Tetouán, a cidade branca do Marrocos

O Marrocos é, sempre, um país encantador para se visitar. Estive lá pela primeira vez em 1988, quando visitamos as cidades imperiais, Fez, Mekhnes, Rabat, Casablanca e Marrakech. Depois, em outra viagem, fomos a Tânger, atravessando o estreito de Gibraltar, de ferry-boat, a partir de Algeciras. Em outra viagem, de navio, paramos em Casablanca e de lá fomos a Rabat. Em outro cruzeiro, paramos, de novo, em Casablanca, e de lá fomos a El Jadida, a antiga Mazagão portuguesa. Mais recentemente, também em cruzeiro, paramos em Tânger e decidimos conhecer Tetouán, a antiga capital do Protetorado Espanhol, hoje, tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Tetouán se localiza a 60 km a sudeste de Tânger, distância que pode ser percorrida em pouco mais de uma hora, exceto em horário de pico, quando o trânsito fica congestionado e esse tempo aumenta muito. O mais importante da cidade é a sua Medina, um labirinto de ruas e de lojas, tombada como Patrimônio Mundial pela Unesco, desde 1997. Entrar ali, sem guia, traz um risco grande de se perder e não conseguir sair. Tetouán é conhecida como a “Pomba Branca”, o símbolo da cidade, ou a “Filha de Granada”. Possui uma arquitetura andaluza-mourisca única, muito bem preservada, e percorrer suas ruas e avenidas é como voltar a uma cidade espanhola há cem anos.

A cidade possui cerca de 380 mil habitantes e carrega séculos de história, mas se notabilizou como capital do protetorado espanhol entre 1912 a 1956. Nesse período, o Marrocos estava ocupado por Espanha e França e os reflexos dessa herança hispano-mourisca se refletem por todos os cantos de Tetouán, manifestando-se na sua arquitetura singular, nas tradições locais e na gastronomia, cuja pastelaria e confeitaria, de herança espanhola, figuram entre as mais refinadas do território marroquino.

Deixamos o ônibus na praça Lopes de Rivera e saímos a caminhar pela cidade, a melhor maneira de conhecê-la e de senti-la. Estava um friozinho gostoso de primavera, pois a cidade está a poucos quilômetros do Mediterrâneo, num vale, aos pés do Monte Dersa. Caminhamos pela Medina, passando pelos bairros árabes e judeus, o Mellah, onde viviam os judeus expulsos da Espanha, em 1492. Depois da criação de Israel, o bairro se esvaziou e, hoje, poucos judeus vivem ali. Tetouán guarda tesouros culturais impressionantes no seu Museu Arqueológico e Museu de Artes Marroquinas. Além deles, possui a Escola Nacional de Artes e Ofícios, estabelecida desde 1919, durante o Protetorado Espanhol e o Instituto Nacional de Belas Artes, fundado em 1945 pelo pintor Mariano Bertuchi, até oje a única instituição nacional de ensino superior artístico no Marrocos.

Tetouán foi escolhida pelo rei Mohamed VI para residência de verão e lá está um de seus palácios, sempre nas cores branca e verde, a cor sagrada do Islam. A cidade possui sete portões históricos monumentais e um cemitério de judeus extraordinário, com cerca de 35 mil sepulturas, conhecido como “Pequena Jerusalém”. Após uma chatíssima e demorada visita a uma antiga farmácia, onde ouvimos, por mais de uma hora, os efeitos mágicos do óleo de Argán, fomos a um restaurante, onde ouvimos a música tradicional marroquina, enquanto saboreávamos o chá local com biscoitos. A viagem de volta a Tânger foi mais demorada, pois o trânsito engarrafado não ajudou. O Marrocos ainda carece de boas rodovias, antes construídas pelos passos lentos dos camelos. É um país fascinante e Tetouán, uma boa descoberta. Infelizmente, o mercantilismo de comerciantes e de guias afoitos por uma comissão podem empanar o brilho de uma experiência de viagem.

Mindelo, capital cultural de Cabo Verde

Após mais de uma semana navegando, desde que saímos de Santos, SP, só vendo céu e mar, o coração se enche de jubilo ao avistarmos as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, no meio do Oceano Atlântico. Das dez ilhas que compõem país, chegamos a São Vicente, onde se localiza Mindelo, uma simpática cidade de colonização portuguesa, famosa pela cultura pujante, como a música, as artes plásticas e o artesanato,é a terra natal de Cesária Évora, a mais famosa cantora local, que divulgou o ritmo da “morna” pelo mundo. Mindelo inaugurou, recentemente, um novo terminal de cruzeiro, infelizmente, ainda com pouca infraestrutura para atender o turismo. Faltam lojas de artesanato, bares, lojas de suvenires, dentre outras coisas.

