Em Cagliari, na Sardenha

Enfim, pudemos visitar essa famosa ilha italiana, a segunda em tamanho, após a Sicília. Sabia que era quente, mas, no verão, é quentíssima. A temperatura estava em torno de 35° C e, mesmo para nós, acostumados ao calor brasileiro, a sensação de abafamento é terrível. Por isso, a Sardenha é muito apreciada por suas belas praias. Para nós, que só tínhamos um dia em Cagliari, a capital, o negócio era bater perna para visitar o máximo que fosse possível numa breve parada de navio. Infelizmente, não conseguimos ir muito longe, pois além de muito quente, a parte antiga da cidade, o bairro chamado Castelo, é um morro só. Como a cidade é à beira-mar, para se defender dos ataques de inimigos no passado, foi construída morro acima. Haja pernas para subir ladeiras! 

   Saímos do porto, atravessamos o trânsito caótico da beira-mar, creio que o italiano seja o povo mais maluco para dirigir, e fomos em direção à Catedral de Santa Maria Assunta, construída no enclave medieval do bairro Castelo. Não tem a imponência das catedrais góticas alemãs, espanholas ou francesas, mas é uma joia com sua arquitetura eclética, com aspectos medievais, renascentistas e barrocas, cuja construção é do século XIII, há quase mil anos. Para chegar lá, subimos o Bastião de Saint Remy, mais de cem escadas que matam os veios, para chegarmos à esplanada, de onde se vislumbra uma bela vista da cidade e do porto de Cagliari. Mais acima está a Torre do Elefante, a Catedral, o Palácio Real e o Museu Arqueológico.  Daí pra frente, não conseguimos ir mais. Para os que têm mais tempo e melhores pernas, valeria a pena ir ao Mercado de São Benedito e à Basílica de Bonaria, local de peregrinação, desde o século XIV, por seu patrono ter protegido um navio espanhol de uma tempestade.

   Para os que ficam mais tempo na Sardenha, recomenda-se uma visita ao sítio arqueológico de Nora, a mais velha cidade da ilha. Também é imperdível uma visita à igreja barroca de Santo Eufésio, o mártir da ilha, a quem a população recorreu durante a devastação provocada pela peste, em 1650. Caglliari foi fundada no século VII a. C, como colônia fenícia e de lá para cá, sofreu muitas conquistas de diferentes povos, traços que refletem em seu povo, hoje hospitaleiro e acolhedor aos novos conquistadores, a horda de turistas de cruzeiros. Para nós, só deu tempo de tomar uma cerveja gelada para refrescar e fazer umas comprinhas para levar de lembrança: azeite e vinho são da melhor qualidade.

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Almaty, primeira capital do Cazaquistão

De Astana, a atual, moderna e agradável capital do Cazaquistão, voamos para Almaty, a antiga capital, que já se chamou Alma-Ata. Voamos pela Air Astana, um voo de um hora e meia, com direito a um copo d’água. Nossa sorte é que, por termos saído muito cedo, o hotel nos preparou um lunch-box, que comemos no aeroporto. Chegamos lá, estava frio e chuvoso. Almaty localiza-se numa região montanhosa, perto da fronteira com o Quirguistão. É o principal centro comercial e cultural do Cazaquistão, bem como sua cidade mais populosa e cosmopolita. Seu nome significa “lugar das maçãs”.

Nossa guia Olga e o motorista nos esperavam no aeroporto e, como só tínhamos um dia para visitar a cidade, não podíamos perder tempo. Assim que chegamos, nos levou para o local onde pegaríamos o teleférico, na Estação de Esqui Shymbulak, localizada no pitoresco vale Trans-Ili Alatau, a 2.200 m acima do nível do mar. É um lugar lindo, o clima estava agradável, apesar de frio e chuvoso e deveríamos subir até o Pico Talgar, a 3.200m. Fomos até o primeiro estágio e o segundo, a 2.850m. Não subimos o último estágio, pois a temperatura caiu muito, a menos de Oº C e caía granizo, ou neve, não sabemos. Estávamos mal agasalhados e resolvemos descer para não pegarmos uma pneumonia. Ao descermos, fomos almoçar em um bom restaurante local e comer a comida gostosa do país, o plov, arroz com carne, saladas variadas e uma massinha gostosa tipo capeletti. Após o almoço, visitamos o Parque dos 28 Guardiões, construído em homenagem aos mortos cazaques de diferentes guerras, a catedral ortodoxa da Ascensão, depois, fomos ao Parque Kok-Tobe, o ponto alto de Almaty, de onde se tem uma excelente vista panorâmica da cidade.

