Monte Saint-Michel, joia francesa

Desde a primeira vez que fui à França, há trinta anos, desejava visitar o Monte Saint-Michel. Mas, a França é tão linda, há tantos lugares importantes a conhecer, e Saint-Michel fica tão longe de Paris, que essa viagem era sempre adiada. Agora, no último abril, chegou a hora de visitar Saint-Michel, a tão celebrada abadia e um dos lugares mais visitados da França e do mundo. Saímos de Cherbourg, o porto tão importante durante as lutas da II Guerra Mundial, e das praias da Normandia onde desembarcaram os exércitos aliados para libertar a Europa das forças nazistas e fascistas, atravessando toda a Normandia, de norte a sul, até o rochedo onde se situa a imponente abadia de Saint-Michel, cuja construção levou uma centena de anos, desde 708, quando Aubert, o bispo de Avranches, recebeu diretamente do arcanjo Miguel, chefe das hostes celestiais,a ordem de construir sobre o rochedo uma igreja a ele dedicada.

   Saint-Michel, além de ser uma igreja para cultos religiosos, sempre foi uma fortaleza. Sua construção é uma obra-prima da arquitetura medieval, pois os arquitetos construíram muralhas de grossas colunas, que abrigavam uma capela hospitalar e adega, no piso inferior; no segundo andar, uma sala dos hóspedes e dos cavaleiros com abóbodas em ogivas para sustentar o terceiro andar, onde se localizam o refeitório e o claustro dos monges que aí viviam. Saint-Michel sempre esteve no centro das disputas territoriais e políticas entre normandos e francos, franceses e ingleses, por isso, não tem apenas importância religiosa; por sua importância estratégica, foi sempre disputada por grupos rivais, em todas as épocas. Embora tenha sido um centro de peregrinação, em toda a Idade Média, não tem a mesma força religiosa de Santiago de Compostela, nos dias atuais. Confesso, que não me decepcionei com a visita a Saint-Michel, tão desejada por todos esses anos, mas não me ajoelhei e rezei como faço em outros lugares santos a que tenho visitado. São tantos turistas, é tanta gente ouvindo guias a falar em diversas línguas, há tanta fila para subir, descer, comer ou beber, que tudo se torna um exercício de muita paciência, coisa que já não se tem sobrando, com o passar dos anos. Talvez, se tivesse ido a Saint-Michel, na juventude, quando subi a Torre Eiffel, pela primeira vez, teria apreciado com mais sabor esse lugar tão especial.

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Xangai, a pérola do oriente

Saímos do Brasil com destino a Xangai, na China, uma das maiores cidades do mundo, de onde pegaríamos um navio para um cruzeiro que nos levaria à Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas,  Vietnã, terminando em Hong Kong, viagem de sonhos para qualquer um  que conheça as histórias de Marco Polo e que só imaginava o oriente. Eu já tinha ido à China, há mais de vinte anos, mas, naquela época, só visitei Pequim, a capital, as muralhas da China e Hong Kong, que ainda era possessão inglesa. Agora, era a vez de Xangai, o grande porto comercial da China e o maior do mundo. Tudo na China tem proporções gigantescas e essa experiência eu iria sentir, sobretudo, andando de metrô, no meio de milhares de pessoas. Uma loucura!

O difícil para quem mora no Brasil é chegar lá. Normalmente, temos duas opções: pelos Estados Unidos ou por Dubai, já que não existe voo direto do Brasil para Xangai. Na ida, são dois dias de viagem. Saímos na quinta para chegar no sábado à noite, com parada em Detroit, nos EUA. Aí, já aprendi que a pronúncia correta em inglês é ‘Shang-Hai’ de tanto que o agente da imigração americano me perguntou o que iria fazer lá. Ele não queria entender que eu era um professor aposentado e que iria fazer um cruzeiro saindo de Xangai. Tive de lhe mostrar ticket, reserva de hotel, dinheiro na carteira, para ele me deixar entrar em seu país. Aff!