Mindelo é uma cidade pequena, embora seja a segunda maior do país, só atrás de Praia, a capital. Possui cerca de 75 mil habitantes em uma área de 67Km quadrados. Não possui muitas atrações, sendo a praia da Laginha, a preferida dos visitantes e dos locais, por estar bem no centro da cidade. Pode-se ir a pé, do navio, num trajeto de pouco mais de 1km. As atrações da cidade são o Palácio do Governador, a Câmara Municipal, a Pracinha da Igreja o berço da cidade, onde foram construídas as primeiras casas e ruas. Na Avenida Marginal, existe a réplica da Torre de Belém de Lisboa – hoje um pequeno museu marítimo – o Fortim d’el-Rei, donde se avista toda a cidade e a baía, e a Alfândega Velha, atualmente, o Centro Nacional de Artesanato.

Infelizmente, chegamos a Mindelo num domingo e tudo estava fechado. Percorremos a Avenida Marginal, admiramos os moradores darem banho nos cachorros, no mar, compramos lembrancinhas com os poucos vendedores nas ruas, a maioria do Senegal e resolvemos passar o resto do dia na praia. Por cinco euros, o taxista nos deixou no Caravela, um restaurante bem situado na Praia da Laginha. Não é a praia mais bonita do arquipélago, nem da ilha, mas é a mais acessível. Fomos muito bem atendidos, o povo cabo-verdiano é muito simpático e acolhedor, parecido com o brasileiro. Gosta de conversar e tem uma culinária parecida com a nossa. Naquele dia, o prato do dia no restaurante era a feijoada brasileira e os locais a degustavam com prazer, por 700 escudos cabo-verdianos, uns 8 euros. Optamos por um prato mais leve, camarões grelhados, acompanhados de uma gostosa cerveja local, que tomam bem fria como gostamos nós, os brasileiros.

A praia da Laginha possui águas azuis e transparentes, a areia é branca e fina, um convite, em dias de calor, o que sempre ocorre na ilha. Resolvi dar um mergulho e tive uma surpresa. A água é muito fria, deveria estar uns 15° C, enquanto estamos acostumados com uma água bem mais quentinha no Brasil, e a praia é de tombo, ou seja, a onda quebra sempre no mesmo lugar, formando uma depressão. Ao entrar, caí num buraco e água foi até o pescoço, gelando o corpo todo. Nadei um pouco, mas não aguentei ficar muito tempo. Resolvi secar-me e voltar pro bar, para mais uma cerveja e regressar ao navio. Fomos a pé, numa caminhada agradável à beira-mar, de vez em quando, parando para conversar com os locais. Sentimo-nos em casa, com se estivéssemos numa praia do nordeste brasileiro e Cabo Verde nos pareceu uma parte nossa, com um povo irmão. Pena não podermos ficar mais tempo para ir à ilha de Santo Antão, maior e ao lado. Quem sabe, um dia.

Santa Teresa de Gallura e San Pantaleo, na Sardenha

    No extremo norte da Sardenha, há uma pequena cidade portuária, com praias intocadas, paisagens naturais deslumbrantes e uma animada vida noturna. Lá estão algumas das praias mais marcantes da Sardenha, fantásticos esportes aquáticos e uma ativa vida noturna, no verão. Localizada no ponto mais ao norte da Sardenha, Santa Teresa de Galura é uma cidade portuária e a porta de entrada da ilha para Córsega. Fundada no início do século XIX para proteger a ilha de contrabandistas, atualmente, Santa Teresa Gallura encanta pela cultura com influências córsegas e sardenhas.

