Palmas, capital do Tocantins

A maioria das capitais de estados brasileiros nasceu sem planejamento, daí os grandes problemas de infraestrutura com sua urbanização desenfreada e incapacidade de prover a seus moradores uma qualidade de vida adequada. Mesmo as cidades planejadas como Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, hoje são metrópoles com problemas de deslocamento ou de moradia tão comuns como os das outras capitais.  A mais recente cidade planejada para ser a capital de um estado é Palmas, no estado de Tocantins, nascido pela Constituição de 1988, desmembrado de Goiás. Palmas foi fundada em 1989 e seu projeto arquitetônico e urbanístico foi concebido pelos arquitetos Luís Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho. Como aconteceu com Brasília, a construção da cidade atraiu trabalhadores do interior do estado e de diferentes partes do país, o que provocou o surgimento de bairros periféricos de moradia populares. A partir de janeiro de 1990, Palmas se tornou a capital definitiva do estado de Tocantins, antes ocupada por Miracema do Tocantins.

De 1990 aos dias atuais, Palmas passou de vinte mil a quase trezentos mil habitantes, crescimento surpreendente, maior do que o índice nacional e estadual. Apesar disso, Palmas ainda mantém o título de ser a cidade com o maior índice de qualidade de vida entre os municípios e capitais do norte brasileiro. O nome escolhido para batizar a cidade se deve à grande quantidade de palmeiras na região, dentre as quais se destaca o buriti, e à Comarca de São João da Palma, hoje Paranã, sede do primeiro movimento separatista da região, ainda no início do século XIX. Palmas se localiza bem no centro do estado de Tocantins e é banhada pelo grande rio que dá nome ao estado e que também constitui o principal ponto de lazer, com suas praias, ilhas e passeios em barcos flutuantes. O melhor programa turístico em Palmas, antes ou depois de visitar o Parque Estadual do Jalapão, é ficar às margens do rio Tocantins, contemplando seu majestoso pôr do sol, onde uma imensa bola de fogo se esconde para surgir no outro dia, apreciando os petiscos locais, curtindo a paisagem e uma boa música e se refrescando após um dia calorento. É esse seu principal ponto negativo; o calor infernal! Palmas é, hoje, uma das cidades mais quentes do país, disputando com Cuiabá e Teresina esse título. Por isso, é inimaginável carro ou hotel sem ar condicionado.

A primeira impressão ao se chegar a Palmas é de estranheza, pois ela nada se parece com nossas cidades congestionadas, entupidas de carro e de gente. Com suas ruas largas e inúmeras rotatórias, o trânsito flui com facilidade e nada se vê de aglomeração de pessoas. Palmas não foi pensada para o pedestre. Como as cidades americanas, foi planejada para deslocamento de carro. Até a rodoviária é longe do centro, pois os bairros periféricos é que abrigam as pessoas trabalhadoras. Na Praça dos Girassóis, onde se encontra o Palácio sede do governo estadual, localiza-se o centro geodésico do país. Ali também se ergue um monumento à coluna de Prestes, que por ali passou nos idos de 1930. O primeiro grande shopping da cidade, o Capim Dourado, está próximo à Praia da Graciosa, onde também fica a zona hoteleira e maior quantidade de bares e restaurantes. O povo é simpático e hospitaleiro, essa mistura de branco, preto e índio, que fez o que o Brasil tem de melhor, sobretudo no interior, sua gente.

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Jalapão, coração do Brasil

Acabo de chegar do Parque Estadual do Jalapão, situado no Estado de Tocantins, um dos mais novos da federação brasileira, em cuja capital, Palmas, se localiza o centro geodésico do Brasil. O Parque Estadual do Jalapão é uma unidade de conservação da natureza, criado em 2001, com uma área de mais de 158 mil hectares, equivalente ao estado do Sergipe. O nome Jalapão deriva de uma planta chamada jalapa, comum a diversas plantas do gênero Ipomea, geralmente trepadeiras, cujo tubérculo é usado pela medicina popular como purgativo. A vegetação predominante é a do cerrado e a de campos limpos com veredas. Faz parte do imaginário de Guimarães Rosa, o maior prosador brasileiro, criador do épico: “Grande Sertão: Veredas”.

