Istambul, cidade dividida

Istambul, a antiga Constantinopla e Bizâncio, é uma das cidades mais interessantes do mundo, pois situa-se entre  dois mundos, oriente e ocidente, dois continentes,Europa e Ásia, duas religiões, cristianismo e islamismo e várias outras dualidades que se queira achar. Para mim, é uma das cidades mais lindas do mundo e a travessia do estreito do Bósforo, que já fiz algumas vezes, um dos maiores espetáculos da terra. Alguns acham voar a Capadócia sobre balões. Como sou amante do mar, sempre vou admirar as paisagens, quando do mar se podem ver as maravilhas humanas integradas com as belezas naturais.

Já fui algumas vezes a Istambul, desde 1994, quando lá estive pela primeira vez. E a cidade mudou muito, de lá para cá. Ficou mais ocidental, mais europeia, mais ‘civilizada’, para os nossos padrões. Hoje, ninguém mais usa as roupas turcas tradicionais, exceto nos shows folclóricos, a juventude fala inglês, como no mundo todo, a comida está mais parecida com a que se come nas grandes cidades turísticas, há metrôs, ônibus turísticos que percorrem os principais pontos de interesse e a cidade perdeu um pouco do encanto que tinha no passado, por seu exotismo. Senti o mesmo no Marrocos, quando retornei ao país, décadas depois.

Em 2015, voltei a Istambul e a cidade estava irreconhecível. Com a guerra da Síria, milhares de imigrantes ocuparam a cidade, vivendo nas suas praças, banhando-se em suas fontes, pedindo esmola nas ruas e sinais. São mulheres famintas com os filhos a tiracolo implorando ajuda para se alimentar. A cidade ficou perigosa para o turista, pois, como está sempre repleta de gente, há sempre um risco de um batedor de carteira surrupiar uma bolsa de alguém desprevenido deslumbrado com as mesquitas e os antigos palácios dos sultões

. Caminhei, como sempre gosto de fazer quando vou lá, da praça Taksim, o ponto nevrálgico da cidade, onde milhares de pessoas circulam diariamente, percorrendo toda a rua comercial antigamente percorrida pelo bonde e que vai dar à torre de Gálata. O comércio ali é impressionante. A Turquia é um dos maiores produtores de confecções do mundo, pois tem matéria-prima abundante e mão de obra barata; por isso, tudo ali pode ser comprado a um preço bem acessível. Deve-se fugir das lojas do grande Bazar, pois são as mais caras. Atravessa-se a ponte de Gálata com seus inúmeros pescadores e pode-se até comer um peixinho frito pescado ali mesmo, mas a cerveja é cara. