiro até Santiago, que previa parada de dois dias em Buenos Aires. Como essa já é cidade bem conhecida, resolvemos ir a Colônia, no Uruguai, que dista apenas uma hora de barco rápido desde Buenos Aires, num bate e volta. A passagem pode ser comprada pela internet, no site da buquebus e a estação está entre o terminal de cruzeiros e o Porto Madero, tudo muito fácil.

Sempre quis ir a Colônia do Sacramento, cujo centro histórico é reconhecido pela Unesco como patrimônio da humanidade. Colônia foi fundada por Manuel Lobo, Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, em 1680,do outro lado do Rio da Prata, bem próximo de onde os espanhóis tinham fundado Buenos Aires, por interesse político, econômico e comercial. Isso gerou uma disputa e muitas guerras entre portugueses e espanhois por cento e cinquenta  anos, pois aquele território, conforme o Tratado de Tordesilhas, pertencia à Espanha.Em 1750, pelo Tratado de Madri, Portugal deveria entregar Colônia e receber os Sete Povos das Missões. Mais guerra e dessa vez os maiores perdedores foram os índios guaranis. Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso confirma essa troca, mas a disputa continua até 1822, quando o Brasil se torna independente e anexa aquela região, a Província Cisplatina. Aí vem a guerra da Independência do Uruguai, o Brasil perde e Colônia se torna definitivamente uruguaia, em 1828.

Toda essa história pode ser vista em um vídeo mostrado logo na saída do terminal dos barcos, num Centro de Memória muito bem montado, antes de começar a percorrer o centro histórico, pois não há muito o que ver. O centro é pequeno, há a entrada da antiga fortaleza, algumas ruínas, o farol, uma igreja, ruas calçadas com pedra sabão, como em Parati, mas não esperem uma Parati ou Ouro Preto, cidades históricas muito maiores e mais bem conservadas. Colônia, na verdade, era pequena e cresceu dentro de muralhas. Foram muitas guerras, muitas disputas e pouca coisa sobrou. No entanto, o lugar tem uma importância histórica muito grande e é muito visitada por turistas do mundo todo. É um lugar agradável para passear, há bons restaurantes onde se pode apreciar uma parrilada uruguaia, tomar a cerveja local, recomendo a “Patrícia”, apreciar o pôr do sol no Rio da Prata e voltar para Buenos Aires. Hoje, a cidade é muito visitada pelos jovens alternativos, afinal o Uruguai liberou a maconha e eles fazem seus artesanatos, vendem alguns e passam a vida no dolce far niente bafejado pelos fumos sagrados dos rastafáris. Também é lugar para degustar bons vinhos uruguaios, feitos pela uva Tannat e que, dizem, trazem bons efeitos ao coração. Enfim, é uma boa opção para quem gosta de conhecer lugares diferentes e aprecia a história. Não recomento para os que apreciam modernidades e shopping, pois não vão achar nada disso lá. Felizmente.