San Salvador, simpática capital de um pequeno país

San Salvador, a capital de El Salvador, na América Central, é uma cidade de porte médio, com cerca de 500 mil habitantes, embora a população seja bem maior, pois a área metropolitana compreende vários municípios interligados como Santa Tecla, San Marcos, Mejicanos, dentre outros. É uma cidade montanhosa, espalhada entre cadeias vulcânicas e, por isso, tem sofrido grandes devastações sísmicas como as ocorridas em 1917, 1919 e 1986. O novo aeroporto internacional está situado a cinquenta quilômetros da cidade e chama-se Monsenhor Óscar Romero, o grande herói nacional, assassinado em 1980. Canonizado em 2018, o túmulo de Dom Romero, no subsolo da Catedral, é ponto de romaria para milhares de devotos. O outro herói nacional é o futebolista “Mágico” González, que nomeia um dos estádios locais.

Confesso que me senti tranquilo em San Salvador, que já foi considerada uma das cidades mais perigosas das Américas, por causa das “maras”, gangues de delinquentes que dominavam o centro da cidade e a região periférica. Andei a pé pela cidade, frequentei bares e restaurantes, caminhei pelo centro, entre os ambulantes e não senti a menor insegurança, como tenho, às vezes, em cidades de meu país. O povo é supersimpático, simples, cordial. Experimentei e gostei das “pupusas”, prato típico do país, uma espécie de minipizza em que não se enxerga o recheio, que pode ser de queijo, carne ou algum legume. Também gostei do café da manhã típico, feito de tutu de feijão com um pouco de arroz cozido, banana da terra frita (a que os falantes de espanhol chamam “plátano”), ovos mexidos e pãezinhos doces com um creme de leite desnatado. É uma delícia e sustenta por boa parte do dia. Não é uma cidade careira e se come bem por dez dólares. O churrasco deles é uma carne argentina, muito macia, acompanhada de um molho de tomate e cebola, bananas fritas e o tal tutu de feijão com arroz,que, parece, eles comem como acompanhamento de muitos pratos.

A cidade é bem provida de parques, de shoppings, de praças e de alguma área verde. Despertaram um pouco tarde para a conservação ambiental, comol me disse o guia, talvez até em função da violenta guerra civil, que matou e expulsou tanta gente, de 1980 a 1992. Desde então, o país vive em paz, luta para se desenvolver e a cidade possui alguns pontos turísticos de interesse como a Catedral, igrejas, o Teatro e o Palácio Nacional, o Museu de Arqueologia e o de Artes. Uns cinco dias na cidade são suficientes para se conhecer a maior parte delas, mas para visitar vulcões, lagos e ruínas maias, é necessário um pouco mais, pois se encontram fora da capital. Dizem os salvadorenhos que é o “país dos 45 minutos”, pois se pode ir a qualquer parte nesse tempo, mas é brincadeira, pois o tráfico é pesado e até para ir pro aeroporto pode-se gastar mais que isso. O país e sua capital são pequenos, mas simpáticos e agradáveis para se visitar. O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, o famosos autor de O Pequeno Príncipe, se casou, em Buenos Aires, com uma jovem viúva salvadorenha, Consuelo de Suncín, artista, pintora, escultora e de saúde frágil. Dizem que há várias referências a esse amor pela artista salvadorenha na obra O Pequeno Príncipe. Por isso, há uma bela praça dedicada a adultos e crianças em San Salvador, com personagens e passagens dessa obra tão conhecida no mundo todo.

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El Salvador, o Pequeno Polegar das Américas

Acabo de chegar de El Salvador, o menor país das Américas, com seus 21 mil quilômetros quadrados e população de mais de sete milhões de pessoas, a maioria mestiços de índios e de europeus. Era o último país que me faltava visitar dentre todos os que constituem as Américas e Caribe, 35 ao todo. É um país que passou por uma guerra civil terrível, de 1980 a 1992, em que morreram milhares de pessoas. Hoje, o país está calmo, e sua maior fonte de sobrevivência é o envio de divisas dos milhares de salvadorenhos que saíram do país e hoje vivem nos EUA, Canadá ou em navios pelo mundo.

San Salvador, a Capital, é uma cidade que se moderniza, rapidamente, com seus centros comerciais e cadeias americanas de lojas e de comidas. Não é uma cidade violenta, perigosa para turistas, pois existem muitos guardas armados à frente de restaurantes, lojas e por todas as partes. Assustei-me, no primeiro dia, pois saí à tardinha para jantar e me deparei com muitos guardas armados à porta dos restaurantes. Depois, vi que isso era normal lá, para garantir a segurança dos cidadãos. Em Salvador, andei de ônibus populares, que são muitos e levam a toda parte, por um preço irrisório, 25 centavos, sem ar condicionado e 35, com ar. O país é, se comparado a outros, barato, e se pode comer e ficar em hotéis por preços razoáveis. Por oito dólares se faz uma boa refeição e por trinta se hospeda em hotel regular, com café da manhã incluído. O povo é bom, simpático, humilde e cordial. Anos e anos de guerra transformaram as pessoas em sobreviventes ansiosos pela paz e pela justiça social, pois ainda há muitas diferenças sociais e econômicas e a maior parte da população luta pela sobrevivência. Todavia, não vi mendigos em excesso e nem muita gente morando nas ruas, como aqui. Só dei esmola uma vez para um idoso, incapacitado de trabalhar, que entrou no ônibus a que me dirigia ao centro, pedindo ajuda. Mesmo assim, trabalhava, vendendo pequenos objetos, o que constitui a maior parte da renda de grande parte da população. É um país que vive da economia informal, pois não tem fábricas e empregos suficientes para todos. A jovens, explorando filhos para conseguir a caridade alheia, ou aos pedintes de porta de igreja, não dou esmolas. No centro, também é comum a presença de jovens que tentam extorquir motoristas, jogando água nos para-brisas dos carros numa velocidade tal, que não se lhes consegue dizer não. Ao contrário dos realmente necessitados, não se conformam com os centavos e reagem agressivamente.

Em El Salvador, se pode fazer turismo de praias, ecológicos ou culturais. O país é pequeno e tem uma diversidade de opções de passeio, menor que a Costa Rica, mas, também, interessante. Na capital, deve ser visitada a Catedral, onde se encontra a cripta do Monsenhor Romero, santificado em 2018 e assassinado em 1980, quando celebrava missa. O bispo Óscar Romero foi um dos maiores nomes da Teologia da Libertação, área da igreja católica socialista, tendo pagado com a vida sua opção pelos pobres. Junto com o futebolista Mágico González, constitui a dupla mais famosa do país no mundo. Outra igreja que deve ser visitada é a do Rosário, cuja obra modernista da década de 1960, é uma joia de arquitetura. Por fora, é feia e não se dá nada por ela. Por dentro, é uma maravilha saída da mente luminosa do arquiteto local Rubén Martínez. Também no centro, deve-se visitar o Palácio do Governo, em restauração e o Teatro Nacional, dentre outros sítios históricos. Perto de Salvador, é imprescindível subir ao El Boquerón, o maior vulcão da cidade, passear pelo parque bem preservado com seus pássaros nativos, dentre os quais o belo Torogoz, a ave nacional. Fora da cidade, fui ao Cerro Verde, outro parque nacional, onde se situam os maiores vulcões do país, já perto de Santa Ana, a segunda maior cidade, e o belo lago de Coatepeque, a oitava maravilha natural do mundo.

El Salvador também possui ruínas maias, embora as maiores estejam no México, na Guatemala e em Honduras. Fui visitar as de San Andrés, em La Libertad, e Joya de Cerén, o único Patrimônio da Humanidade do país, decretado em 1993 pela Unesco, antigo povoado maia, sepultado pelas cinzas do vulcão Ilamatepec, há centenas de anos, só recentemente descoberto. Enfim, El Salvador é uma boa surpresa para os que já viram muito, mas ainda acham que sempre há algo mais para descobrir no mundo. Aos guias Eduardo e Irving, meus agradecimentos pelas lições que me deram sobre seu país.

Ilhas do Caribe

Há mais de trinta anos visito as ilhas do Caribe, desde que estive em Cuba, pela primeira vez, em janeiro de 1987, passeio inesquecível feito com os colegas da Ufes, para um congresso de professores. O mundo era diferente, Cuba ainda estava ligada à URSS, era socialista e nos mostrava avanços na saúde e na educação que não víamos em outros países, incluindo o nosso. Para chegarmos a Cuba, passamos pelo Panamá, na época totalmente dominado pelos EUA, e podíamos compará-los. Nesses trinta e dois anos, tanto Cuba quanto as demais ilhas do Caribe mudaram muito. Algumas, evidentemente, para melhor e, certamente, as maiores mudanças ocorreram devido ao turismo, uma indústria que trouxe desenvolvimento e progresso àquelas ilhas.

O que se pode observar, também, é que as ilhas que ainda estão subordinadas às potências europeias, França, Inglaterra e Holanda, estão em situação melhor do que as que se tornaram independentes. Veja o caso do Haiti, o primeiro país a se tornar independente da França, desde o longínquo 1804, após sangrenta guerra pela libertação. Até hoje, é o país mais pobre das Américas e, agora, até o Brasil recebe milhares de refugiados daquela ilha. Por outro lado, Martinica, Guadalupe e São Bartolomeu, ainda possessões francesas, estão em franco desenvolvimento. Não quero com isso dizer que ser uma nação independente é ruim, mas que, países tão pequenos, subordinados a uma monocultura, naquela região, a cana de açúcar, têm mais dificuldade de sobreviver do que os que estão ainda ligados às nações que os colonizaram.  Pequenos países da região como Dominica, São Cristóvão, São Vicente, Antigua, Santa Lúcia, Barbados e Grenada, antes subordinados à Inglaterra, hoje sobrevivem do turismo, mas, se comparamos Bermuda e as Ilhas Virgens, ainda pertencentes à Inglaterra, vimos o quanto estão em estágios diferentes de desenvolvimento.

Mas, fazer cruzeiro no Caribe, ou ficar alguns dias em seus paradisíacos resorts, é tudo de bom. Com exceções, a maioria tem praia bonita, com areia branca e mar azul, coqueiros e palmeiras, que fazem o cenário idílico das fotos que rodam as redes sociais. Acabamos de fazer novo cruzeiro no Caribe, o primeiro já lá se vão 25 anos, e é legal ver como algumas dessas ilhas melhoraram como Granada, Trinidad, Barbados, Santa Lúcia e Martinica. A exceção é São Vicente, que passou a ser destino de cruzeiros após as filmagens do “Piratas do Caribe” ali, e ainda nem tem um porto de cruzeiro adequado. Vimos isso em Granada, pois estivemos lá, quando ainda engatinhava como nação independente após a intervenção militar dos EUA, em 1983. Hoje, a pequena Granada, a ilha das especiarias, recebe milhares de turistas em seu belo terminal de cruzeiros, para conhecer suas belezas naturais, dentre as quais a bela Grande Anse Beach, uma das mais fotografadas do Caribe. Em 2017, o Caribe recebeu mais de trinta milhões de turistas, número que deve ter sido ultrapassado em 2018, enquanto o Brasil, com toda sua potencialidade de belezas naturais, patina na faixa dos cinco milhões de visitantes.

 

Canadá, se não fosse o frio…

Desde 1995, tenho visitado o Canadá, um dos países mais desenvolvidos do mundo. Na primeira vez, fiquei em Toronto, fazendo um estágio na universidade de York, e após isso, percorri o país de costa a costa, indo a Montreal, Quebec e Vancouver. O Canadá tem tudo o que esperamos de um país de primeiro mundo: desenvolvimento tecnológico e humano. Lá não existem grandes diferenças sociais, o país é bastante miscigenado, pois recebe imigrantes de toda parte, e é repleto de belezas naturais. Quando era jovem, até recebi convite pra trabalhar lá, como professor na universidade, visto que minha formação é em literatura latino-americana, mas o frio me assustou. Acostumado com os trópicos, adoro o calor e a luz dos nossos trópicos, e teria dificuldade em viver num país tão frio, com um inverno tão rigoroso e tão prolongado. Só visitei o Canadá no outono, a primeira vez, e na primavera, quando fui a Victoria, no ano passado, e já senti muito frio. Agora, voltei no outono e passamos por lugares lindos.