O Parque Kok-Tobe é uma das principais atrações de Almaty, localizado nas encostas da montanha de mesmo nome e está a 1.130m acima do nível do mar. É uma aŕea paisagística com terraços e bosques pitorescos. Dos seus mirantes, abre-se um panorama maravilhoso das montanhas e da cidade. Ao lado do parque, ergue-se uma torre de televisão de 350m de altura, uma das mais altas do mundo, se contarmos desde o nível do mar. Iluminada, à noite, é um dos cartões-postais da cidade. A sua localização pitoresca na verdejante colina Kok-Tobe, com os picos nevados das montanhas Ili Alatau ao fundo, é o cartão de visita de Almaty. O acesso de teleférico é rápido e, em cima, além do cenário perfeito, se pode fazer boas compras de suvenires nas lojinhas. Bom pra comprar lenços de seda e pashmina de lã, de boa qualidade e a um bom preço. Chegamos ao hotel ao anoitecer e nem saímos mais, pois, no outro dia cedo, iríamos, de carro, até a fronteira com o Quirguistão.

Astana, capital do Cazaquistão, cidade da Paz

Depois de um longo voo do Brasil até Istambul, e daí até Astana (fala-se Astaná), chegamos ao Cazaquistão. Um senhor muito elegante nos pegou no aeroporto para nos levar ao hotel. Só que ele só falava russo e cazaco. Essa foi a nossa primeira surpresa, no país. O inglês, língua universal de comunicação, não é utilizado nos três países da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a que fomos, com exceção nos hotéis das grandes redes americanas. A solução para se comunicar é o Google translator. Todos o usam com facilidade. O hotel era muito bem localizado, muito próximo à Ópera, um edifício imenso, em estilo clássico, no coração da cidade.

Astana é uma cidade ampla, planejada para ser a nova capital do país, em franco desenvolvimento, em substituição a Almaty, a antiga capital, antes chamada Alma-Ata, cidade montanhosa e quase na fronteira com o Quirguistão. Passou a ser a capital do Cazaquistão em 1997, e ogo se tornou a segunda maior cidade do país, o nono maior do mundo em extensão. Localizada no norte do país, às margens do rio Ishim, destaca-se por sua arquitetura futurista e por ser uma das capitais mais jovens e de crescimento mais rápido do mundo. Possui uma arquitetura futurista, toda planejada pelo arquiteto japonês Kisho Kurokawa, e a paisagem urbana é dominada por prédios modernos, arranha-céus. Monumentos colossais e grande áreas verdes. Seu principal símbolo é o Baiterek, uma torre de observação que oferece vistas panorâmicas de toda a capital.

Depois de um breve descanso pela manhã, e logo pudemos sentir a hospitalidade do povo, pois nos foi permitido check-in antecipado e café da manhã sem custo adicional, fomos conhecer os arredores do hotel. Primeiro, a ópera, considerada a terceira maior do mundo, com 1.500 lugares. Foi inaugurada em 2013, a um custo de 300 milhões de dólares. Emprega cerca de mil pessoas, dentre corpo de baile, músicos e funcionários diversos. Dali, fomos a um shopping nos arredores, onde trocamos dinheiro para a moeda local, o tengue, no câmbio de 1 dólar=470 tengues. Não é um país caro. Pode-se comer razoavelmente por dez dólares. Há de se tomar cuidado com os entregadores de comida, essa febre mundial. Circulam por todo lado, nas vias de pedestres, juntamente com os andadores de patinete, a toda velocidade. Não vimos as perigosas bicicletas elétricas, que tantos acidentes provocam por aqui, mas devem estar a caminho.

Mais uma vez fomos salvos pelo tradutor do Google, pois fomos almoçar em um restaurante no shopping, cujo cardápio era em russo. Logo, a atendente o fotografou e o converteu em inglês, facilitando-nos a escolha do prato. O problema é que queríamos beber uma cerveja ou vinho e não se vende bebida alcoólica em bares e restaurantes populares. Como era em um shopping, fui ao supermercado embaixo, comprei um vinho da Geórgia e pudemos bebê-lo sem problema, se a garrafa não ficar à vista. Consideram crime expor álcool a muçulmanos, sobretudo a mulheres e crianças. Saciados, fomos circular pelo shopping. Entrei numa loja que vendia caviar, 80 dólares um vidrinho de 50g do negro, de ovas de esturjão. O de salmão é mais barato, mas menos apreciado. Degustei, mas não comprei. Daí, fomos ao shopping Khan Shatyr, construído em forma de tenda, lotado pelos locais.