Chegamos a Xangai cansadíssimos. O serviço de táxis na China é bom e não há necessidade de reservar transfer privado, mais caro.O câmbio é quase fixo, embora no aeroporto seja pior, como em toldos lugares. O hotel era bem no centro, próximo à parte antiga. O serviço é razoável, visto que os jovens chineses são pouco estressados e tivemos de esperá-los jantar para nos atender. Para quem está viajando há dois dias, loucos para chegar, tomar um banho e se esticar na cama faz muita diferença.

No outro dia, levantamos cedo, tomamos um café da manhã muito bom, depois de dois dias só comendo comida de avião, argh!, e fomos caminhar pela cidade. Xangai é uma cidade de avenidas amplas, bem sinalizada, com grandes parques e banheiros limpos nos parques. Só não tem papel higiênico. Nos países orientais, é imprescindível andar com papel nos bolsos. No máximo, você encontra uma torneira e uma caneca para se lavar. Por isso, os banheiros no oriente são sempre cheios de água. E o vaso sanitário à moda oriental, como nossas antigas privadas, no chão.

Depois de caminharmos bastante, chegamos à Praça do Povo, onde pegamos o ônibus turístico e fizemos o percurso de duas horas, que nos levou aos principais pontos turísticos. Xangai é dividida pelo rio Huangpu, um afluente do rio Yangtze. O centro histórico é chamado de Puxi e localiza-se no lado oeste do Huangpu, enquanto o novo centro financeiro, chamado Pudong, está na margem oriental. Ali está a principal atração turística da cidade, a Torre Pérola Oriental, com seus 468m de altura, uma das mais altas do mundo.

Le Havre e Honfleur, o antigo e o moderno

É sempre bom voltar à França, um dos destinos turísticos mais procurados do mundo. Dessa vez, fui à Normandia, mais precisamente a Le Havre e Honfleur, os dois portos marítimos situados na desembocadura do rio Sena. Le Havre está na margem norte da foz do Sena, a 208 km de Paris e, neste ano, completou 500 anos de existência, pois foi fundada por Francisco I, em 1517. É o segundo maior porto da França, atrás de Marselha. A cidade de Havre foi em grande parte destruída em 1944, na II Guerra Mundial, e foi reconstruída sob a direção do arquiteto Auguste Perret, o responsável pela maravilhosa igreja de São José, com sua monumental torre-campanário de 107 metros de altura, com a ideia de que “Deus está no centro e se eleva o espírito”. O centro histórico de Le Havre é tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco e nele se encontra, além da Igreja de São José, os prédios construídos por Perret, no estilo moderno dos anos 50, e os dois prédios em forma de concha construídos por Oscar Niemeyer, com teatro e biblioteca. Além deles, é imperdível a visita à catedral de Notre Dame, dos séculos 16 e 17, também reconstruída após a II Grande Guerra. A cidade possui vários museus, como o de História Natural e o de Arte Moderna de André Malraux, além dos jardins suspensos, também uma atração turística da bela cidade de Le Havre.

Atravessando a ponte da Normandia, a cerca de 20 km de Le Havre, situa-se o velho porto de Honfleur, de onde partiram muitos barcos com emigrantes e conquistadores do Novo Mundo. Situado no departamento de Calvados, à margem esquerda do Sena, Honfleur é um porto de pesca e de comércio. É importante centro turístico com suas velhas casas de madeira cobertas com ardósia, seus monumentos históricos medievais comoa a Igreja de Santa Catarina, toda em madeira, construída no século XV.  Dentre os principais museus da cidade está o de Eugene Boudin, pintor impressionista da segunda metade do século XIX, cuja residência é um museu municipal com várias obras dos impressionistas, dentre as de Boudin e de seus pares.

