Volta à Toscana

Na primeira vez em que fomos à Europa, há quase trinta anos, era bem melhor viajar, embora não houvesse celular, nem internet, nem cartão de crédito. Fizemos uma excursão de quase um mês, percorrendo vários países, dormindo cada noite em um lugar. Muito estressante, mas o preço compensava, pois era uma promoção de dois por um. Só assim um professor brasileiro ainda recente na universidade poderia ir à Europa naqueles tempos bicudos. Em compensação, os voos eram bem mais confortáveis. Viajava-se na classe turística com mais conforto, mais espaço e alguma cortesia, hoje inimaginável. Dentre os vários lugares que percorremos num busão guiados pela inesquecível guia espanhola Josefina, professora de História e o motorista José Luiz, chegar à Itália foi um deslumbre. Saímos de Innsbruck, na Áustria, sob neve, atravessamos as Dolomitas, passamos por Cortina D’Ampezzo e chegamos a Veneza. Nunca vou esquecer o por do sol naquele primeiro dia, quando saíamos de Mestre, onde nos hospedamos, para chegar a Veneza, de vaporetto. Depois, vieram outras cidades inesquecíveis como Assis, na Úmbria e Pádua, para uma parada estratégica no túmulo de Santo Antônio. Roma foi o encontro com tudo que tínhamos estudado nos livros de História. Em cada pedaço, um pouco da história da humanidade. Só não visitamos as catacumbas, naquela viagem, e fomos cobrados por aqueles que não sossegam enquanto não percorrerem de cabo a rabo tudo o que os guias turísticas anunciam de atração. De Roma, ainda fomos a Nápoles, Pompeia, ilha de Capri e, depois, a inesquecível Florença. Com o dinheiro contado, mal podia visitar um ou outro museu, mas não pudemos deixar de ver o Davi, no Uffizzi. De lá, passamos por Pisa, numa rápida parada para fotos (naquela época ainda eram as fotos com máquinas de rolo, que seriam revelados após a viagem e a surpresa de saber se as fotos tinham saído boas ou não). Tudo era diferente na época pré-digital que vivemos. Hoje, vejo como era arcaico e como o mundo mudou em trinta anos. Foi bom ter vivido para ver todas essas mudanças!

Várias outras vezes voltamos à Itália, nesses trinta anos; às vezes, só de passagem para outros lugares. Agora, há muito mais turistas, os lugares históricos têm filas enormes, o mundo virou um formigueiro de gente fotografando tudo e todos. Foi o que senti, agora, quando voltamos à Toscana e a Pisa. Paramos no porto de Livorno, que não é cidade turística e nem tem atração alguma. Mas o navio só para ali, para se visitar Pisa, Luca ou Florença. Decidimos por Pisa, para agradar ao casal de amigos que nos acompanhava, mas nos arrependemos. Antes tivéssemos ficado por ali, tirado algumas fotos, subido ao morro

onde está a igreja   a que os locais peregrinam, comido alguma coisa local e saboreado os ótimos vinhos que se fabricam na região. Enfrentamos uma fila danada, compramos os ingressos do ônibus que faz o trajeto Pisa-Livorno, de uma em uma hora, e fomos. Para quê? Parecia que a Ásia inteira tinha marcado encontro ali, para fotografar a torre inclinada. Sabe o que é ter de fazer fila para conseguir uma foto, fingindo que está segurando a maledetta?! Mamma mia! E , depois, para comer alguma coisa? Estávamos só com o café da manhã, andando desde cedo e, na Itália, para sentar, só pagando. Acontece que não havia lugares nos poucos bares para tão grande afluência de pessoas. O jeito foi comer aquela pizza horrível, em pé, esquentada no micro-ondas, beber alguma coisa e retornar para o ponto de ônibus à espera do próximo que voltasse. E ir ao banheiro, então? Só pagando. Leia-se o mesmo capítulo anterior.  Enfim, viajar para esses lugares famosos, só quando se é jovem e com mais disposição. Mas, como diz o povo, nunca se consegue reunir essas três coisas: tempo, dinheiro e disposição. Experimente!

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