No outro dia, pela manhã, chegou a guia Rigina Syssoyeva, uma professora na Faculdade de Relações Internacionais, fluente também em espanhol. Casada com um padre ortodoxo, tinha uma filhinha de 11 meses, que levou no jantar de despedida, por não ter com quem a deixar. Nesse primeiro dia, começamos com uma caminhada às margens do rio Ishim, que corta a cidade, dividindo-a em duas partes. Astana se localiza no centro do país, numa estepe muito plana e semiárida, daí a importância do rio Ishim. Os bairros mais antigos ficam ao norte do rio e os mais novos, ao sul. Quinze pontes unem as duas partes, algumas delas bem futuristas. Depois, fomos à torre Baiterek, de onde se pode avistar os principais edifícios, a Praça da Independência, o Palácio do Governo e o Parlamento. Fomos a uma das maiores mesquitas da Ásia Central, a Hazret Sultan, a uma outra mais central e à igreja ortodoxa da Ascensão. Almoçamos e, à tarde, visitamos o Palácio da Paz e da Concórdia, construído em forma de pirâmide, uma obra-prima do arquiteto inglês Norman Foster. Jantamos com a guia, em um restaurante, onde experimentamos os pratos locais. Astana é chamada “Cidade da Paz” e, para mim, uma das capitais mais bonitas do mundo.

Nosso guia no Quirguistão

Imagine o que é chegar a um país do qual você não conhece nada, nunca ouviu falar sobre e onde a população se comunica em uma língua de origem turcomana, o quirguis, e só tem uma língua comum, o russo, com só uma palavra mais conhecida por nós, spacibo, o obrigado? Pois é, isso aconteceu, recentemente, comigo, quando cheguei ao Quirguistão, em maio. Localizado na Ásia Central, o Quirguistão é um país sem saída para o mar e faz fronteira com o Cazaquistão, ao norte, Uzbequistão, a oeste, Tadjiquistão, ao sudoeste, e China, a leste, tendo Bishkek como capital. Não é tão rico como Cazaquistão, pois não produz petróleo e gás, nem tem as beleza culturais milenárias do Uzbequistão, o mais turístico, mas produz ouro, urânio e carvão, além de ter vastas áreas de pastagem que sustentam uma economia pastoril tradicional. Por que ir ao Quirguistão? me pergunta o possível leitor desta crônica. A resposta é simples, amável leitor, por suas belezas naturais. Mais de noventa por cento do país é coberto por montanhas, dentre as quais as cadeias de montanha Tian Shan e Pamir, onde se encontra o Jengish Chokusu, o pico mais alto país, com cerca de 7.500m de altitude. O país também é conhecido por seus lagos alpinos, os situados a mais de mil metros, sendo o Issyk-kul, o mais famoso e o segundo maior do mundo, só perde para o Titicaca, na Bolívia/Peru, uma importante atração turística, que visitamos em nosso segundo dia no país.

Pois é, para nossa alegria, ao chegarmos à fronteira do Cazaquistão, de onde vínhamos, com o Quirguistão, lá estava o nosso guia, um jovem de trinta anos, simpático, que nos deu, de cara, um tratamento especial. Viajava com um amigo 70+, como eu, e ele nos disse: – Vim recebê-los, para ajudá-los com as maletas e nos trâmites de fronteira. Tínhamos apenas mala de bordo, com 10kg cada, e mochila; mesmo assim, pegou nossas malas e a mochila e nos disse: – Tragam apenas os passaportes. Quisemos ir ao banheiro, localizado antes da imigração, mas não tínhamos o dinheiro cobrado: 20 sons ou 100 tenges. Não tínhamos nenhuma das duas, ele pagou. Saímos do Cazaquistão, tudo certo, andamos mais um pouco e chegamos à aduana do Quirguistão. Edil Dalilov, nosso guia, atrás de nós, nos respaldava, se algo nos fosse perguntado. Deu tudo certo. Passaporte carimbado, entramos no Quirguistão e nos dirigimos a carro que nos conduziria naqueles dias e apresentados ao Rustán, o motorista experiente, que, durante quinze anos, trabalhou de caminhoneiro na Europa. Falava um pouco de inglês, e com ele estávamos em boas mãos. Pacientes e educados, assim nos pareceram ambos, desde o primeiro contato.