No coração da cidade, fica a Piazza Vittorio Emanuele I. Essa animada praça central, com suas cafeterias, lojas de lembrancinhas e joalherias, é um ponto de encontro de moradores. Visite a simplista Igreja de São Victor, do século XIX. Passeie ao longo da Via XX de Setembro e encontre bares, restaurantes e sorveterias estabelecidos em casas coloridas. Experimente a tradicional comida, como a suppa cuata, camadas de pão embebidos em um caldo de carne com creme de queijo, se estiver frio. Se for calor, há bons sanduíches com os excelentes queijos e presuntos locais.
A uma curta distância a pé da Piazza Vittorio Emanuele I, fica o Porto de Santa Teresa Gallura. Aí, admire os barcos de pesca antigos e iates de luxo que flutuam na água cintilante. Esse é o ponto de partida para passeios de barco para a Córsega e a cênica Ilha Madalena. Caminhe até o promontório no extremo norte da cidade e desfrute de vistas magníficas para a costa da Sardenha e todo o Estreito de Bonifácio até a Córsega. Suba até o topo do observatório do século XVI, a Torre de Longonsardo, e aprecie a maravilhosa paisagem.
As praias de Santa Teresa Gallura têm areia dourada e água segura e cristalina, além de serem excelentes para mergulho com snorkel e mergulho submarino. A praia mais próxima ao centro da cidade é a Rena Bianca. Alugue um carro ou utilize os ônibus públicos para chegar às melhores praias da cidade. Para chegar a Santa Teresa Gallura, pode-se ir de balsa da Córsega, por um voo para o aeroporto Olbia Costa Smeralda, ou por um navio ou ferry do porto de Olbia, em uma viagem de uma hora, o que fizemos.
Junto à Costa Smeralda, na Sardenha, a poucos minutos de Santa Teresa, visitamos uma aldeia de artistas, San Pantaleo, onde a praça principal nos convida a momentos de descontração, após uma visita pelas várias oficinas e ateliês onde podemos conhecer os artistas e as suas obras. As ruas pitorescas de San Pantaleo, ladeadas por casas em granito, levam-nos até uma igreja, cuja construção foi a origem do crescimento desta pequena localidade, pois foi um centro de peregrinação religiosa, no passado.As escarpas de granito que se erguem nas proximidades da vila oferecem um cenário deslumbrante aos visitantes deste centro boêmio, que também já serviu de ‘palco’ para a aventura de James Bond “O espião que me amava” (1977).

Durante a Primavera e o Verão, a quinta-feira é um dia especial em San Pantaleo, pois é quando se organiza um dos mais famosos mercados da Sardenha, onde se exibem peças de artesanato, antiguidades e algumas das mais deliciosas iguarias da gastronomia local. Deve-se consultar o calendário antes de visitar a região, já que em julho há uma noite dedicada aos produtos tradicionais da Sardenha, particularmente da região de Gallura, e, em setembro, San Pantaleo recebe uma série de grupos da Sardenha para um festival de folclore. Bela surpresa dessa viagem à Sardenha!

Avignon e Aix-en-Provence

Já estive na França várias vezes, sobretudo em Marselha, a segunda maior cidade do país e um dos portos de navios de cruzeiro mais utilizados. Marselha é ponto de partida para várias cidades importantes ali perto e do navio saem excursões para muitas delas. Sempre quis conhecer Avignon, situada a alguns quilômetros de Marselha, num percurso de 1h e trinta minutos, aproximadamente. Havia estudado no passado sobre os papas de Avignon, um período de cisma com a igreja de Roma, em que a sede da igreja católica se transferira para lá, no século XIV, e meu desejo era conhecer o antigo castelo dos papas, patrimônio da humanidade.
Avignon situa-se na região da Provença, no sudeste da França e está localizada às margens do rio Ródano, um dos maiores da França. Região grande produtora de vinhos e de lavanda, é famosa, mundialmente, por essa cultura. Entre os anos de 1309 e 1377, Avignon foi a residência dos papas católicos. A cidade continuou sob domínio papal até se tornar parte da França, em 1791, após a Revolução Francesa. Esse legado pode ser visto no enorme Palácio dos Papas, que fica no centro da cidade e é cercado por muralhas de pedra medievais.
Palco de um famoso festival de teatro, que ocorre no verão, o Palácio dos Papas ainda estava com a estrutura de palcos sendo desmontada, ainda que já fosse final de outubro. Visitar o Palácio com aquela confusão não foi agradável, mas deu pra perceber o quão foi imponente aquela construção há oitocentos anos. Infelizmente, por ter sido utilizado como quartel militar durante a Revolução francesa e em outras guerras, a maior parte do tesouro do palácio foi dilapidada e, hoje, o que restam são paredes nuas, alguns poucos afrescos remanescentes, nenhum móvel, e exposições modernas feitas para ocupar aqueles enormes espaços e diminuir a sensação de abandono e de solidão.
Outro retrato da inexorabilidade da destruição do tempo, está na célebre Ponte de Avignon sobre o Rio Ródano, tão importante no passado que virou cantiga de roda: “Sur le ponte d’Avignon, on y danse, on y danse, Sur le pont d’Avignon, on y danse, tout em rond”, que, no Brasil virou: “Lá na ponte da Aliança…” e o final ficou muito engraçado: “Os cavaleiros fazem assim…, assim assado, carne-seca e pão sovado”. Viva a criatividade infantil! Hoje, a ponte de Avignon é um fantasma do que foi no passado, apenas uma parte está de pé como testemunha veraz da história.
Quanto a Aix-en-Provence, cujo nome significa “Águas da Provença”, é uma cidade termal desde a Antiguidade, tem um importante patrimônio cultural com a sua arquitetura, o museu Granet, o festival de arte lírica, o Grand Théâtre de Provence e a sua Catedral, afirmando-se como um importante centro turístico da França. Aix também é famosa por ser a terra natal do pintor pós-impressionista Paul Cézanne. Uma trilha a pé conecta locais como a sua casa de infância, chamada Jas de Bouffan, e seu antigo estúdio, o Atelier Cézanne. Sainte-Victoire, uma montanha de pedra calcária branca com vista para a cidade, e a zona rural periférica foram temas frequentes de suas obras. Cidade universitária por exclência, em Aix-en-Provence respira-se arte e cultura por toda parte.