 

Percorri quase mil quilômetros de estradas pelo Jalapão, saindo de Palmas, em direção a Taquaruçu, um distrito da capital, em que se localizam oitenta e três cachoeiras. Só visitei duas, a da Roncadeira e a Escorrega Macaco, onde os amantes do rapel podem exercer essa prática. Pela trilha de 1,5 km que se faz até chegar às cachoeiras, pode-se observar exemplares da fauna nativa, sobretudo araras e macacos. Seguindo viagem, entra-se, formalmente, no parque em Santa Teresa do Tocantins, onde está o portal de entrada, seguindo viagem em direção a Ponte Alta do Tocantins, a cidade mais desenvolvida da região, e onde termina o asfalto. Daí pra frente, é chão e poeira, em estradas cheias de costela, atravessando pontes estreitas, poças d’água, areais, que só permitem passagem de veículos 4×4. Portanto, nada de se aventurar em carros pequenos, não preparados para esse tipo de terreno. O melhor é confiar nos experientes guias das agências locais, sempre simpáticos e solícitos, experientes e prudentes, como o jovem Samuel Marinho que guiou nosso grupo pelas estradas e veredas jalapeiras. Lá se diz que “coração de jalapeiro não bate, trepida”.

Além dos rios e cachoeiras, as características principais do Jalapão são os fervedouros e o capim dourado. Fervedouros são poços com pequenos lagos onde brotam água cristalina do interior da terra, cuja profundidade pode chegar a dezenas de metros, e onde não se afunda, pela pressão da água vinda de baixo para cima. São oásis rodeados de plantas nativas, buritis ou bananeiras e existem cerca de 21 catalogados na região, mas apenas 11 visitáveis. Paga-se cerca de 20 reais para usufruir por 15 minutos dessa maravilha e todos estão localizados em áreas particulares pertencentes aos quilombolas, antigos escravos provenientes da Bahia, detentores também dos direitos de extrair e comercializar produtos artesanais feitos com o capim dourado, famosos em todo país. O capim dourado, nativo na região, é colhido em setembro, na primavera, na mesma época em que florescem os ipês, de variadas cores, espalhados em todo cerrado. Recomendo se visitar o Jalapão nesse mês, no final da estação seca, antes de se iniciar o período das chuvas, em outubro, em que fica muito mais difícil visitar os pontos de interesse.

Não se pode sair do Jalapão sem visitar, também, suas dunas de areia vermelha e apreciar um dos mais lindos pores do sol do mundo, espetáculo que também pode ser vivido na Pedra Furada, local mágico e precioso, talvez tão sagrado quanto o famoso Uluru australiano. Infelizmente, pessoas sem consciência ambiental levam drones para soltar ali, o que irrita as centenas de araras e papagaios que ali fazem seus ninhos e as abelhas com suas colmeias. Deveria ser terminantemente proibido tal prática ali, como já ocorre nas dunas. Também fiquei impressionado com o cânion de Sussuapara, lugar onde os veados nativos, assim chamados pelos índios, bebiam água e, provavelmente, eram mais facilmente abatidos. Infelizmente, nada mais restou deles na natureza, assim como vão sendo exterminados emas, lobos-guarás, cobras e todo tipo de fauna antes soberana na região, hoje paulatinamente mortos com as queimadas comuns nessa época do ano. Aos poucos, mesmo dentro do parque, a mata nativa do cerrado vai sendo destruída para a plantação de capim para os bois ou de eucaliptos, única cultura que produz naquele terreno arenoso. É preciso uma vigilância ambiental maior para combater as queimadas, quase sempre intencionais. Talvez, o melhor seja transformar essa região espetacular como parque nacional, para que sejam preservados com mais eficiência sua flora e fauna, terra, água e ar. O Jalapão é o coração do Brasil, como está registrado no Morro do Sereno, e é preciso que todo brasileiro saiba disso, pois sua riqueza natural pode deixar de existir diante da ambição e da ignorância humanas.