Da fronteira a Bishkek, a capital, foram 30km, mas gastamos quase uma hora, pois a estrada estava em obras, começou a chover, e nossa primeira visita foi à maior mesquita da cidade, pois atende a 30 mil fiéis, feita pelos turcos. Embora o país tenha vivido muitos anos sob domínio soviético, a maioria da população é muçulmana, ainda que boa parte não seja praticante. Edil nos disse que era muçulmano, por tradição familiar, mas não praticante, pois gostava de tomar uma cerveja, o que é proibido pela religião e de sair com garotas, o que também não é bem visto. Falava um espanhol perfeito, aprendido na internet e nos contou sua vida e as dificuldade por que a família passou, quando a URSS acabou e o país se tornou independente, em final de 1991. Desde o século XIX, o Quirguistão foi anexado pelo império russo, e, no século XX, transformado em República Socialista Soviética. Atualmente, é uma República Presidencialista, possui cerca de 6,5 milhões de habitantes e uma renda per capita em torno de 4 mil dólares e um IDH de 0,701, considerado alto. Embora seja mais pobre que os seus vizinhos, não vimos miséria, nem moradores de rua, nem pedintes.

Edil Dalilov, no intervalo de suas explicações turísticas, ia nos contando sua vida. Por ter nascido cinco anos após a independência da URSS, sua infância foi de muita penúria. Seus pais eram operários das inúmeras fábricas construídas pelos russos no país e ficaram desempregados, após a independência. Tiveram de sair de sua pequena cidade natal, Balykchy, às margens do lago Issyk kul, para a capital, onde sua mãe costurava roupas para o pai vender nas ruas. Com três filhos para criar, Edil era o caçula, nem sempre tinham comida para comer. O pai se tornou alcoólatra e morreu. Os dois irmãos se casaram, mas Edil ficou solteiro para cuidar da mãe. O que ganha como guia não daria para sustentar a mãe e uma família. Edil foi nosso anjo da guarda, nos conduziu até a saída de seu país. Nunca vou esquecê-lo. Até a sua internet compartilhou conosco e, em pequenos gestos, como nos ajudar a regular o chuveiro no moderno hotel de Issyk Kul, mostrou seu carinho, atenção e cuidado com dois brasileiros viajantes em seu país. Deus o abençoe!

Tetouán, a cidade branca do Marrocos

O Marrocos é, sempre, um país encantador para se visitar. Estive lá pela primeira vez em 1988, quando visitamos as cidades imperiais, Fez, Mekhnes, Rabat, Casablanca e Marrakech. Depois, em outra viagem, fomos a Tânger, atravessando o estreito de Gibraltar, de ferry-boat, a partir de Algeciras. Em outra viagem, de navio, paramos em Casablanca e de lá fomos a Rabat. Em outro cruzeiro, paramos, de novo, em Casablanca, e de lá fomos a El Jadida, a antiga Mazagão portuguesa. Mais recentemente, também em cruzeiro, paramos em Tânger e decidimos conhecer Tetouán, a antiga capital do Protetorado Espanhol, hoje, tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Tetouán se localiza a 60 km a sudeste de Tânger, distância que pode ser percorrida em pouco mais de uma hora, exceto em horário de pico, quando o trânsito fica congestionado e esse tempo aumenta muito. O mais importante da cidade é a sua Medina, um labirinto de ruas e de lojas, tombada como Patrimônio Mundial pela Unesco, desde 1997. Entrar ali, sem guia, traz um risco grande de se perder e não conseguir sair. Tetouán é conhecida como a “Pomba Branca”, o símbolo da cidade, ou a “Filha de Granada”. Possui uma arquitetura andaluza-mourisca única, muito bem preservada, e percorrer suas ruas e avenidas é como voltar a uma cidade espanhola há cem anos.

A cidade possui cerca de 380 mil habitantes e carrega séculos de história, mas se notabilizou como capital do protetorado espanhol entre 1912 a 1956. Nesse período, o Marrocos estava ocupado por Espanha e França e os reflexos dessa herança hispano-mourisca se refletem por todos os cantos de Tetouán, manifestando-se na sua arquitetura singular, nas tradições locais e na gastronomia, cuja pastelaria e confeitaria, de herança espanhola, figuram entre as mais refinadas do território marroquino.

Deixamos o ônibus na praça Lopes de Rivera e saímos a caminhar pela cidade, a melhor maneira de conhecê-la e de senti-la. Estava um friozinho gostoso de primavera, pois a cidade está a poucos quilômetros do Mediterrâneo, num vale, aos pés do Monte Dersa. Caminhamos pela Medina, passando pelos bairros árabes e judeus, o Mellah, onde viviam os judeus expulsos da Espanha, em 1492. Depois da criação de Israel, o bairro se esvaziou e, hoje, poucos judeus vivem ali. Tetouán guarda tesouros culturais impressionantes no seu Museu Arqueológico e Museu de Artes Marroquinas. Além deles, possui a Escola Nacional de Artes e Ofícios, estabelecida desde 1919, durante o Protetorado Espanhol e o Instituto Nacional de Belas Artes, fundado em 1945 pelo pintor Mariano Bertuchi, até oje a única instituição nacional de ensino superior artístico no Marrocos.