Saímos de Nova Jersey, num cruzeiro de dez noites, na primeira semana do outono, para visitar algumas partes da Nova Inglaterra norte-americana e do Canadá. Paramos em Bar Harbor e Portland, no Maine, lugares maravilhosos, onde se aproveitar tanto as belezas urbanas quanto os parques naturais. Claro que uma parada de um dia não dá pra ver muita coisa, mas sempre fica o gostinho de querer voltar àqueles lugares de onde se gostou mais. No Canadá, paramos em Saint John, na Nova Escócia, Sydney e Hallifax, no Cabo Breton e Charlottetown, na ilha de São Jorge. Em cada um desses lugares, andamos a pé, pois são cidades pequenas, percorrendo seu centro histórico e conhecendo suas igrejas, museus, praças e jardins. O Canadá é muito cuidadoso com seus jardins, em toda parte se observa o capricho herdado de ingleses no cultivo das plantas ornamentais e na harmonia de suas construções. Em momento algum, vimos pessoas sem teto e pedintes, como é comum em outros lugares, até nos Estados Unidos.

O final da viagem foi em Quebec, essa que é, pra mim, uma das mais belas cidades das Américas ou, quiçá, do mundo. Quebec foi fundada por franceses e, durante muitos anos, disputada pelos ingleses. Seu formato é de uma cidadela, visto que é toda cercada de muralhas, às margens do rio São Lourenço. A civilização francesa acrescida à tradição inglesa deu a Quebec uma cara especial, uma mistura de civilização europeia à modernidade americana. Cidade híbrida, encantadora, com uma população amável e acolhedora a receber turistas do mundo inteiro para conhecer suas belezas e apreciar suas delícias gastronômicas. Mas, como nem tudo é perfeito, tem o frio que, mesmo no outono, entra pelos ossos e castiga a pele, impedindo que se fique muito tempo pelas ruas, sem procurar um lugar aquecido para se abrigar.

Nova York, capital do mundo

   Já rodei bastante pelo mundo e já tinha visitado as principais metrópoles do planeta, Tókio, Londres, Cairo, Mumbai, Los Angeles, São Paulo, Cidade do México, Paris, Xangai, antes de ir a Nova York, onde se localiza a sede das Nações Unidas. Não sei bem o motivo, mas temia me decepcionar ou sei lá porque outro motivo. Agora, fui, pois resolvi fazer um cruzeiro que saía de Cape Liberty, em New Jersey, e ia até Quebec, no Canadá, passando pelo Maine, o belo estado americano, terra das lagostas e da natureza. Decidimos ficar em Newark, New Jersey, pois tanto o aeroporto de chegada quanto o porto de saída se localizavam lá, o que barateavam os custos de locomoção. E não nos arrependemos, pois Newark está a apenas quinze minutos de Manhattan, de trem, desde a Penn Station. Além do mais, é mais fácil encontrar bons hotéis lá, com melhores preços do que em Nova York. Newark é quase uma cidade dormitório de Nova York, pois a maioria das pessoas vive lá e trabalha em Nova York, mais ou menos como Vitória e Vila Velha, onde moro, ou Rio e Niterói, no Brasil.

   Não tivemos muito tempo em Nova York, mas o dia estava quente e ensolarado, o que permitiu ver bastantes coisas. Era a primeira semana de outono e o tempo muda rapidamente. Tanto que, no dia seguinte, amanheceu frio e chuvoso. Chegamos ao hotel, deixamos a mala, tomamos um banho e seguimos de trem, saindo da Penn Station de Newark para a Penn Station de Nova York, o que dá uma confusão danada em turistas distraídos. Saímos da estação e subimos para a rua 34, onde pegamos o ônibus turístico, que faz o percurso do centro da cidade em cerca de duas horas. Interessante que, se tivesse comprado os bilhetes pela internet, teria pagado o dobro, 50 dólares por pessoa. Ali, com o vendedor credenciado, pagamos a metade. O pior foi um guia que falava demais e gritando, o que nos impedia de ouvir as explicações em nossa língua natal, pelo fone de ouvido. Não há necessidade desse guia e, em todos os lugares em que fizemos a visita da cidade nesses ônibus duplos, não havia esse guia totalmente inoportuno e desagradável.

Nova York é, verdadeiramente, sensacional. Sua grandeza é inigualável. Cidade cosmopolita, o mundo todo a visita e se surpreende com sua grandiosidade, visita seus museus, percorre suas ruas, bares, lojas e restaurantes para todos os gostos e preços. Oque se sente, em Nova York, é que todos ali estão de passagem. Cidade de imigrantes, foi construída com a contribuição multifacetada de gente do mundo todo. Há muitos negros, chineses, hindus, latinos e parece que todos vivem em aparente harmonia, em busca de uma vida melhor para si e sua família. Nona York nos surpreendeu positivamente e esperamos voltar lá, na primavera, para visitar seus museus, seus parques e outros lugares turísticos, o que não foi possível fazer dessa vez.

Palmas, capital do Tocantins

A maioria das capitais de estados brasileiros nasceu sem planejamento, daí os grandes problemas de infraestrutura com sua urbanização desenfreada e incapacidade de prover a seus moradores uma qualidade de vida adequada. Mesmo as cidades planejadas como Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, hoje são metrópoles com problemas de deslocamento ou de moradia tão comuns como os das outras capitais.  A mais recente cidade planejada para ser a capital de um estado é Palmas, no estado de Tocantins, nascido pela Constituição de 1988, desmembrado de Goiás. Palmas foi fundada em 1989 e seu projeto arquitetônico e urbanístico foi concebido pelos arquitetos Luís Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho. Como aconteceu com Brasília, a construção da cidade atraiu trabalhadores do interior do estado e de diferentes partes do país, o que provocou o surgimento de bairros periféricos de moradia populares. A partir de janeiro de 1990, Palmas se tornou a capital definitiva do estado de Tocantins, antes ocupada por Miracema do Tocantins.

De 1990 aos dias atuais, Palmas passou de vinte mil a quase trezentos mil habitantes, crescimento surpreendente, maior do que o índice nacional e estadual. Apesar disso, Palmas ainda mantém o título de ser a cidade com o maior índice de qualidade de vida entre os municípios e capitais do norte brasileiro. O nome escolhido para batizar a cidade se deve à grande quantidade de palmeiras na região, dentre as quais se destaca o buriti, e à Comarca de São João da Palma, hoje Paranã, sede do primeiro movimento separatista da região, ainda no início do século XIX. Palmas se localiza bem no centro do estado de Tocantins e é banhada pelo grande rio que dá nome ao estado e que também constitui o principal ponto de lazer, com suas praias, ilhas e passeios em barcos flutuantes. O melhor programa turístico em Palmas, antes ou depois de visitar o Parque Estadual do Jalapão, é ficar às margens do rio Tocantins, contemplando seu majestoso pôr do sol, onde uma imensa bola de fogo se esconde para surgir no outro dia, apreciando os petiscos locais, curtindo a paisagem e uma boa música e se refrescando após um dia calorento. É esse seu principal ponto negativo; o calor infernal! Palmas é, hoje, uma das cidades mais quentes do país, disputando com Cuiabá e Teresina esse título. Por isso, é inimaginável carro ou hotel sem ar condicionado.

A primeira impressão ao se chegar a Palmas é de estranheza, pois ela nada se parece com nossas cidades congestionadas, entupidas de carro e de gente. Com suas ruas largas e inúmeras rotatórias, o trânsito flui com facilidade e nada se vê de aglomeração de pessoas. Palmas não foi pensada para o pedestre. Como as cidades americanas, foi planejada para deslocamento de carro. Até a rodoviária é longe do centro, pois os bairros periféricos é que abrigam as pessoas trabalhadoras. Na Praça dos Girassóis, onde se encontra o Palácio sede do governo estadual, localiza-se o centro geodésico do país. Ali também se ergue um monumento à coluna de Prestes, que por ali passou nos idos de 1930. O primeiro grande shopping da cidade, o Capim Dourado, está próximo à Praia da Graciosa, onde também fica a zona hoteleira e maior quantidade de bares e restaurantes. O povo é simpático e hospitaleiro, essa mistura de branco, preto e índio, que fez o que o Brasil tem de melhor, sobretudo no interior, sua gente.