Monte Saint-Michel, joia francesa

Desde a primeira vez que fui à França, há trinta anos, desejava visitar o Monte Saint-Michel. Mas, a França é tão linda, há tantos lugares importantes a conhecer, e Saint-Michel fica tão longe de Paris, que essa viagem era sempre adiada. Agora, no último abril, chegou a hora de visitar Saint-Michel, a tão celebrada abadia e um dos lugares mais visitados da França e do mundo. Saímos de Cherbourg, o porto tão importante durante as lutas da II Guerra Mundial, e das praias da Normandia onde desembarcaram os exércitos aliados para libertar a Europa das forças nazistas e fascistas, atravessando toda a Normandia, de norte a sul, até o rochedo onde se situa a imponente abadia de Saint-Michel, cuja construção levou uma centena de anos, desde 708, quando Aubert, o bispo de Avranches, recebeu diretamente do arcanjo Miguel, chefe das hostes celestiais,a ordem de construir sobre o rochedo uma igreja a ele dedicada.

   Saint-Michel, além de ser uma igreja para cultos religiosos, sempre foi uma fortaleza. Sua construção é uma obra-prima da arquitetura medieval, pois os arquitetos construíram muralhas de grossas colunas, que abrigavam uma capela hospitalar e adega, no piso inferior; no segundo andar, uma sala dos hóspedes e dos cavaleiros com abóbodas em ogivas para sustentar o terceiro andar, onde se localizam o refeitório e o claustro dos monges que aí viviam. Saint-Michel sempre esteve no centro das disputas territoriais e políticas entre normandos e francos, franceses e ingleses, por isso, não tem apenas importância religiosa; por sua importância estratégica, foi sempre disputada por grupos rivais, em todas as épocas. Embora tenha sido um centro de peregrinação, em toda a Idade Média, não tem a mesma força religiosa de Santiago de Compostela, nos dias atuais. Confesso, que não me decepcionei com a visita a Saint-Michel, tão desejada por todos esses anos, mas não me ajoelhei e rezei como faço em outros lugares santos a que tenho visitado. São tantos turistas, é tanta gente ouvindo guias a falar em diversas línguas, há tanta fila para subir, descer, comer ou beber, que tudo se torna um exercício de muita paciência, coisa que já não se tem sobrando, com o passar dos anos. Talvez, se tivesse ido a Saint-Michel, na juventude, quando subi a Torre Eiffel, pela primeira vez, teria apreciado com mais sabor esse lugar tão especial.

Xangai, a pérola do oriente

Saímos do Brasil com destino a Xangai, na China, uma das maiores cidades do mundo, de onde pegaríamos um navio para um cruzeiro que nos levaria à Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas,  Vietnã, terminando em Hong Kong, viagem de sonhos para qualquer um  que conheça as histórias de Marco Polo e que só imaginava o oriente. Eu já tinha ido à China, há mais de vinte anos, mas, naquela época, só visitei Pequim, a capital, as muralhas da China e Hong Kong, que ainda era possessão inglesa. Agora, era a vez de Xangai, o grande porto comercial da China e o maior do mundo. Tudo na China tem proporções gigantescas e essa experiência eu iria sentir, sobretudo, andando de metrô, no meio de milhares de pessoas. Uma loucura!

O difícil para quem mora no Brasil é chegar lá. Normalmente, temos duas opções: pelos Estados Unidos ou por Dubai, já que não existe voo direto do Brasil para Xangai. Na ida, são dois dias de viagem. Saímos na quinta para chegar no sábado à noite, com parada em Detroit, nos EUA. Aí, já aprendi que a pronúncia correta em inglês é ‘Shang-Hai’ de tanto que o agente da imigração americano me perguntou o que iria fazer lá. Ele não queria entender que eu era um professor aposentado e que iria fazer um cruzeiro saindo de Xangai. Tive de lhe mostrar ticket, reserva de hotel, dinheiro na carteira, para ele me deixar entrar em seu país. Aff!