Tetouán foi escolhida pelo rei Mohamed VI para residência de verão e lá está um de seus palácios, sempre nas cores branca e verde, a cor sagrada do Islam. A cidade possui sete portões históricos monumentais e um cemitério de judeus extraordinário, com cerca de 35 mil sepulturas, conhecido como “Pequena Jerusalém”. Após uma chatíssima e demorada visita a uma antiga farmácia, onde ouvimos, por mais de uma hora, os efeitos mágicos do óleo de Argán, fomos a um restaurante, onde ouvimos a música tradicional marroquina, enquanto saboreávamos o chá local com biscoitos. A viagem de volta a Tânger foi mais demorada, pois o trânsito engarrafado não ajudou. O Marrocos ainda carece de boas rodovias, antes construídas pelos passos lentos dos camelos. É um país fascinante e Tetouán, uma boa descoberta. Infelizmente, o mercantilismo de comerciantes e de guias afoitos por uma comissão podem empanar o brilho de uma experiência de viagem.

Mindelo, capital cultural de Cabo Verde

Após mais de uma semana navegando, desde que saímos de Santos, SP, só vendo céu e mar, o coração se enche de jubilo ao avistarmos as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, no meio do Oceano Atlântico. Das dez ilhas que compõem país, chegamos a São Vicente, onde se localiza Mindelo, uma simpática cidade de colonização portuguesa, famosa pela cultura pujante, como a música, as artes plásticas e o artesanato,é a terra natal de Cesária Évora, a mais famosa cantora local, que divulgou o ritmo da “morna” pelo mundo. Mindelo inaugurou, recentemente, um novo terminal de cruzeiro, infelizmente, ainda com pouca infraestrutura para atender o turismo. Faltam lojas de artesanato, bares, lojas de suvenires, dentre outras coisas.

Mindelo é uma cidade pequena, embora seja a segunda maior do país, só atrás de Praia, a capital. Possui cerca de 75 mil habitantes em uma área de 67Km quadrados. Não possui muitas atrações, sendo a praia da Laginha, a preferida dos visitantes e dos locais, por estar bem no centro da cidade. Pode-se ir a pé, do navio, num trajeto de pouco mais de 1km. As atrações da cidade são o Palácio do Governador, a Câmara Municipal, a Pracinha da Igreja o berço da cidade, onde foram construídas as primeiras casas e ruas. Na Avenida Marginal, existe a réplica da Torre de Belém de Lisboa – hoje um pequeno museu marítimo – o Fortim d’el-Rei, donde se avista toda a cidade e a baía, e a Alfândega Velha, atualmente, o Centro Nacional de Artesanato.

Infelizmente, chegamos a Mindelo num domingo e tudo estava fechado. Percorremos a Avenida Marginal, admiramos os moradores darem banho nos cachorros, no mar, compramos lembrancinhas com os poucos vendedores nas ruas, a maioria do Senegal e resolvemos passar o resto do dia na praia. Por cinco euros, o taxista nos deixou no Caravela, um restaurante bem situado na Praia da Laginha. Não é a praia mais bonita do arquipélago, nem da ilha, mas é a mais acessível. Fomos muito bem atendidos, o povo cabo-verdiano é muito simpático e acolhedor, parecido com o brasileiro. Gosta de conversar e tem uma culinária parecida com a nossa. Naquele dia, o prato do dia no restaurante era a feijoada brasileira e os locais a degustavam com prazer, por 700 escudos cabo-verdianos, uns 8 euros. Optamos por um prato mais leve, camarões grelhados, acompanhados de uma gostosa cerveja local, que tomam bem fria como gostamos nós, os brasileiros.

A praia da Laginha possui águas azuis e transparentes, a areia é branca e fina, um convite, em dias de calor, o que sempre ocorre na ilha. Resolvi dar um mergulho e tive uma surpresa. A água é muito fria, deveria estar uns 15° C, enquanto estamos acostumados com uma água bem mais quentinha no Brasil, e a praia é de tombo, ou seja, a onda quebra sempre no mesmo lugar, formando uma depressão. Ao entrar, caí num buraco e água foi até o pescoço, gelando o corpo todo. Nadei um pouco, mas não aguentei ficar muito tempo. Resolvi secar-me e voltar pro bar, para mais uma cerveja e regressar ao navio. Fomos a pé, numa caminhada agradável à beira-mar, de vez em quando, parando para conversar com os locais. Sentimo-nos em casa, com se estivéssemos numa praia do nordeste brasileiro e Cabo Verde nos pareceu uma parte nossa, com um povo irmão. Pena não podermos ficar mais tempo para ir à ilha de Santo Antão, maior e ao lado. Quem sabe, um dia.