Jalapão, coração do Brasil

Acabo de chegar do Parque Estadual do Jalapão, situado no Estado de Tocantins, um dos mais novos da federação brasileira, em cuja capital, Palmas, se localiza o centro geodésico do Brasil. O Parque Estadual do Jalapão é uma unidade de conservação da natureza, criado em 2001, com uma área de mais de 158 mil hectares, equivalente ao estado do Sergipe. O nome Jalapão deriva de uma planta chamada jalapa, comum a diversas plantas do gênero Ipomea, geralmente trepadeiras, cujo tubérculo é usado pela medicina popular como purgativo. A vegetação predominante é a do cerrado e a de campos limpos com veredas. Faz parte do imaginário de Guimarães Rosa, o maior prosador brasileiro, criador do épico: “Grande Sertão: Veredas”.

 

Percorri quase mil quilômetros de estradas pelo Jalapão, saindo de Palmas, em direção a Taquaruçu, um distrito da capital, em que se localizam oitenta e três cachoeiras. Só visitei duas, a da Roncadeira e a Escorrega Macaco, onde os amantes do rapel podem exercer essa prática. Pela trilha de 1,5 km que se faz até chegar às cachoeiras, pode-se observar exemplares da fauna nativa, sobretudo araras e macacos. Seguindo viagem, entra-se, formalmente, no parque em Santa Teresa do Tocantins, onde está o portal de entrada, seguindo viagem em direção a Ponte Alta do Tocantins, a cidade mais desenvolvida da região, e onde termina o asfalto. Daí pra frente, é chão e poeira, em estradas cheias de costela, atravessando pontes estreitas, poças d’água, areais, que só permitem passagem de veículos 4×4. Portanto, nada de se aventurar em carros pequenos, não preparados para esse tipo de terreno. O melhor é confiar nos experientes guias das agências locais, sempre simpáticos e solícitos, experientes e prudentes, como o jovem Samuel Marinho que guiou nosso grupo pelas estradas e veredas jalapeiras. Lá se diz que “coração de jalapeiro não bate, trepida”.

Além dos rios e cachoeiras, as características principais do Jalapão são os fervedouros e o capim dourado. Fervedouros são poços com pequenos lagos onde brotam água cristalina do interior da terra, cuja profundidade pode chegar a dezenas de metros, e onde não se afunda, pela pressão da água vinda de baixo para cima. São oásis rodeados de plantas nativas, buritis ou bananeiras e existem cerca de 21 catalogados na região, mas apenas 11 visitáveis. Paga-se cerca de 20 reais para usufruir por 15 minutos dessa maravilha e todos estão localizados em áreas particulares pertencentes aos quilombolas, antigos escravos provenientes da Bahia, detentores também dos direitos de extrair e comercializar produtos artesanais feitos com o capim dourado, famosos em todo país. O capim dourado, nativo na região, é colhido em setembro, na primavera, na mesma época em que florescem os ipês, de variadas cores, espalhados em todo cerrado. Recomendo se visitar o Jalapão nesse mês, no final da estação seca, antes de se iniciar o período das chuvas, em outubro, em que fica muito mais difícil visitar os pontos de interesse.

Não se pode sair do Jalapão sem visitar, também, suas dunas de areia vermelha e apreciar um dos mais lindos pores do sol do mundo, espetáculo que também pode ser vivido na Pedra Furada, local mágico e precioso, talvez tão sagrado quanto o famoso Uluru australiano. Infelizmente, pessoas sem consciência ambiental levam drones para soltar ali, o que irrita as centenas de araras e papagaios que ali fazem seus ninhos e as abelhas com suas colmeias. Deveria ser terminantemente proibido tal prática ali, como já ocorre nas dunas. Também fiquei impressionado com o cânion de Sussuapara, lugar onde os veados nativos, assim chamados pelos índios, bebiam água e, provavelmente, eram mais facilmente abatidos. Infelizmente, nada mais restou deles na natureza, assim como vão sendo exterminados emas, lobos-guarás, cobras e todo tipo de fauna antes soberana na região, hoje paulatinamente mortos com as queimadas comuns nessa época do ano. Aos poucos, mesmo dentro do parque, a mata nativa do cerrado vai sendo destruída para a plantação de capim para os bois ou de eucaliptos, única cultura que produz naquele terreno arenoso. É preciso uma vigilância ambiental maior para combater as queimadas, quase sempre intencionais. Talvez, o melhor seja transformar essa região espetacular como parque nacional, para que sejam preservados com mais eficiência sua flora e fauna, terra, água e ar. O Jalapão é o coração do Brasil, como está registrado no Morro do Sereno, e é preciso que todo brasileiro saiba disso, pois sua riqueza natural pode deixar de existir diante da ambição e da ignorância humanas.