Chegamos a Xangai cansadíssimos. O serviço de táxis na China é bom e não há necessidade de reservar transfer privado, mais caro.O câmbio é quase fixo, embora no aeroporto seja pior, como em toldos lugares. O hotel era bem no centro, próximo à parte antiga. O serviço é razoável, visto que os jovens chineses são pouco estressados e tivemos de esperá-los jantar para nos atender. Para quem está viajando há dois dias, loucos para chegar, tomar um banho e se esticar na cama faz muita diferença.

No outro dia, levantamos cedo, tomamos um café da manhã muito bom, depois de dois dias só comendo comida de avião, argh!, e fomos caminhar pela cidade. Xangai é uma cidade de avenidas amplas, bem sinalizada, com grandes parques e banheiros limpos nos parques. Só não tem papel higiênico. Nos países orientais, é imprescindível andar com papel nos bolsos. No máximo, você encontra uma torneira e uma caneca para se lavar. Por isso, os banheiros no oriente são sempre cheios de água. E o vaso sanitário à moda oriental, como nossas antigas privadas, no chão.

Depois de caminharmos bastante, chegamos à Praça do Povo, onde pegamos o ônibus turístico e fizemos o percurso de duas horas, que nos levou aos principais pontos turísticos. Xangai é dividida pelo rio Huangpu, um afluente do rio Yangtze. O centro histórico é chamado de Puxi e localiza-se no lado oeste do Huangpu, enquanto o novo centro financeiro, chamado Pudong, está na margem oriental. Ali está a principal atração turística da cidade, a Torre Pérola Oriental, com seus 468m de altura, uma das mais altas do mundo.

Le Havre e Honfleur, o antigo e o moderno

É sempre bom voltar à França, um dos destinos turísticos mais procurados do mundo. Dessa vez, fui à Normandia, mais precisamente a Le Havre e Honfleur, os dois portos marítimos situados na desembocadura do rio Sena. Le Havre está na margem norte da foz do Sena, a 208 km de Paris e, neste ano, completou 500 anos de existência, pois foi fundada por Francisco I, em 1517. É o segundo maior porto da França, atrás de Marselha. A cidade de Havre foi em grande parte destruída em 1944, na II Guerra Mundial, e foi reconstruída sob a direção do arquiteto Auguste Perret, o responsável pela maravilhosa igreja de São José, com sua monumental torre-campanário de 107 metros de altura, com a ideia de que “Deus está no centro e se eleva o espírito”. O centro histórico de Le Havre é tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco e nele se encontra, além da Igreja de São José, os prédios construídos por Perret, no estilo moderno dos anos 50, e os dois prédios em forma de concha construídos por Oscar Niemeyer, com teatro e biblioteca. Além deles, é imperdível a visita à catedral de Notre Dame, dos séculos 16 e 17, também reconstruída após a II Grande Guerra. A cidade possui vários museus, como o de História Natural e o de Arte Moderna de André Malraux, além dos jardins suspensos, também uma atração turística da bela cidade de Le Havre.

Atravessando a ponte da Normandia, a cerca de 20 km de Le Havre, situa-se o velho porto de Honfleur, de onde partiram muitos barcos com emigrantes e conquistadores do Novo Mundo. Situado no departamento de Calvados, à margem esquerda do Sena, Honfleur é um porto de pesca e de comércio. É importante centro turístico com suas velhas casas de madeira cobertas com ardósia, seus monumentos históricos medievais comoa a Igreja de Santa Catarina, toda em madeira, construída no século XV.  Dentre os principais museus da cidade está o de Eugene Boudin, pintor impressionista da segunda metade do século XIX, cuja residência é um museu municipal com várias obras dos impressionistas, dentre as de Boudin e de seus pares.