O bom mesmo de Honfleur é passear por suas ruelas medievais, saborear os produtos da Normandia, queijos, frutos do mar e o famoso licor de Calvados, sentar-se no seu velho porto e admirar a paisagem. Honfleur é linda e merece uma missa. Como era domingo, participamos de uma, na igreja de Santa Catarina, com todo o seu ritual das antigas missas solenes católicas. O povo é acolhedor, o comércio é muito bom e é um excelente passeio para um dia de domingo com a família. Amamos Le Havre e Honfleur, dois portos franceses que visitamos num único dia e onde se pode admirar os contrastes entre o antigo e o moderno, o passado e o presente.

Bruges, a Veneza do Norte

Bruges, na Bélgica, é a capital da Flandres ocidental e surgiu na confluência de vários canais, uma das principais atrações turísticas da cidade.Por isso, é conhecida como a Veneza do Norte.

Ir a Bruges e não fazer um passeio pelos seus canais é como ir a Roma e não visitar o Vaticano, já que ver o papa nem sempre é possível. Bruges conheceu sua maior prosperidade no século XIV como centro comercial, perdendo essa importância para Antuérpia no século seguinte. É uma das cidades mais românticas para se visitar, com seus mercados, a prefeitura na ampla praça principal, a igreja do Sangue Sagrado, a de Notre Dame, o hospital São João e o museu municipal com importantes obras dos primitivos pintores flamengos. O porto é ligado ao mar por um canal de cerca de 15 km, mas os grandes navios aportam em Zeebrugge, a 17 km dali.

Fomos a Bruges pela primeira vez há vinte anos, em 1997, numa excursão saída da Espanha. Nosso guia era um jovem espanhol que nos mostrou os principais pontos turísticos da cidade e, também, nos apresentou à famosa cerveja belga, produto tão famoso quanto os seus chocolates, a renda de Bruxelas, as impecáveis autopistas, ou seja, tudo que faz da Bélgica um autêntico país de primeiro mundo. Não é à toa que é a capital da União Europeia. Naquela ocasião, saímos à noite para jantar e, na volta, nos perdemos nas ruelas daquela cidade medieval. Estava frio e a neblina cobrira toda a cidade. Ficamos vagamos por algumas horas, sem localizar o hotel, até que achamos um grupo de colegas brasileiros do nosso grupo, bem mais orientado que nós e mostrou-nos o hotel, a poucos passos de onde estávamos. Que alívio!

Vinte anos depois, voltamos a Brugges, num cruzeiro. Pegamos um trem em Blankenberg e em menos de vinte minutos estávamos na estação central de Brugges. Dali até o centro da cidade é um bom pedaço, quase uma hora caminhando sem pressa, pois a cidade é para ser curtida em todos os seus detalhes. Dessa vez, fizemos o passeio de canal, tomamos a deliciosa cerveja local na praça principal lotada de turistas, comemos um sanduíche com a gostosa salsicha deles, visitamos o mercado de antiguidades, pois era sábado, e voltamos de trem para o navio, certos de que Bruges é uma cidade para ser visitada sempre. É o que ainda esperamos fazer outras vezes.

A elegância de Victoria, no Canadá

Victoria, capital da Colúmbia Britânica, é considerada a mais inglesa das cidades canadenses bem como Quebec, no outro extremo, é a mais francesa. Fundada em 1843, recebeu esse nome em homenagem à rainha Victoria, em 1850. Victoria é uma cidade elegante, com suas casas-mansões em estilo edwardiano, seus inúmeros jardins e parques. O prédio do legislativo construído em 1893 para comemorar o jubileu de diamante da rainha Victoria é uma joia da arquitetura britânica bem como o Hotel Fairmont Express e o castelo Craigdarroch dão à cidade o ar de nobreza que a distingue. As flores constantemente renovadas são a principal característica da cidade. Os jardins de Butchart e o de borboleta de Victoria estão entre os mais belos e bem cuidados do mundo. Victoria se localiza ao sul da ilha de Vancouver, cidade da qual se avizinha e que pode ser alcançada por uma hora de barco ou alguns minutos de avião. Enquanto Vancouver, situada no continente, se modernizou e se desenvolveu, Victoria ficou meio parada no tempo, conservando as relíquias de seu passado colonial britânico. É uma das cidades mais bonitas e mais elegantes que já visitei no mundo, sobretudo as do novo continente.