Sardenha, uma ilha diferente

Estive em Cagliari, ano passado, e agora volto à Sardenha, passando por Olbia com um passeio pelo norte da ilha até Santa Teresa de Galura, no estreito de Bonifácio. A Sardenha é uma ilha italiana, com poucas características do que convencionamos ser Itália, pois lá são fortes as influências espanholas e francesas. Cenário d muitas guerras no passado, por ser uma ilha estratégica no Mediterrâneo, a Sardenha mantém bem preservada uma cultura rural, com pouca industrialização. Até os anos 1950, era pouco frequentada pelos surtos de malária comuns na ilha, o que foi resolvido com a plantação de eucaliptos australianos e dedetização. Hoje, a Sardenha é um destino turístico de milionários pelos investimentos feitos pela aristocracia catari, que transformou a “Costa Esmeralda” em uma concorrente da “Costa Azul” francesa.

Enquanto Cagliari, a capital, no sul da ilha, engloba quase a metade da população da ilha, o norte é pouco habitado. O porto de Olbia, por onde saem os ferryes que fazem a travessia para outros lugares da Itália e para a Córsega, a ilha vizinha ao norte, trouxe pouco desenvolvimento à cidade de Olbia, pequena e inexpressiva. Os turistas que ali chegam se destinam aos resorts espalhados pelas diversas praias da Costa Esmeralda, que mal podem ser vistos das estradas precárias da ilha. Fomos até Santa Teresa de Gallura, uma simpática cidadezinha, que ferve no verão e adormece no resto do ano. Vai-se até a antiga torre situada às margens do canal de Bonifácio, de onde se avista a ilha de Córsega e, com sorte, a cidade de Bonifácio. Em poucos minutos se percorre toda a cidade, sem muito o que fazer.

O mais interessante é a vila de San Pantaleo, um lugar que já foi centro de peregrinação no passado e, atualmente, é um reduto de artistas, com seus ateliês exclusivos, restaurantes sofisticados e um clima de lugar alternativo para se apreciar uma comida e bebida enquanto se contempla o cenário bucólico, com as montanhas e vegetação típica da ilha. A Sardenha produz um vinho branco muito bom, o Vermicino, e um tinto de qualidade, o Canonau, são as produções de origem controlada, típicas de cada região italiana.

Parece que, na Sardenha, ainda se vive um clima mais tranquilo que no continente italiano e isso se reflete na tranquilidade das pessoas, na morosidade dos serviços, na vida calma que se leva por ali. A língua, o Sardo, difere do italiano, mas todos se comunicam em diversas línguas. Deve ser muito bom ficar ali em bons hotéis, saboreando os pratos da culinária local e apreciando os bons vinhos regionais, mas esse é um privilégio para os ricos e endinheirados, o que, definitivamente, afasta os cruzeiristas de um dia.

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Alicante, Cádiz, Málaga, o (des)encanto das cidades espanholas