O bom mesmo de Honfleur é passear por suas ruelas medievais, saborear os produtos da Normandia, queijos, frutos do mar e o famoso licor de Calvados, sentar-se no seu velho porto e admirar a paisagem. Honfleur é linda e merece uma missa. Como era domingo, participamos de uma, na igreja de Santa Catarina, com todo o seu ritual das antigas missas solenes católicas. O povo é acolhedor, o comércio é muito bom e é um excelente passeio para um dia de domingo com a família. Amamos Le Havre e Honfleur, dois portos franceses que visitamos num único dia e onde se pode admirar os contrastes entre o antigo e o moderno, o passado e o presente.

Bruges, a Veneza do Norte

Bruges, na Bélgica, é a capital da Flandres ocidental e surgiu na confluência de vários canais, uma das principais atrações turísticas da cidade.Por isso, é conhecida como a Veneza do Norte.

Ir a Bruges e não fazer um passeio pelos seus canais é como ir a Roma e não visitar o Vaticano, já que ver o papa nem sempre é possível. Bruges conheceu sua maior prosperidade no século XIV como centro comercial, perdendo essa importância para Antuérpia no século seguinte. É uma das cidades mais românticas para se visitar, com seus mercados, a prefeitura na ampla praça principal, a igreja do Sangue Sagrado, a de Notre Dame, o hospital São João e o museu municipal com importantes obras dos primitivos pintores flamengos. O porto é ligado ao mar por um canal de cerca de 15 km, mas os grandes navios aportam em Zeebrugge, a 17 km dali.

Fomos a Bruges pela primeira vez há vinte anos, em 1997, numa excursão saída da Espanha. Nosso guia era um jovem espanhol que nos mostrou os principais pontos turísticos da cidade e, também, nos apresentou à famosa cerveja belga, produto tão famoso quanto os seus chocolates, a renda de Bruxelas, as impecáveis autopistas, ou seja, tudo que faz da Bélgica um autêntico país de primeiro mundo. Não é à toa que é a capital da União Europeia. Naquela ocasião, saímos à noite para jantar e, na volta, nos perdemos nas ruelas daquela cidade medieval. Estava frio e a neblina cobrira toda a cidade. Ficamos vagamos por algumas horas, sem localizar o hotel, até que achamos um grupo de colegas brasileiros do nosso grupo, bem mais orientado que nós e mostrou-nos o hotel, a poucos passos de onde estávamos. Que alívio!

Vinte anos depois, voltamos a Brugges, num cruzeiro. Pegamos um trem em Blankenberg e em menos de vinte minutos estávamos na estação central de Brugges. Dali até o centro da cidade é um bom pedaço, quase uma hora caminhando sem pressa, pois a cidade é para ser curtida em todos os seus detalhes. Dessa vez, fizemos o passeio de canal, tomamos a deliciosa cerveja local na praça principal lotada de turistas, comemos um sanduíche com a gostosa salsicha deles, visitamos o mercado de antiguidades, pois era sábado, e voltamos de trem para o navio, certos de que Bruges é uma cidade para ser visitada sempre. É o que ainda esperamos fazer outras vezes.

A elegância de Victoria, no Canadá

Victoria, capital da Colúmbia Britânica, é considerada a mais inglesa das cidades canadenses bem como Quebec, no outro extremo, é a mais francesa. Fundada em 1843, recebeu esse nome em homenagem à rainha Victoria, em 1850. Victoria é uma cidade elegante, com suas casas-mansões em estilo edwardiano, seus inúmeros jardins e parques. O prédio do legislativo construído em 1893 para comemorar o jubileu de diamante da rainha Victoria é uma joia da arquitetura britânica bem como o Hotel Fairmont Express e o castelo Craigdarroch dão à cidade o ar de nobreza que a distingue. As flores constantemente renovadas são a principal característica da cidade. Os jardins de Butchart e o de borboleta de Victoria estão entre os mais belos e bem cuidados do mundo. Victoria se localiza ao sul da ilha de Vancouver, cidade da qual se avizinha e que pode ser alcançada por uma hora de barco ou alguns minutos de avião. Enquanto Vancouver, situada no continente, se modernizou e se desenvolveu, Victoria ficou meio parada no tempo, conservando as relíquias de seu passado colonial britânico. É uma das cidades mais bonitas e mais elegantes que já visitei no mundo, sobretudo as do novo continente.