Santa Teresa de Gallura e San Pantaleo, na Sardenha

    No extremo norte da Sardenha, há uma pequena cidade portuária, com praias intocadas, paisagens naturais deslumbrantes e uma animada vida noturna. Lá estão algumas das praias mais marcantes da Sardenha, fantásticos esportes aquáticos e uma ativa vida noturna, no verão. Localizada no ponto mais ao norte da Sardenha, Santa Teresa de Galura é uma cidade portuária e a porta de entrada da ilha para Córsega. Fundada no início do século XIX para proteger a ilha de contrabandistas, atualmente, Santa Teresa Gallura encanta pela cultura com influências córsegas e sardenhas.

No coração da cidade, fica a Piazza Vittorio Emanuele I. Essa animada praça central, com suas cafeterias, lojas de lembrancinhas e joalherias, é um ponto de encontro de moradores. Visite a simplista Igreja de São Victor, do século XIX. Passeie ao longo da Via XX de Setembro e encontre bares, restaurantes e sorveterias estabelecidos em casas coloridas. Experimente a tradicional comida, como a suppa cuata, camadas de pão embebidos em um caldo de carne com creme de queijo, se estiver frio. Se for calor, há bons sanduíches com os excelentes queijos e presuntos locais.
A uma curta distância a pé da Piazza Vittorio Emanuele I, fica o Porto de Santa Teresa Gallura. Aí, admire os barcos de pesca antigos e iates de luxo que flutuam na água cintilante. Esse é o ponto de partida para passeios de barco para a Córsega e a cênica Ilha Madalena. Caminhe até o promontório no extremo norte da cidade e desfrute de vistas magníficas para a costa da Sardenha e todo o Estreito de Bonifácio até a Córsega. Suba até o topo do observatório do século XVI, a Torre de Longonsardo, e aprecie a maravilhosa paisagem.
As praias de Santa Teresa Gallura têm areia dourada e água segura e cristalina, além de serem excelentes para mergulho com snorkel e mergulho submarino. A praia mais próxima ao centro da cidade é a Rena Bianca. Alugue um carro ou utilize os ônibus públicos para chegar às melhores praias da cidade. Para chegar a Santa Teresa Gallura, pode-se ir de balsa da Córsega, por um voo para o aeroporto Olbia Costa Smeralda, ou por um navio ou ferry do porto de Olbia, em uma viagem de uma hora, o que fizemos.
Junto à Costa Smeralda, na Sardenha, a poucos minutos de Santa Teresa, visitamos uma aldeia de artistas, San Pantaleo, onde a praça principal nos convida a momentos de descontração, após uma visita pelas várias oficinas e ateliês onde podemos conhecer os artistas e as suas obras. As ruas pitorescas de San Pantaleo, ladeadas por casas em granito, levam-nos até uma igreja, cuja construção foi a origem do crescimento desta pequena localidade, pois foi um centro de peregrinação religiosa, no passado.As escarpas de granito que se erguem nas proximidades da vila oferecem um cenário deslumbrante aos visitantes deste centro boêmio, que também já serviu de ‘palco’ para a aventura de James Bond “O espião que me amava” (1977).

Durante a Primavera e o Verão, a quinta-feira é um dia especial em San Pantaleo, pois é quando se organiza um dos mais famosos mercados da Sardenha, onde se exibem peças de artesanato, antiguidades e algumas das mais deliciosas iguarias da gastronomia local. Deve-se consultar o calendário antes de visitar a região, já que em julho há uma noite dedicada aos produtos tradicionais da Sardenha, particularmente da região de Gallura, e, em setembro, San Pantaleo recebe uma série de grupos da Sardenha para um festival de folclore. Bela surpresa dessa viagem à Sardenha!