É sempre um prazer voltar à Espanha, sobretudo às cidades à beira-mar, fora do verão, quando o clima está mais ameno e não há mais tantos turistas quanto no verão. O turismo em massa ficou insuportável e é necessário frear isso, com algumas regras de visitação. Veneza já o fez, quando proibiu a entrada na cidade de grandes navios de cruzeiro, mas eles, agora, aportam em Marghera, do outro lado de Veneza, ou em Trieste, um pouco mais distante e todos dão um jeito de ir a Veneza. A cidade instituiu taxas de visitação e creio que isso ocorrerá também em outras cidades como Roma, Florença, Milão e Nápoles. Parece que isso não resolveu a frequência à cidade, só contribuiu com uma receita maior para a sua manutenção.
As cidades espanholas também sofrem com o excesso de turistas, sobretudo Barcelona. Os locais fazem protestos contra os visitantes em massa, e não deixam de ter razão. Alicante é tranquila fora do verão, bem como Cádiz, ponto de encontro da Europa com a África. O problema é Málaga, terra do Picasso, uma cidade-museu, onde se pode vistar a herança romana, árabe e cristã, uma ao lado da outra. O teatro romano, a Alcazaba e a velha catedral estão próximas, e daria para visitá-los em um um dia, se não fossem as filas enormes, com milhares de turistas querendo fazer a mesma coisa. Ou seja, impossível. Há de se escolher uma e, se der por satisfeito, se conseguir. Optamos por uma visita à Catedral, mas não conseguimos. Havia vários navios de cruzeiro no porto, era domingo e filas de pessoas se aglomeravam à porta da catedral. Os guardas, carrancudos, de duas em duas horas, autorizavam algumas pessoas a entrar. Quem não conseguia teria de retornar duas horas depois. Tempo demais para quem já viveu muito e visitou centenas de catedrais tão grandiosas como aquela.
O jeito era visitar o museu Picasso, há dois na cidade, ou um dos tantos museus de Málaga, conhecida por ser a “Cidade dos Museus”, ou nenhum deles, e parar para tomar um vinho ou um chope, naquela cidade sempre calorenta. Optamos por um que anunciava “tapas a 3,90 euros”, o que nos parecia uma boa opção para acompanhar a bebida. Antigamente, admirávamos, na Espanha, o fato de a bebida ser acompanhada por uma tapa, sempre oferecida como cortesia. Sempre havia tortilha, azeitonas, presunto, croquetes, alguma coisa para “forrar o estômago”, enquanto se bebia. Achávamos esse hábito espanhol uma das coisas mais civilizadas da Espanha e, quando gostávamos do que era servido, repetíamos, claro, pagando o extra. Isso acabou. Em Alicante, o mesmo vinho que nos serviram, foi acompanhado de azeitonas para a mesa do lado. Para nós, nada. Em Málaga, as tais tapas de 3,90 eram uma porcaria. Dois croquetes sem gosto de nada ou duas tiras de presunto duro que nem pau. Arapuca para turista. Em Cádiz, chovia, a primeira chuva do ano, segundo o lojista, e não se podia caminhar pela cidade sem o risco de tomar um banho de chuva ou de uma poça de água jogada por algum carro. A imponente catedral estava fechada, em “lunes” não abre, e o jeito foi voltar para o navio, esperando melhor tempo, algum dia, se ainda por lá passarmos.

Em Cádiz, chovia, a primeira chuva do ano, segundo o lojista, e não se podia caminhar pela cidade sem o risco de tomar um banho de chuva ou de uma poça de água jogada por algum carro. A imponente catedral estava fechada, em “lunes” não abre, e o jeito foi voltar para o navio, esperando melhor tempo, algum dia, se ainda por lá passarmos.
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Lisboa, velha cidade…

Há 37 anos vou a Lisboa, esporadicamente, a passeio, uma cidade europeia que sempre me encanta pelos laços ancestrais que nos unem. Meu avô era português, veio do Amarante para o Brasil, no início do século XX, aqui se casou, deixou alguns filhos e netos chamados Francisco, dentro os quais eu me incluo. A primeira vez que fui a Lisboa, em 1988, a cidade era ainda bem provinciana, parecia uma Ouro Preto à beira-mar ou rio Tejo e os portugueses me pareciam tristes ou melancólicos, se comparados aos alegres e barulhentos brasileiros. Tudo mudou, nesses quase quarenta anos em que a visito. Atualmente, Lisboa é uma das cidades mais vibrantes das capitais europeias, está repleta de turistas, o ano todo, que pra lá se dirigem em busca de cenários instagramáveis para suas selfies, de um patrimônio histórico diferenciado de tudo o que se vê na Europa, de uma comida maravilhosa, em que o bacalhau é soberano, e de um povo que, apesar de tudo, é colhedor, se o compararmos a outros europeus, franceses e espanhóis, por exemplo.
Mas, o turismo em massa tem um preço. A cidade ficou cara para os brasileiros que a visitam e atraente para os milhares que para lá se dirigem para trabalhar e ganhar em euro, moeda seis vezes mais valiosa que o nosso enfraquecido real. Bons tempos em que o real valia mais de cem escudos ou era cotado um por um, na época da criação do euro. Enfim, o que resta é procurar hotéis mais em conta, o que não é fácil, e comida em lugares mais populares. Sempre os há, mas haja sola de tênis para caminhar. E, por falar em caminhar, Lisboa é uma cidade ótima para se andar a pé, subindo e descendo ladeiras, sempre tendo a gigantesca Praça do Comércio como rumo.
Dessa vez, optei por um hotel na baixa pombalina, bem no centrão de Lisboa, para evitar táxi, caro e pouco confiável, como na maioria dos lugares turísticos. Bem ao lado do Rossio, pude acompanhar a “fervida lisboeta”, como era comum em Madri, nos anos oitenta, a chamada “fervida madrileña. Aos finais de semana, a população se aglomera nas praças e nas ruas em torno do Rossio, nos inúmeros bares turísticos da Rua Augusta, da Rua das Portas de Santo Antão, da Praça da Figueira e arredores. Há sempre um bolinho de bacalhau de aperitivo, um bacalhau ao Brás, a lagareiro ou com natas para saborear e o delicioso pastel de natas de sobremesa, sempre acompanhados de um vinho tinto ou branco “da casa”, mais barato e leve para acompanhar uma refeição.
Para passear, a moda, agora, é alugar um tuc-tuc elétrico, que virou uma epidemia em Lisboa, sempre conduzidos por simpáticos brasileiros, que para lá se foram para “tentar a sorte”. O nosso “driver” foi o Roberto Jr., um simpático piauiense, que nos levou a lugares aonde não conseguiríamos ir, sem a sua preciosa ajuda e valente condução. Havíamos subido a escadaria do Carmo para ir até à igreja de São Roque, visitar a capela de S. João Batista, considerada uma das mais ricas da Europa, por seu valor artístico e, ao sairmos, o encontramos na praça em frente à igreja. Simpaticíssimo, falante e agradável como são os nordestinos, de modo geral, nos mostrou três opções de roteiros, a oitenta euros por hora. Escolhemos o que nos levava à Capela do Monte, onde se tem uma vista deslumbrante de Lisboa, e a São Vicente de Fora, onde está o Panteão dos Bragança e dos Patriarcas de Lisboa. Na volta, nos deixou na Praça do Comércio, de onde partimos em busca de um lugar tranquilo para almoçar.
Além dos condutores de tuc, como dizem, os brasileiros também são maioria nos restaurantes, como garçons ou trabalhando na cozinha e nos hotéis. Lisboa não teria como atender à multidão de turistas que a invade, se não fossem os imigrantes. As arrumadeiras de quarto são carbo-verdianas, as atendentes de loja, angolanas ou moçambicanas, os garçons, brasileiros ou hindus, de Bangladesh ou do Nepal, enfim, Lisboa é uma babel de imigrantes, onde a língua que mais se fala não é o português, mas o inglês. Confesso que tive de solicitar um garçom que falasse português para explicar o cardápio. A todos que perguntei se falavam português, respondiam: “um pouco”, mas a comunicação não fluía. Enfim, creio que, se continuar assim, o português lusitano deixará de existir, e só existirá o brasileiro, porque aqui o inglês nunca vai passar de “more or less” rs