Claro, Quebec e Montreal têm seu charme francês, mas Victoria tem um ar de quem seta sempre esperando algum nobre pra se hospedar no Fairmont. Victoria é considerada a cidade dos jardins e, agora na primavera, ela fica ainda mais maravilhosa. Mesmo no inverno, em janeiro, ela se colore com as flores das cerejeiras; em março, com as das tulipas e, quando maio chega, a primavera explode de cores com as roseiras, as tulipas e suas cores fortes, os lírios e todas as flores constantemente renovadas por jardineiros atentos e dedicados que cuidam também dos cerca de 1.600 cestos de flores pendurados nos postes de luz numa miríade de cores. A cidade é um brinco e dá vontade de viver ali. Vivo em outra Vitória, também uma ilha, na capital do estado do Espírito Santo, no Brasil. No entanto, tivesse hoje vinte anos, já saberia a Victoria que escolheria para viver. O pouco tempo que passei em Victoria, no Canadá, serviu para dar-nos uma mostra de uma das cidades mais lindas e civilizadas do mundo. Foi como uma degustação, que se aprova para apreciar e fica na boca a vontade de experimentar mais a iguaria. Um dia, ainda voltarei a Victoria, pois ficou na boca o o gostinho de quero mais.

Alasca, a última fronteira

Para os norte-americanos, conhecer o Alasca é um sonho de toda vida. Afinal, foi o último estado a se incorporar à união, em 1959, após ter sido comprado da Rússia, em 1867, por 7.200.000 dólares. O que parecia uma fortuna, à época, acabou se revelando uma pechincha, pois, em 1898, foi descoberto ouro na região e, mais recentemente, petróleo e gás. Ou seja, embaixo daquele gelo todo, havia muita riqueza a ser explorada. Com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e uma população de 500.000 habitantes, o Alasca é o maior e o mais desabitado estado norte-americano, devido ao clima e às condições naturais pouco propícias à habitação humana. Quando chega a primavera e em todo o verão, de maio a setembro , os navios de cruzeiro partem da costa oeste americana e canadense em direção ao Alasca, refazendo o caminho dos pioneiros do final do século XIX, em condições outras que não aquelas enfrentadas por aqueles aventureiros. A primeira parada é em Ketchikan, pequena cidade conhecida como a capital mundial do salmão defumado. Com uma população em torno de 8 mil habitantes, a primeira cidade do Alasca é um paraíso para os turistas com suas lojas de produtos de inverno a baixo custo, artesanatos locais e ruas que remontam ao período áureo da cidade, o da corrida do ouro, ao final do século XIX. A Creek Street, rua histórica às margens do rio local, era a cidade das prostitutas, onde se pode visitar uma das mais famosas delas, a casa de Dolly, hoje, um museu. Por todo lado, se pode apreciar e comprar os cinco diferentes tipos de salmão defumado: o Chum, o Sockeye, o King, o Silver e o Pink. Eu, que só não gosto mais de salmão do que os ursos, fiquei que nem barata no mel. Provava daqui e dali, comprava um pouco de cada e viemos com a mala bem sortida de diferentes tipos de salmão. Uma delícia! É claro que a cidade não tem só salmão, pois era o lugar de origem do povo Tlingit. Por isso, é imperdível a visita ao Parque Estadual dos Grandes Totens, a Vila Nativa dos Saxman, outro povo local, fiordes, glaciais e apresentação dos madeireiros cortando lenha. Um dia só é pouco para tanto a conhecer. A cidade que mais me encantou foi Skagway, pouco acima de Juneau e próximo à Baía dos Glaciais, um Parque Nacional. É a mais bem conservada de todos e é bem pequena, com seus mil e poucos moradores. É como se voltássemos ao tempo, ao final do século XIX e começo do século XX, pois todas as construções são dessa época e estão muito bem conservadas. A cidade é famosa pela ferrovia construída ao final do século XIX e que leva ao Yukón, passando por sobre precipícios e entre geleiras. É conhecida como ‘White Pass” e é o passeio preferido dos turistas que vão ali pela primeira vez. Quem optou por ficar na cidadezinha, pôde degustar as delícias do “Red Onion”, um célebre saloon do passado, uma das maiores atrações turísticas atuais. A outra parada foi em Juneau, a capital do Alasca, fundada como mina de ouro, em 1880. Tem pouco mais de trinta mil habitantes e é a única capital de estado norte-americano, aonde não se pode chegar via terrestre. Só aérea e marítima. As maiores atrações da cidade são a visita ao Glacial Mendenhall, que pode ser feita até de helicóptero, a observação de baleias, o cultivo do salmão, a corroída de cachorros na neve e a subida ao monte Robert, num teleférico inaugurado há poucos anos.Além da bela vista que se pode avistar da cidade de Juneau, lá em cima se exibe um filme sobre os povos nativos da região. Também há um restaurante onde se pode degustar o famoso King crab, o caranguejo gigante do Alasca. Não é barato. Custa em torno de 25 a 30 dólares por pessoa, para degustar uma porção razoável.  Na cidade, o melhor programa é tomar uma cerveja e comer alguma coisa no “Red Dog Sallon”, um autêntico saloon do século XIX. Senti-me um autêntico Wyatt Earp, cuja arma perdida em jogo ainda está lá, exposta. Todo meu imaginário sobre os cowboys dos filmes americanos veio-o à lembrança, ao entrar naquele saloon. No palco, um cantor de música country corroborou essa sensação. Foi incrível!