Monte Saint-Michel, joia francesa

Desde a primeira vez que fui à França, há trinta anos, desejava visitar o Monte Saint-Michel. Mas, a França é tão linda, há tantos lugares importantes a conhecer, e Saint-Michel fica tão longe de Paris, que essa viagem era sempre adiada. Agora, no último abril, chegou a hora de visitar Saint-Michel, a tão celebrada abadia e um dos lugares mais visitados da França e do mundo. Saímos de Cherbourg, o porto tão importante durante as lutas da II Guerra Mundial, e das praias da Normandia onde desembarcaram os exércitos aliados para libertar a Europa das forças nazistas e fascistas, atravessando toda a Normandia, de norte a sul, até o rochedo onde se situa a imponente abadia de Saint-Michel, cuja construção levou uma centena de anos, desde 708, quando Aubert, o bispo de Avranches, recebeu diretamente do arcanjo Miguel, chefe das hostes celestiais,a ordem de construir sobre o rochedo uma igreja a ele dedicada.

   Saint-Michel, além de ser uma igreja para cultos religiosos, sempre foi uma fortaleza. Sua construção é uma obra-prima da arquitetura medieval, pois os arquitetos construíram muralhas de grossas colunas, que abrigavam uma capela hospitalar e adega, no piso inferior; no segundo andar, uma sala dos hóspedes e dos cavaleiros com abóbodas em ogivas para sustentar o terceiro andar, onde se localizam o refeitório e o claustro dos monges que aí viviam. Saint-Michel sempre esteve no centro das disputas territoriais e políticas entre normandos e francos, franceses e ingleses, por isso, não tem apenas importância religiosa; por sua importância estratégica, foi sempre disputada por grupos rivais, em todas as épocas. Embora tenha sido um centro de peregrinação, em toda a Idade Média, não tem a mesma força religiosa de Santiago de Compostela, nos dias atuais. Confesso, que não me decepcionei com a visita a Saint-Michel, tão desejada por todos esses anos, mas não me ajoelhei e rezei como faço em outros lugares santos a que tenho visitado. São tantos turistas, é tanta gente ouvindo guias a falar em diversas línguas, há tanta fila para subir, descer, comer ou beber, que tudo se torna um exercício de muita paciência, coisa que já não se tem sobrando, com o passar dos anos. Talvez, se tivesse ido a Saint-Michel, na juventude, quando subi a Torre Eiffel, pela primeira vez, teria apreciado com mais sabor esse lugar tão especial.

Xangai, a pérola do oriente

Saímos do Brasil com destino a Xangai, na China, uma das maiores cidades do mundo, de onde pegaríamos um navio para um cruzeiro que nos levaria à Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas,  Vietnã, terminando em Hong Kong, viagem de sonhos para qualquer um  que conheça as histórias de Marco Polo e que só imaginava o oriente. Eu já tinha ido à China, há mais de vinte anos, mas, naquela época, só visitei Pequim, a capital, as muralhas da China e Hong Kong, que ainda era possessão inglesa. Agora, era a vez de Xangai, o grande porto comercial da China e o maior do mundo. Tudo na China tem proporções gigantescas e essa experiência eu iria sentir, sobretudo, andando de metrô, no meio de milhares de pessoas. Uma loucura!

O difícil para quem mora no Brasil é chegar lá. Normalmente, temos duas opções: pelos Estados Unidos ou por Dubai, já que não existe voo direto do Brasil para Xangai. Na ida, são dois dias de viagem. Saímos na quinta para chegar no sábado à noite, com parada em Detroit, nos EUA. Aí, já aprendi que a pronúncia correta em inglês é ‘Shang-Hai’ de tanto que o agente da imigração americano me perguntou o que iria fazer lá. Ele não queria entender que eu era um professor aposentado e que iria fazer um cruzeiro saindo de Xangai. Tive de lhe mostrar ticket, reserva de hotel, dinheiro na carteira, para ele me deixar entrar em seu país. Aff!