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Stavros, o taxista de Pireus

Voltar a Atenas é sempre uma alegria, apesar dos voos longos, caros, lotados e das conexões demoradas. Já foi bem mais agradável viajar do Brasil para a Europa. Atenas é uma cidade que encanta, por sua história, passado tão estudo nos livros didáticos, por sua culinária, pela beleza natural de suas praias e, principalmente, pelo povo, ainda receptivo ao turista, sem o qual o país não vive, paciente, gentil, tolerante e sentimental. Paris é linda, mas aguentar a arrogância dos franceses e a sua pouca gentileza é osso. Os italianos são ríspidos com os turistas e é melhor evitar as cidades superlotadas como Roma e Veneza. Os gregos são diferentes, como aconteceu conosco com um taxista na estação marítima de Pireus.

   Chegamos a Atenas com um casal de amigos, estreantes na Grécia, mas super acostumados a viajar para a Europa, sobretudo a França. Do aeroporto ao hotel, no centro, perto da Praça Syntagma, com uma maravilhosa vista para a Acrópole, pegamos dois táxis, por causa da bagagem, duas malas para cada um, uma despachada e outra de bordo. Não havia uma van e nem um táxi grande que levasse os quatro. O preço foi o mesmo para cada um, 45 euros e mais a gorjeta, 50. No hotel, modesto e bem localizado, tudo funcionou muito bem: gentileza na chegada, quartos limpos, café da manhã farto e variado. Proximidade de tudo para andar a pé e visitar os principais pontos turísticos, perto de excelentes restaurantes, inclusive um com excelente comida grega. O souvlaki, churrasquinho de porco ou de frango, podia ser comido a 5 euros, enrolado no pão pita, ou a 12, no prato com salada e batata. Excelente!

   No dia seguinte ao da chegada, pegamos o ônibus turístico, cujo valor, 20 euros, dava direito a 48h de uso, com 3 roteiros a percorrer. Fizemos o primeiro e, após completarmos o circuito, descemos na Plaka, percorremos suas ruas lotadas de lojinhas de suvenires, muita coisa a 1 Euro, como sabonetes, bolsinhas, ímãs de geladeira, lembrancinhas para a família. Há muitos restaurantes por ali e pode-se almoçar por 10 a 15 euros por pessoa, sem as bebidas, claro. A cerveja grega é boa, se estiver quente e o vinho também, se não escolher o mais barato. Vinho bom é caro em qualquer lugar que o produz, pois demanda tempo e aperfeiçoamento.