São Francisco, delícia de cidade

São Francisco é uma das cidades mais agradáveis para se visitar nos EUA e, quiçá, no mundo. Ela tem um encanto, uma luminosidade, um bom astral, que poucas cidades têm. Estive lá, há vinte anos, de passagem, e agora voltei também de passagem para um cruzeiro ao Alasca. Escolhi um hotel bem no centro da cidade, perto da Union Square, de onde saem os bondinhos centenários que dão um charme todo especial à cidade e os ônibus turísticos que fazem todo o circuito principal da cidade, passando pela celebérrima Golden Gate, ponte-cartão postal e ícone máximo da cidade. Dessa vez não deu para ir à ilha de Alcatraz, visitar a famosa prisão, mas passamos perto dela, no dia seguinte, quando nosso navio passou sob a ponte em direção norte. São Francisco é legal para se andar a pé, pois cada esquina é um flash. Há os ciclistas, que adoram circular por seus parques e os que pregam a bunda no ônibus duplo, aberto, que nem nós, e só vão clicando. Tudo é legal em São Francisco. Para os que gostam de museus, há muitos, de arte e de seu passado histórico; igrejas espetaculares; um comércio superdiversificado; restaurantes para todos os gostos e preços. São Francisco possui uma das maiores colônias orientais dos EUA e a Chinatown é supervisitada; mas também possui uma Japantown e bairros de coreanos, vietnamitas com suas comidas típicas apreciadas no mundo inteiro. No entanto, parece que o mundo todo se encontra no Fisherman’s wharf, para comer frutos do mar ou beber as boas cervejas e os apreciados vinhos locais. Também se pode fazer um pequeno passeio pela baía de São Francisco, com jantar incluído.  Ou ficar circulando nos diversos bares de petiscos, em meio à multidão de pessoas e de gaivotas perigosas a nos ameaçar com suas cacas voadoras. É claro que o clima tem de ajudar. O vento que sopra lá é famoso e, mesmo sendo primavera, num dia de sol, faz frio ao entardecer ou quando se passa pela Golden Gate. Ali sopra um vento encanado que gela até a alma. Esteja preparado. O que sempre acho negativo nos EUA é o trânsito. Há carros demais e nada anda. Para irmos da Union Square ao píer 27, de onde saem os navios de cruzeiro, uma distância de menos de 10 km, gastamos mais de uma hora e cinquenta dólares de táxi. Motorista paquistanês, falando ao rádio o tempo todo com uma sua colega em punjab, sua língua nativa, foi uma tortura. Deveria ter uma lei proibindo taxista falar o que não fosse estritamente necessário e a colocar música clássica para aliviar o estresse seu e dos passageiros. Na volta, foi a mesma coisa. Pegamos um taxista polonês, do píer 27 ao aeroporto de São Francisco. Já idoso, o motorista estressadíssimo com o trânsito que não fluía, buzinava, xingava, cortava por todos os lados, enquanto íamos rezando pra Sâo Francisco, São Fernando, Santo Antônio, São Bruno, todos os nomes de santos com quem íamos cruzando pelo caminho até o aeroporto. Uma hora de sofrimento depois, chegávamos sãos e salvos, mas uma nova odisseia começava: voo atrasado, perda de conexão, mala extraviada, correria, correria, correria.  Viajar é teste de resistência. Pra velho, é risco de vida.