Claro, Quebec e Montreal têm seu charme francês, mas Victoria tem um ar de quem seta sempre esperando algum nobre pra se hospedar no Fairmont. Victoria é considerada a cidade dos jardins e, agora na primavera, ela fica ainda mais maravilhosa. Mesmo no inverno, em janeiro, ela se colore com as flores das cerejeiras; em março, com as das tulipas e, quando maio chega, a primavera explode de cores com as roseiras, as tulipas e suas cores fortes, os lírios e todas as flores constantemente renovadas por jardineiros atentos e dedicados que cuidam também dos cerca de 1.600 cestos de flores pendurados nos postes de luz numa miríade de cores. A cidade é um brinco e dá vontade de viver ali. Vivo em outra Vitória, também uma ilha, na capital do estado do Espírito Santo, no Brasil. No entanto, tivesse hoje vinte anos, já saberia a Victoria que escolheria para viver. O pouco tempo que passei em Victoria, no Canadá, serviu para dar-nos uma mostra de uma das cidades mais lindas e civilizadas do mundo. Foi como uma degustação, que se aprova para apreciar e fica na boca a vontade de experimentar mais a iguaria. Um dia, ainda voltarei a Victoria, pois ficou na boca o o gostinho de quero mais.

Alasca, a última fronteira

Para os norte-americanos, conhecer o Alasca é um sonho de toda vida. Afinal, foi o último estado a se incorporar à união, em 1959, após ter sido comprado da Rússia, em 1867, por 7.200.000 dólares. O que parecia uma fortuna, à época, acabou se revelando uma pechincha, pois, em 1898, foi descoberto ouro na região e, mais recentemente, petróleo e gás. Ou seja, embaixo daquele gelo todo, havia muita riqueza a ser explorada. Com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e uma população de 500.000 habitantes, o Alasca é o maior e o mais desabitado estado norte-americano, devido ao clima e às condições naturais pouco propícias à habitação humana. Quando chega a primavera e em todo o verão, de maio a setembro , os navios de cruzeiro partem da costa oeste americana e canadense em direção ao Alasca, refazendo o caminho dos pioneiros do final do século XIX, em condições outras que não aquelas enfrentadas por aqueles aventureiros. A primeira parada é em Ketchikan, pequena cidade conhecida como a capital mundial do salmão defumado. Com uma população em torno de 8 mil habitantes, a primeira cidade do Alasca é um paraíso para os turistas com suas lojas de produtos de inverno a baixo custo, artesanatos locais e ruas que remontam ao período áureo da cidade, o da corrida do ouro, ao final do século XIX. A Creek Street, rua histórica às margens do rio local, era a cidade das prostitutas, onde se pode visitar uma das mais famosas delas, a casa de Dolly, hoje, um museu. Por todo lado, se pode apreciar e comprar os cinco diferentes tipos de salmão defumado: o Chum, o Sockeye, o King, o Silver e o Pink. Eu, que só não gosto mais de salmão do que os ursos, fiquei que nem barata no mel. Provava daqui e dali, comprava um pouco de cada e viemos com a mala bem sortida de diferentes tipos de salmão. Uma delícia! É claro que a cidade não tem só salmão, pois era o lugar de origem do povo Tlingit. Por isso, é imperdível a visita ao Parque Estadual dos Grandes Totens, a Vila Nativa dos Saxman, outro povo local, fiordes, glaciais e apresentação dos madeireiros cortando lenha. Um dia só é pouco para tanto a conhecer. A cidade que mais me encantou foi Skagway, pouco acima de Juneau e próximo à Baía dos Glaciais, um Parque Nacional. É a mais bem conservada de todos e é bem pequena, com seus mil e poucos moradores. É como se voltássemos ao tempo, ao final do século XIX e começo do século XX, pois todas as construções são dessa época e estão muito bem conservadas. A cidade é famosa pela ferrovia construída ao final do século XIX e que leva ao Yukón, passando por sobre precipícios e entre geleiras. É conhecida como ‘White Pass” e é o passeio preferido dos turistas que vão ali pela primeira vez. Quem optou por ficar na cidadezinha, pôde degustar as delícias do “Red Onion”, um célebre saloon do passado, uma das maiores atrações turísticas atuais. A outra parada foi em Juneau, a capital do Alasca, fundada como mina de ouro, em 1880. Tem pouco mais de trinta mil habitantes e é a única capital de estado norte-americano, aonde não se pode chegar via terrestre. Só aérea e marítima. As maiores atrações da cidade são a visita ao Glacial Mendenhall, que pode ser feita até de helicóptero, a observação de baleias, o cultivo do salmão, a corroída de cachorros na neve e a subida ao monte Robert, num teleférico inaugurado há poucos anos.Além da bela vista que se pode avistar da cidade de Juneau, lá em cima se exibe um filme sobre os povos nativos da região. Também há um restaurante onde se pode degustar o famoso King crab, o caranguejo gigante do Alasca. Não é barato. Custa em torno de 25 a 30 dólares por pessoa, para degustar uma porção razoável.  Na cidade, o melhor programa é tomar uma cerveja e comer alguma coisa no “Red Dog Sallon”, um autêntico saloon do século XIX. Senti-me um autêntico Wyatt Earp, cuja arma perdida em jogo ainda está lá, exposta. Todo meu imaginário sobre os cowboys dos filmes americanos veio-o à lembrança, ao entrar naquele saloon. No palco, um cantor de música country corroborou essa sensação. Foi incrível!