   No outro dia, fizemos o outro roteiro, visitamos a Acrópole me cancelamos o roteiro das praias por estar frio e ventando. Nunca havíamos sentido tanto frio em Atenas, 12 a 13oC, pois é uma cidade geralmente quente, cujo calor é insuportável no verão. Agosto, lá, é insuportável! À tarde, visitamos o museu arqueológico, bom, mas incomparável aos principais museus europeus, onde se encontram as principais relíquias gregas.   Muita peça já foi devolvida, mas as principais ainda estão no Louvre, no Britânico ou no de Berlim. Os gregos exigem a sua devolução.

   Três dias depois, pegamos um táxi até a estação marítima de Pireus e, como o bagageiro era grande, coube todas as nossas malas. O taxista, de pouca conversa, mas gentil, voou, pois era feriado, o trânsito estava tranquilo e ele tinha pressa. Em poucos minutos percorremos o trajeto de 30km e o valor da corrida foi só 30 Euros. Demos-lhe 40 e ele ficou muito agradecido. Embarcamos, quase sem esperar. Check-in rápido, mas tivemos de carregar as malas até o navio, pois era Dia do Trabalho e todos os maleteiros e demais trabalhadores estavam de folga, inclusive os do rebocador, o que atrasou a saída do navio e a chegada em alguns itinerários, coisa pouca. O cruzeiro foi ótimo, mar de almirante, lugares lindos, tudo perfeito.

   Ao desembarcarmos no Pireus, uma semana depois, fomos pegar o táxi para o aeroporto, uma distância de 50 km ou mais. Queríamos um único táxi, como o da vinda, mas o primeiro da fila recusou, pois no bagageiro não cabia tanta mala; imediatamente, apareceu o Stavros, um senhorzinho de 64 anos, muito parecido com o pai da personagem do filme “O casamento grego”. Disse que nos levava ao aeroporto e que, se as malas não coubessem no bagageiro, amarraria a tampa do porta-malas com uma cordinha, que já trazias nas mãos. Sem esperar resposta, já foi pegando as malas e as arrumando no bagageiro. Já sabia a técnica, mas, claro, a tampa não fechava. Amarrou a porta no para-choque e lá fomos nós.

   Estava um calor infernal, o trânsito muito congestionado, os quatro apertados ali dentro e eu à frente com o Stavros, que falava sem parar, misturando grego, italiano, inglês. Falava de tudo, da crise econômica grega, da alta do preço dos alimentos, nos mostrava oliveiras, dizendo que o óleo de oliva, que antes era barato, agora custava os olhos da cara. Estávamos na época do conclave, para eleger o novo papa em Roma. Stavros xingou os cardeais de “maffiosi”, o luxo das igrejas, dizendo que Cristo não fundou igreja e nem a riqueza delas. Uma hora para chegar ao aeroporto, eu me divertindo com o Stavros, mas o pessoal de trás dormitava, embalados pelo calor e pelo palavrório do grego. Quando chegamos, nos cobrou 80 Euros, pelo excesso de malas. Demos-lhe 100 e ele quase morreu de alegria. Nos abraçava, beijava e lambujou minha cara toda. Era mais novo que nós, mas parecia nosso pai. Enfim, saímos da Grécia com a certeza de que é um destino a que se deve ir sempre, pois além da beleza das ilhas gregas, de seus monumentos históricos, há um povo sofrido e encantador, como o Stavros, taxista de Pireus.  

Veneza e o turismo de massa

   A primeira vez que fui a Veneza foi em 1988, numa excursão em grupo de turistas latino-americanos. Saímos de Madri, percorrermos a Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Suíça, Alemanha e chegamos à Itália, atravessando os Alpes e acompanhando as Dolomitas. Nos hospedamos em Mestre, vizinho a Veneza, pois a cidade não recebia grupos de turistas. Nunca vou esquecer a primeira ida à Praça São Marcos, de vaporetto, a condução típica da cidade. Foi um deslumbramento! Era abril e o sol de primavera tingia de vários tons de amarelo as cúpulas das casas e das igrejas, dos palácios e dos museus, da cidade que já foi uma das mais importantes na Idade Média, por sua atividade comercia e, agora, por ser uma das principais atrações turísticas do mundo. Construída sobre ilhas, Veneza não possui jardins com flores, praças como as demais cidades, chafarizes, carros, nada que a identifique com outros lugares. Veneza é única! Inteiramente construída pelo homem sobre as águas, ela resiste ao tempo, por milênios, mas, até quando?