Pelos países do Báltico

Durante algum tempo, eu tive um “penfriend” da Lituânia, o Algius, com quem trocava selos. O país dele tinha acabado de se tornar independente, após a separação da URSS, no início dos nos 1990. Ficava a imaginar como poderiam ser aqueles três países tão pequenos, Estônia, Letônia e Lituânia, banhados pelo Mar Báltico e não tinha a menor ideia de como fossem. O Algius dizia sentir o mesmo em relação a Paraguai, Uruguai e Equador. Do Brasil, ele conhecia o futebol, o café e as mulatas do Carnaval. Eu, da Lituânia, só tinha ouvido falar do time de basquete, na época das Olimpíadas.

Recentemente, pude visitar esses três países. Tallin, uma bela cidade medieval, capital da Estônia, eu já conhecera, há uns três anos, mas foi bom revê-la e ver como os estonianos se adaptaram logo à economia de mercado e, como tratam muito bem os turistas, Tallin se tornou uma das principais rotas de navios de cruzeiro, no período de maio a setembro, quando se pode ir lá. Em outras épocas, o frio é muito, o vento terrível e, no auge do inverno, o mar chega a congelar.

A Letônia, conheci agora, mas é o menos desenvolvido dos três. O país está tentando se reerguer e se adaptar à inclusão na União Européia; contudo, a maioria dos jovens prefere tentar a vida em lugares menos frios e com mais oferta de trabalho. Riga é uma bela cidade, pois foi centro da burguesia e da nobreza russa, como São Petersburgo, mas parece uma cidade fantasma, que só vive à custa do turismo. Tem poucos moradores fixos e não aparenta ter vida própria fora da temporada turística. No resto do ano, não sei como aquele povo vive, mas vive, pois a cidade tem mais de 800 anos.

 

A Lituânia, país do Álgius, mandou muitos imigrantes para o Brasil, desde o domínio comunista, que vivem mais no sul do país. De lá, conhecemos o porto de Klaipeda, bastante abandonado após a saída dos russos, mas tentando se levantar com o turismo. A cidade é simpática e foi sede dos nazistas, na II Guerra. Hitler discursou do balcão do teatro na praça central.Alguns tripulantes brasileiros nos contaram de experiências negativas com jovens neonazistas, que abominam todos os que lhes são diferentes. Lá, visitamos a praia de Palanga, onde existe um museu do âmbar, no antigo palácio Tiskericiu. A cerveja local é muito boa, ainda barata, se comparada aos preços europeus. Nossas guias, tanto na Letônia quanto na Lituânia, eram jovens e muito simpáticas. Estonianos, letões e lituanos são um povo simples, simpático, valente, pois sobreviveram à disputa de grandes impérios. Sua história é a da resistência e é um milagre sua sobrevivência, já que outros países tão antigos como o deles, a Pomerânia, por exemplo, já desapareceram. Também por isso, valeu a pena conhecê-los, ainda que rapidamente.