São Francisco, delícia de cidade

São Francisco é uma das cidades mais agradáveis para se visitar nos EUA e, quiçá, no mundo. Ela tem um encanto, uma luminosidade, um bom astral, que poucas cidades têm. Estive lá, há vinte anos, de passagem, e agora voltei também de passagem para um cruzeiro ao Alasca. Escolhi um hotel bem no centro da cidade, perto da Union Square, de onde saem os bondinhos centenários que dão um charme todo especial à cidade e os ônibus turísticos que fazem todo o circuito principal da cidade, passando pela celebérrima Golden Gate, ponte-cartão postal e ícone máximo da cidade. Dessa vez não deu para ir à ilha de Alcatraz, visitar a famosa prisão, mas passamos perto dela, no dia seguinte, quando nosso navio passou sob a ponte em direção norte. São Francisco é legal para se andar a pé, pois cada esquina é um flash. Há os ciclistas, que adoram circular por seus parques e os que pregam a bunda no ônibus duplo, aberto, que nem nós, e só vão clicando. Tudo é legal em São Francisco. Para os que gostam de museus, há muitos, de arte e de seu passado histórico; igrejas espetaculares; um comércio superdiversificado; restaurantes para todos os gostos e preços. São Francisco possui uma das maiores colônias orientais dos EUA e a Chinatown é supervisitada; mas também possui uma Japantown e bairros de coreanos, vietnamitas com suas comidas típicas apreciadas no mundo inteiro. No entanto, parece que o mundo todo se encontra no Fisherman’s wharf, para comer frutos do mar ou beber as boas cervejas e os apreciados vinhos locais. Também se pode fazer um pequeno passeio pela baía de São Francisco, com jantar incluído.  Ou ficar circulando nos diversos bares de petiscos, em meio à multidão de pessoas e de gaivotas perigosas a nos ameaçar com suas cacas voadoras. É claro que o clima tem de ajudar. O vento que sopra lá é famoso e, mesmo sendo primavera, num dia de sol, faz frio ao entardecer ou quando se passa pela Golden Gate. Ali sopra um vento encanado que gela até a alma. Esteja preparado. O que sempre acho negativo nos EUA é o trânsito. Há carros demais e nada anda. Para irmos da Union Square ao píer 27, de onde saem os navios de cruzeiro, uma distância de menos de 10 km, gastamos mais de uma hora e cinquenta dólares de táxi. Motorista paquistanês, falando ao rádio o tempo todo com uma sua colega em punjab, sua língua nativa, foi uma tortura. Deveria ter uma lei proibindo taxista falar o que não fosse estritamente necessário e a colocar música clássica para aliviar o estresse seu e dos passageiros. Na volta, foi a mesma coisa. Pegamos um taxista polonês, do píer 27 ao aeroporto de São Francisco. Já idoso, o motorista estressadíssimo com o trânsito que não fluía, buzinava, xingava, cortava por todos os lados, enquanto íamos rezando pra Sâo Francisco, São Fernando, Santo Antônio, São Bruno, todos os nomes de santos com quem íamos cruzando pelo caminho até o aeroporto. Uma hora de sofrimento depois, chegávamos sãos e salvos, mas uma nova odisseia começava: voo atrasado, perda de conexão, mala extraviada, correria, correria, correria.  Viajar é teste de resistência. Pra velho, é risco de vida.