Avignon e Aix-en-Provence

Já estive na França várias vezes, sobretudo em Marselha, a segunda maior cidade do país e um dos portos de navios de cruzeiro mais utilizados. Marselha é ponto de partida para várias cidades importantes ali perto e do navio saem excursões para muitas delas. Sempre quis conhecer Avignon, situada a alguns quilômetros de Marselha, num percurso de 1h e trinta minutos, aproximadamente. Havia estudado no passado sobre os papas de Avignon, um período de cisma com a igreja de Roma, em que a sede da igreja católica se transferira para lá, no século XIV, e meu desejo era conhecer o antigo castelo dos papas, patrimônio da humanidade.
Avignon situa-se na região da Provença, no sudeste da França e está localizada às margens do rio Ródano, um dos maiores da França. Região grande produtora de vinhos e de lavanda, é famosa, mundialmente, por essa cultura. Entre os anos de 1309 e 1377, Avignon foi a residência dos papas católicos. A cidade continuou sob domínio papal até se tornar parte da França, em 1791, após a Revolução Francesa. Esse legado pode ser visto no enorme Palácio dos Papas, que fica no centro da cidade e é cercado por muralhas de pedra medievais.
Palco de um famoso festival de teatro, que ocorre no verão, o Palácio dos Papas ainda estava com a estrutura de palcos sendo desmontada, ainda que já fosse final de outubro. Visitar o Palácio com aquela confusão não foi agradável, mas deu pra perceber o quão foi imponente aquela construção há oitocentos anos. Infelizmente, por ter sido utilizado como quartel militar durante a Revolução francesa e em outras guerras, a maior parte do tesouro do palácio foi dilapidada e, hoje, o que restam são paredes nuas, alguns poucos afrescos remanescentes, nenhum móvel, e exposições modernas feitas para ocupar aqueles enormes espaços e diminuir a sensação de abandono e de solidão.
Outro retrato da inexorabilidade da destruição do tempo, está na célebre Ponte de Avignon sobre o Rio Ródano, tão importante no passado que virou cantiga de roda: “Sur le ponte d’Avignon, on y danse, on y danse, Sur le pont d’Avignon, on y danse, tout em rond”, que, no Brasil virou: “Lá na ponte da Aliança…” e o final ficou muito engraçado: “Os cavaleiros fazem assim…, assim assado, carne-seca e pão sovado”. Viva a criatividade infantil! Hoje, a ponte de Avignon é um fantasma do que foi no passado, apenas uma parte está de pé como testemunha veraz da história.
Quanto a Aix-en-Provence, cujo nome significa “Águas da Provença”, é uma cidade termal desde a Antiguidade, tem um importante patrimônio cultural com a sua arquitetura, o museu Granet, o festival de arte lírica, o Grand Théâtre de Provence e a sua Catedral, afirmando-se como um importante centro turístico da França. Aix também é famosa por ser a terra natal do pintor pós-impressionista Paul Cézanne. Uma trilha a pé conecta locais como a sua casa de infância, chamada Jas de Bouffan, e seu antigo estúdio, o Atelier Cézanne. Sainte-Victoire, uma montanha de pedra calcária branca com vista para a cidade, e a zona rural periférica foram temas frequentes de suas obras. Cidade universitária por exclência, em Aix-en-Provence respira-se arte e cultura por toda parte.

Sardenha, uma ilha diferente

Estive em Cagliari, ano passado, e agora volto à Sardenha, passando por Olbia com um passeio pelo norte da ilha até Santa Teresa de Galura, no estreito de Bonifácio. A Sardenha é uma ilha italiana, com poucas características do que convencionamos ser Itália, pois lá são fortes as influências espanholas e francesas. Cenário d muitas guerras no passado, por ser uma ilha estratégica no Mediterrâneo, a Sardenha mantém bem preservada uma cultura rural, com pouca industrialização. Até os anos 1950, era pouco frequentada pelos surtos de malária comuns na ilha, o que foi resolvido com a plantação de eucaliptos australianos e dedetização. Hoje, a Sardenha é um destino turístico de milionários pelos investimentos feitos pela aristocracia catari, que transformou a “Costa Esmeralda” em uma concorrente da “Costa Azul” francesa.

Enquanto Cagliari, a capital, no sul da ilha, engloba quase a metade da população da ilha, o norte é pouco habitado. O porto de Olbia, por onde saem os ferryes que fazem a travessia para outros lugares da Itália e para a Córsega, a ilha vizinha ao norte, trouxe pouco desenvolvimento à cidade de Olbia, pequena e inexpressiva. Os turistas que ali chegam se destinam aos resorts espalhados pelas diversas praias da Costa Esmeralda, que mal podem ser vistos das estradas precárias da ilha. Fomos até Santa Teresa de Gallura, uma simpática cidadezinha, que ferve no verão e adormece no resto do ano. Vai-se até a antiga torre situada às margens do canal de Bonifácio, de onde se avista a ilha de Córsega e, com sorte, a cidade de Bonifácio. Em poucos minutos se percorre toda a cidade, sem muito o que fazer.