   Voltei a Veneza outras cinco ou seis vezes, sempre de navio, que atracava na Estação Marítima, próximo à Piazzale Roma. Era deslumbrante passar em frente à Praça São Marcos, na ida e na volta, espetáculo que enchia os olhos de todos que se debruçavam na amurada dos navios para se deliciar com a paisagem. Até que, na tentativa de proteger a cidade, que, a cada dia mais se afunda no mar, os navios de cruzeiro foram proibidos de passar pelo Grande Canal e os turistas ficaram privados desse êxtase visual. Agora, eles atracam em Marghera, em um porto industrial do outro lado da baía e a ida a Veneza é uma odisseia. Pega-se um ônibus ou um aquatáxi até a Estação Marítima, de lá um trenzinho até a Piazzale Roma e, depois, o vaporetto ou se caminha até a Praça São Marcos. Gastamos mais de duas horas para fazer esse percurso e, quando chegamos à Praça São Marcos lotada de gente, já era hora de voltar. Com as filas para descer, subir, entrar, sair, gasta-se um tempão e não se tem tempo para visitar nada. Ou seja, ir a Veneza, num bate-e-volta, ficou inviável. Por isso, o governo instituiu uma taxa de visitação para turistas que não ficam na cidade por mais tempo. Tira-se na internet e deve ser levada em mãos, impressa ou no celular, pois, a todo instante, jovens uniformizados ficam checando se a taxa foi paga.

   Milhares de pessoas inundam as vielas, passando pelas pontes e canais de Veneza, da Piazzalle Roma à Praça São Marcos, percurso que fizemos a pé e gastamos mais de uma hora. Quanto mais perto da Praça São Marcos, mais gente. O mundo inteiro vai a Veneza e quer tirar fotos, passear de gôndola, visitar igrejas e museus, sentar-se em restaurantes para comer ou beber, mas a cidade não cabe mais. Veneza está saturada e pede socorro. Talvez se tenha de limitar o número de visitantes diário. Não sei o que deve ser feito, mas sei que a atração irresistível aos olhos, que tanto encantou artistas e escritores no passado e os turistas do presente, não se esgotou, embora a cidade não suporte mais tanta gente.

Salerno, muito mais que um porto

   Salerno é uma cidade portuária ao sul de Nápolis, na Itália. Arrodeada pelos montes Bonadies, a cidade surgiu em torno do castelo Arechi, uma velha fortaleza de onde se tem uma bela vista de todo o porto e exibe coleções de cerâmicas e moedas medievais. No coração da cidade antiga, está a majestosa Catedral de São Mateus, o Duomo, como a chamam, construída sobre as ruínas de um templo romano. É uma obra preciosa, com suas portas bizantinas de bronze, a cripta barroca e o altar de mármore, onde se veneram os restos mortais de São Mateus, um dos quatro apóstolos, segundo a tradição. Verdade ou não, é um dos lugares religiosos mais bonitos que já visitei na minha vida de tantas igrejas, uma obra de arte, onde as diferentes colorações de mármore parecem pintura. Imperdível!

   Perto da catedral, estão os jardins de Minerva, onde se cultivam plantas medicinais, desde a Idade Média. Não por acaso, Salerno é o berço dos estudos de Medicina na Europa, ali introduzidos pelos árabes. Na rua dos mercadores, um pouco abaixo, há um local de exibição da história da medicina em Salerno e, mais acima, o Museu de Medicina Roberto Pai. Bem perto do Porto, há o Palácio Genovese e, mais à frente, o Palácio Fruscione. Perto do primeiro, há o teatro Verdi. Com o bilhete de entrada da catedral, pode-se visitar também, o Palácio Diocesano  e a igreja-museu de São Jorge. Para os que amam a história, como eu, imperdível a visita ao Museu Arqueológico e o aqueduto medieval. Cansado de andar ao sol quente, por que não se banhar em uma das praias da cidade? Sem precisar de se afastar muito, é só atravessar a Praça da Liberdade, e já se está em uma delas. A areia é preta, mas, pelo menos, não é cheia de pedras como as da Croácia, e a água bem quente, talvez pela proximidade do vulcão Stromboli e influência do forte calor do verão, no sul da Itália.

   Muita gente vai a Salerno e não a visita, usando-a, apenas, de trampolim para pegar um barco para Capri, Ischia, Amalfi ou ouro lugar da costa amalfitana, mas Salerno merece uma visita. É um lugar bem acessível para os idosos, onde se pode caminhar à vontade pela Lungomare Trieste (Beira-mar), pela Via Roma, onde se localizam bares e restaurantes, ou pelas ruas medievais do Duomo, dos Mercadores, Vitorio Emanuelle, José Garibaldi, visitando as lojas de suvenires deliciosas comidas e bebidas italianas ou parando para se refrescar e descansar, tomando uma cerveja ou taça de vinho, conforme o desejo de cada um.    

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