Pelos países do Báltico

Durante algum tempo, eu tive um “penfriend” da Lituânia, o Algius, com quem trocava selos. O país dele tinha acabado de se tornar independente, após a separação da URSS, no início dos nos 1990. Ficava a imaginar como poderiam ser aqueles três países tão pequenos, Estônia, Letônia e Lituânia, banhados pelo Mar Báltico e não tinha a menor ideia de como fossem. O Algius dizia sentir o mesmo em relação a Paraguai, Uruguai e Equador. Do Brasil, ele conhecia o futebol, o café e as mulatas do Carnaval. Eu, da Lituânia, só tinha ouvido falar do time de basquete, na época das Olimpíadas.

Recentemente, pude visitar esses três países. Tallin, uma bela cidade medieval, capital da Estônia, eu já conhecera, há uns três anos, mas foi bom revê-la e ver como os estonianos se adaptaram logo à economia de mercado e, como tratam muito bem os turistas, Tallin se tornou uma das principais rotas de navios de cruzeiro, no período de maio a setembro, quando se pode ir lá. Em outras épocas, o frio é muito, o vento terrível e, no auge do inverno, o mar chega a congelar.

A Letônia, conheci agora, mas é o menos desenvolvido dos três. O país está tentando se reerguer e se adaptar à inclusão na União Européia; contudo, a maioria dos jovens prefere tentar a vida em lugares menos frios e com mais oferta de trabalho. Riga é uma bela cidade, pois foi centro da burguesia e da nobreza russa, como São Petersburgo, mas parece uma cidade fantasma, que só vive à custa do turismo. Tem poucos moradores fixos e não aparenta ter vida própria fora da temporada turística. No resto do ano, não sei como aquele povo vive, mas vive, pois a cidade tem mais de 800 anos.

 

A Lituânia, país do Álgius, mandou muitos imigrantes para o Brasil, desde o domínio comunista, que vivem mais no sul do país. De lá, conhecemos o porto de Klaipeda, bastante abandonado após a saída dos russos, mas tentando se levantar com o turismo. A cidade é simpática e foi sede dos nazistas, na II Guerra. Hitler discursou do balcão do teatro na praça central.Alguns tripulantes brasileiros nos contaram de experiências negativas com jovens neonazistas, que abominam todos os que lhes são diferentes. Lá, visitamos a praia de Palanga, onde existe um museu do âmbar, no antigo palácio Tiskericiu. A cerveja local é muito boa, ainda barata, se comparada aos preços europeus. Nossas guias, tanto na Letônia quanto na Lituânia, eram jovens e muito simpáticas. Estonianos, letões e lituanos são um povo simples, simpático, valente, pois sobreviveram à disputa de grandes impérios. Sua história é a da resistência e é um milagre sua sobrevivência, já que outros países tão antigos como o deles, a Pomerânia, por exemplo, já desapareceram. Também por isso, valeu a pena conhecê-los, ainda que rapidamente.

