Patagônia revisitada

Visitamos a Patagônia, fazendo a travessia do estreito de Magalhães e o Canal de Beagle, pela primeira vez, em janeiro de 2006. Era um velho e pequeno navio da Princess, o Regal, que entrava pelos fiordes e parava bem perto das geleiras. Nosso quarto era o penúltimo, bem perto de uma jacuzzi ao ar livre que só era ocupada por alguns russos nossos vizinhos, os únicos que ousavam sair sem roupa naquela temperatura. Foi um passeio lindo! O sol estava radiante, naqueles dias, o mar calmo e fizemos uma travessia inesquecível. Nunca vou esquecer a visão do Cabo Horn e a entrada no Atlântico, após um dia inteiro de travessia. Por esse motivo, resolvemos, dez anos depois, fazer o mesmo roteiro, pelo caminho inverso, agora saindo do Rio de Janeiro e terminando em Santiago. A viagem já começou complicada no embarque. O porto do Rio estava em obras e levamos uma eternidade para chegar perto com as malas, mesmo vindos do aeroporto Santos Dumont. Ao chegarmos, o caos total. Havia oito navios embarcando simultaneamente, pois era a primeira segunda-feira após o réveillon, onde vários barcos estiveram para o espetáculo de fogos. Com calma e jeitinho, conseguimos embarcar com umas duas horas de espera. Teve gente que levou oito. Com isso, oi navio só saiu com algumas horas de atraso, logo recuperados na travessia até Buenos Aires. Até aí,m tudo bem. Tempo bom, mar de almirante, Buenos Aires é sempre uma festa para brasileiros, apesar de pequenas rusgas com taxistas, sempre querendo levar vantagens sobre turistas como em (quase) todas as partes do mundo.

Ao sairmos de Buenos Aires, o bicho começou a pegar. O tempo virou, o mar ficou agitado, vento de 120 km/h, ondas de seis a oito metros. A próxima parada deveria ser nas ilhas Falklands, Malvinas para os hermanos, mas não deu. O navio não pôde atracar e um passageiro teve de ser retirado de helicóptero, por problemas de saúde, numa operação arriscada. O comandante dava avisos frequentes aos passageiros, mesmo na madrugada, e isso causou um clima de certo pânico aos passageiros. Havia muitos brasileiros a bordo, alguns navegantes de primeira viagem. Alguns poucos chegaram a se vestir com os coletes salva-vidas e não os tiravam nem para o café da manhã. O comandante passou pelo Cabo Horn, nevava e fazia muito frio, um vento que impedia de sair para tirar as fotos tão sonhadas e depois seguiu para Ushuaia, onde não tivemos permissão para desembarcar. Chegamos, vimos do mar a bela cidade do fim do mundo com suas casinhas coloridas, tiramos fotos, demos adeus e seguimos viagem. Uma decepção para todos que não a tinham visitado de outra vez, como nós. Daí pra frente foram dois dias de pura maravilha. Para compensar a frustração, o navio percorria cada canto do Canal do Beagle, mostrando a beleza de suas geleiras, céu e mar em harmonia. Isso até chegarmos a Punta Arenas, já no Chile. Embora estivesse ventando muito e o mar não estivesse favorável, o navio conseguiu atracar. Passageiros e tripulantes desceram em peso. Mais de três mil foram a terra, pois já estávamos há uma semana a bordo, desde Buenos Aires, sem pôr os pés no chão. Eu e minha esposa não tivemos pressa. Já tínhamos visitado Punta Arenas antes e agora era só conferir o que mudou. Quando descemos, nossa lancha teve dificuldade para atracar; algumas pessoas se aborreceram com o pobre piloto, chamando-o de barbeiro, sem prever o que viria depois. Saltamos, pegamos um city-tour local, com alguns brasileiros que conhecemos ali, fomos ao cemitério e visitamos a mais famosa sepultura que existe ali, embora não seja a mais grandiosa. É a do índio desconhecido, uma homenagem dos nativos da região aos seus antigos antepassados. É lugar de peregrinação dos nativos, que veneram esse índio como uma divindade. Alguma coisa parecida com os nossos cultos umbandistas. Voltamos para o centro da cidade, fizemos algumas comprinhas. O vinho ali era muito barato, pois é zona livre de impostos, mas, infelizmente, só se podia levar duas garrafas a bordo, uma por passageiro. Vi vinhos de quase cem reais aqui, a cinco dólares lá. Que pena! Eram duas horas apenas, mas disse para Teca: Vamos voltar, pois esse tempo pode virar. Já tinha virado. Havia uma fila enorme e só conseguimos embarcar mais de uma hora depois. Foi a última lancha permitida. A partir daí, a marinha chilena impediu o embarque e cerca de duas mil pessoas ficaram em terra, sem poder voltar. Aí foi uma agonia tanto para os que ficaram quanto para os que estavam a bordo, pois o comandante avisa o tempo todo o que estava tentando fazer para socorrer o povo e trazê-los a bordo. Havia velhos e crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e os que necessitavam de medicamentos. De quatro da tarde às dez da noite, foi um sofrimento generalizado. Somente a partir das dez da noite, quando o vento amainou, foi permitido iniciar o retorno dos passageiros para o navio, operação que levou às quatro horas. Somente às duas da manhã, com todos a bordo, pudemos prosseguir a viagem até Valparaíso, aonde chegamos dois dias depois. Depois de tanto contratempo e para evitar um motim a bordo, no dia seguinte, todos receberam uma cartinha do comandante pedindo desculpas pelos inconvenientes, devolvendo o dinheiro das taxas pagas pelos portos onde não desembarcamos e dando a cada passageiro um crédito no valor do que pagamos pelo cruzeiro, sem as taxa, para utilizar em próximos cruzeiros da companhia. Medida justa e acertada para um cruzeiro nada tranquilo e favorável para quem sonhou com uma prazerosa viagem de férias.

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