O mais interessante é a vila de San Pantaleo, um lugar que já foi centro de peregrinação no passado e, atualmente, é um reduto de artistas, com seus ateliês exclusivos, restaurantes sofisticados e um clima de lugar alternativo para se apreciar uma comida e bebida enquanto se contempla o cenário bucólico, com as montanhas e vegetação típica da ilha. A Sardenha produz um vinho branco muito bom, o Vermicino, e um tinto de qualidade, o Canonau, são as produções de origem controlada, típicas de cada região italiana.

Parece que, na Sardenha, ainda se vive um clima mais tranquilo que no continente italiano e isso se reflete na tranquilidade das pessoas, na morosidade dos serviços, na vida calma que se leva por ali. A língua, o Sardo, difere do italiano, mas todos se comunicam em diversas línguas. Deve ser muito bom ficar ali em bons hotéis, saboreando os pratos da culinária local e apreciando os bons vinhos regionais, mas esse é um privilégio para os ricos e endinheirados, o que, definitivamente, afasta os cruzeiristas de um dia.

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Alicante, Cádiz, Málaga, o (des)encanto das cidades espanholas

É sempre um prazer voltar à Espanha, sobretudo às cidades à beira-mar, fora do verão, quando o clima está mais ameno e não há mais tantos turistas quanto no verão. O turismo em massa ficou insuportável e é necessário frear isso, com algumas regras de visitação. Veneza já o fez, quando proibiu a entrada na cidade de grandes navios de cruzeiro, mas eles, agora, aportam em Marghera, do outro lado de Veneza, ou em Trieste, um pouco mais distante e todos dão um jeito de ir a Veneza. A cidade instituiu taxas de visitação e creio que isso ocorrerá também em outras cidades como Roma, Florença, Milão e Nápoles. Parece que isso não resolveu a frequência à cidade, só contribuiu com uma receita maior para a sua manutenção.
As cidades espanholas também sofrem com o excesso de turistas, sobretudo Barcelona. Os locais fazem protestos contra os visitantes em massa, e não deixam de ter razão. Alicante é tranquila fora do verão, bem como Cádiz, ponto de encontro da Europa com a África. O problema é Málaga, terra do Picasso, uma cidade-museu, onde se pode vistar a herança romana, árabe e cristã, uma ao lado da outra. O teatro romano, a Alcazaba e a velha catedral estão próximas, e daria para visitá-los em um um dia, se não fossem as filas enormes, com milhares de turistas querendo fazer a mesma coisa. Ou seja, impossível. Há de se escolher uma e, se der por satisfeito, se conseguir. Optamos por uma visita à Catedral, mas não conseguimos. Havia vários navios de cruzeiro no porto, era domingo e filas de pessoas se aglomeravam à porta da catedral. Os guardas, carrancudos, de duas em duas horas, autorizavam algumas pessoas a entrar. Quem não conseguia teria de retornar duas horas depois. Tempo demais para quem já viveu muito e visitou centenas de catedrais tão grandiosas como aquela.
O jeito era visitar o museu Picasso, há dois na cidade, ou um dos tantos museus de Málaga, conhecida por ser a “Cidade dos Museus”, ou nenhum deles, e parar para tomar um vinho ou um chope, naquela cidade sempre calorenta. Optamos por um que anunciava “tapas a 3,90 euros”, o que nos parecia uma boa opção para acompanhar a bebida. Antigamente, admirávamos, na Espanha, o fato de a bebida ser acompanhada por uma tapa, sempre oferecida como cortesia. Sempre havia tortilha, azeitonas, presunto, croquetes, alguma coisa para “forrar o estômago”, enquanto se bebia. Achávamos esse hábito espanhol uma das coisas mais civilizadas da Espanha e, quando gostávamos do que era servido, repetíamos, claro, pagando o extra. Isso acabou. Em Alicante, o mesmo vinho que nos serviram, foi acompanhado de azeitonas para a mesa do lado. Para nós, nada. Em Málaga, as tais tapas de 3,90 eram uma porcaria. Dois croquetes sem gosto de nada ou duas tiras de presunto duro que nem pau. Arapuca para turista. Em Cádiz, chovia, a primeira chuva do ano, segundo o lojista, e não se podia caminhar pela cidade sem o risco de tomar um banho de chuva ou de uma poça de água jogada por algum carro. A imponente catedral estava fechada, em “lunes” não abre, e o jeito foi voltar para o navio, esperando melhor tempo, algum dia, se ainda por lá passarmos.

Em Cádiz, chovia, a primeira chuva do ano, segundo o lojista, e não se podia caminhar pela cidade sem o risco de tomar um banho de chuva ou de uma poça de água jogada por algum carro. A imponente catedral estava fechada, em “lunes” não abre, e o jeito foi voltar para o navio, esperando melhor tempo, algum dia, se ainda por lá passarmos.
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