Namíbia, país de desertos

Desde o alto, ao se aproximar de Windhoek, a capital, já se pode constatar o quanto a Namíbia é um país desértico. O aeroporto internacional situa-se no meio do nada, sem uma aglomeração urbana por perto. Diferente do que estamos acostumados a ver em outros lugares, não há construções, prédios, monumentos, nada. Só a savana, com sua vegetação típica de pré- deserto, com árvores esparsas, vento, e nada mais. Há poucos voos, o aeroporto não funciona à noite, todos os funcionários vão embora e um portão fecha a entrada pela segurança. Nunca tinha visto nada assim, nem mesmo no Suriname, que também tem um aeroporto no meio do nada.

Faz muito calor durante o dia, e chove à tarde ou à noite, nesta época do ano, verão, como no Brasil. Windhoek (pronuncia-se “Vinduk”) situa-se na mesma altura geográfica do Rio de Janeiro, é uma cidade pequena, moderna, tranquila, plana, fácil de caminhar e com poucas atrações turísticas. Gostei de ter visitado o Museu Nacional, onde se pode conhecer um pouco mais do país e de sua diversidade. Sua independência é recente, desde 1992, quando se separou da África do Sul. Antes era a WSA (“West South Africa”), mas a identidade com o país irmão é tão grande que se pode usar a moeda sul-africana, o Rand, sem necessidade de convertê-la ao dólar namibiano.

É a Namíbia um país com grande diversidade étnica e cultural. Os nacionais convivem com várias etnias e falam, normalmente, diferentes línguas, tendo o inglês como língua oficial. Também se fala o alemão e o africâner, uma língua derivada do colonizador holandês, alemão e francês, marca ainda muito forte e que se pode observar nos nomes das ruas, na comida e na boa cerveja fabricada no país. A Windhoek é a mais comum. São, ainda, os africâneres os principais donos das fazendas, dos hotéis, das empresas de turismo e ainda não é tão forte a presença de uma classe emergente e política dos negros, como se observa na África do Sul. Faltou aqui um Mandela, talvez. Também são de alemães os principais grupos de turistas que visitam o país, para conhecer as belezas naturais da Namíbia, seus desertos, a vida selvagem preservada nos parques naturais, sendo o Etosha o maior deles. Também encontrei muitos angolanos que vão à Namíbia para fazer compras, por isso o português é uma das línguas ouvidas pelas ruas e em algumas lojas e farmácia vi escrito: “Aqui se fala português”. Também há camelôs angolanos, vendendo artesanatos e produtos chineses pelas ruas. O povo é muito gentil, não há violência, roubos, assaltos, drogados e se pode caminhar pelas ruas a qualquer hora do dia e da noite, sem medo.

Daqui a alguns anos, a Namíbia será uma boa extensão para os turistas brasileiros que visitarem a África do Sul. E, quem sabe, de lá, ir até Angola, país irmão que, por enquanto, não tem nenhuma infraestrutura turística, além de ter em Luanda uma das cidades mais caras e perigosas do mundo. Por enquanto, a Namíbia não oferece muitos atrativos e sua estrutura para um turismo de classe média é precária. Somente é procurada por milionários, que fazem safáris lá e em Botswana, país vizinho, e não são safáris fotográficos, daqueles em que os animais são apenas fotografados. Muitos vão lá para matar os grandes cinco animais selvagens: elefante, leão, búfalo, rinoceronte, leopardo, pagando alto preço para ter um troféu na parede. Para mim, só valeu a pena ir à Namíbia, para acrescentar mais um país na minha já extensa lista de países “exóticos” visitados. Mas, convenhamos, “exóticos” somos todos nós, não?