Chegamos a Xangai cansadíssimos. O serviço de táxis na China é bom e não há necessidade de reservar transfer privado, mais caro.O câmbio é quase fixo, embora no aeroporto seja pior, como em toldos lugares. O hotel era bem no centro, próximo à parte antiga. O serviço é razoável, visto que os jovens chineses são pouco estressados e tivemos de esperá-los jantar para nos atender. Para quem está viajando há dois dias, loucos para chegar, tomar um banho e se esticar na cama faz muita diferença.

No outro dia, levantamos cedo, tomamos um café da manhã muito bom, depois de dois dias só comendo comida de avião, argh!, e fomos caminhar pela cidade. Xangai é uma cidade de avenidas amplas, bem sinalizada, com grandes parques e banheiros limpos nos parques. Só não tem papel higiênico. Nos países orientais, é imprescindível andar com papel nos bolsos. No máximo, você encontra uma torneira e uma caneca para se lavar. Por isso, os banheiros no oriente são sempre cheios de água. E o vaso sanitário à moda oriental, como nossas antigas privadas, no chão.

Depois de caminharmos bastante, chegamos à Praça do Povo, onde pegamos o ônibus turístico e fizemos o percurso de duas horas, que nos levou aos principais pontos turísticos. Xangai é dividida pelo rio Huangpu, um afluente do rio Yangtze. O centro histórico é chamado de Puxi e localiza-se no lado oeste do Huangpu, enquanto o novo centro financeiro, chamado Pudong, está na margem oriental. Ali está a principal atração turística da cidade, a Torre Pérola Oriental, com seus 468m de altura, uma das mais altas do mundo.

Le Havre e Honfleur, o antigo e o moderno

É sempre bom voltar à França, um dos destinos turísticos mais procurados do mundo. Dessa vez, fui à Normandia, mais precisamente a Le Havre e Honfleur, os dois portos marítimos situados na desembocadura do rio Sena. Le Havre está na margem norte da foz do Sena, a 208 km de Paris e, neste ano, completou 500 anos de existência, pois foi fundada por Francisco I, em 1517. É o segundo maior porto da França, atrás de Marselha. A cidade de Havre foi em grande parte destruída em 1944, na II Guerra Mundial, e foi reconstruída sob a direção do arquiteto Auguste Perret, o responsável pela maravilhosa igreja de São José, com sua monumental torre-campanário de 107 metros de altura, com a ideia de que “Deus está no centro e se eleva o espírito”. O centro histórico de Le Havre é tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco e nele se encontra, além da Igreja de São José, os prédios construídos por Perret, no estilo moderno dos anos 50, e os dois prédios em forma de concha construídos por Oscar Niemeyer, com teatro e biblioteca. Além deles, é imperdível a visita à catedral de Notre Dame, dos séculos 16 e 17, também reconstruída após a II Grande Guerra. A cidade possui vários museus, como o de História Natural e o de Arte Moderna de André Malraux, além dos jardins suspensos, também uma atração turística da bela cidade de Le Havre.

Atravessando a ponte da Normandia, a cerca de 20 km de Le Havre, situa-se o velho porto de Honfleur, de onde partiram muitos barcos com emigrantes e conquistadores do Novo Mundo. Situado no departamento de Calvados, à margem esquerda do Sena, Honfleur é um porto de pesca e de comércio. É importante centro turístico com suas velhas casas de madeira cobertas com ardósia, seus monumentos históricos medievais comoa a Igreja de Santa Catarina, toda em madeira, construída no século XV.  Dentre os principais museus da cidade está o de Eugene Boudin, pintor impressionista da segunda metade do século XIX, cuja residência é um museu municipal com várias obras dos impressionistas, dentre as de Boudin e de seus pares.

O bom mesmo de Honfleur é passear por suas ruelas medievais, saborear os produtos da Normandia, queijos, frutos do mar e o famoso licor de Calvados, sentar-se no seu velho porto e admirar a paisagem. Honfleur é linda e merece uma missa. Como era domingo, participamos de uma, na igreja de Santa Catarina, com todo o seu ritual das antigas missas solenes católicas. O povo é acolhedor, o comércio é muito bom e é um excelente passeio para um dia de domingo com a família. Amamos Le Havre e Honfleur, dois portos franceses que visitamos num único dia e onde se pode admirar os contrastes entre o antigo e o moderno, o passado e o presente.