Nas Cataratas Vitória, África

Na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe, encontram-se as “Cataratas Vitória”, uma das maiores e mais bonitas da África, assim nomeadas pelo Dr. Livingstone, “I presume”, em 1855, em homenagem à toda poderosa Rainha Vitória da Inglaterra. Para mim, que já me deslumbrei com a grandiosidade de Iguaçu e de Niágara, não é tão impressionante, mas cada uma tem sua beleza específica e, por isso, vale a pena visitá-la, sem tanto sacrifício para chegar lá. O voo de Johanesburg até Victoria Falls, no Zimbawe, ou Livingstone, na Zâmbia, é pouco mais de uma hora e a burocracia no aeroporto é mínima. Paga-se uma taxa para o visto, dependendo se for uma ou mais entrada, e logo você é recebido por bailarinos negros, evidentemente, que o acompanharão com seus gritos, saltos e batuques, em todos os lugares. Se for fazer um cruzeiro ao entardecer pelo rio Zambeze, o que é absolutamente indispensável, lá estarão eles, com seus cantos e simpatia. À noite, no restaurante do hotel, também dançarão e cantarão, interagindo com os turistas. Os japoneses ficam extasiados, fotografando e filmando tudo.

O ideal é sair bem cedo, para visitar as Cataratas Vitória, antes dos grupos de japoneses chegarem. Se for madrugador, tome o café da manhã às seis e trinta, para, às sete, quando o parque abrir, já pegar sua capa de chuva, indispensável, uma sandália de borracha e se preparar para se molhar todo, pois a neblina é forte, os pingos das quedas d’água o molham todo, o que não é tão desagradável pelo calor que se faz. Caminha-se pouco mais de um quilômetro, fotografando as várias quedas do lado da Zâmbia e sendo acompanhado por macacos típicos da região, uma espécie que tem os ovos (escrotos) azuis.

Zâmbia, Zimbawe e Malawi são países irmãos, pois ambos pertenciam à antiga Rodésia, separando-se no processo de descolonização dos anos 1960 a 1980. O Zimbabwe tem o mesmo “Presidente”, desde 1980 que, a cada dez anos, é “reeleito” por “voto popular”. Na última “eleição”, há dez anos, prometeu luz elétrica para todos, mas não cumpriu. Apesar da abundância de rios, na região, dentre os quais o Zambeze, o quarto maior da África, e o Limpopo, a maioria da população vive no escuro, em choças, sem água encanada e esgoto. É um sistema tribal, ainda. Mugabe tem 90 anos e foi reeleito, em 2013, quando estive lá,para mais dez anos de mandato. A Zâmbia é mais adiantada, tem governo democrático e um excelente futebol. Foram os campeões da África, em 2011. Livingstone, às margens do rio Zambeze, das Cataratas Victoria, foi a primeira capital da Zâmbia e tem um excelente museu a ser visitado. Ao contrário do Zimbawe, que adotou o dólar como moeda, após uma megainflação, tem moeda própria, o quacha.

Fiquei no Zimbawe, no hotel Kingdom, excelente, também às margens do rio Zambeze e bem próximo das cataratas. À Noite, quase não se vê ninguém, nas ruas da pequena cidade de Victoria Falls. Eles não saem à noite, pois temem os animais silvestres, que estão soltos, já que vivem dentro de um parque natural. Além do cruzeiro pelo rio Zambeze, onde se pode avistar hipopótamos e crocodilos, e inúmeras aves, enquanto se toma a boa cerveja local, a Zambeze, recomendo um safári nas costas dos elefantes. É um dos poucos lugares do mundo onde se pode avistar outros animais, dentro de um parque selvagem, montado em elefantes e não em jipes. Também oferecem passeio de helicóptero sobre as cataratas, que não fiz, visita a fazendas de criação de leões e um safári de dia inteiro ao parque Kobe, que está situado na fronteira onde 4 países se encontram: Zimbawe, Zâmbia, Namíbia e Botswana. Imperdível!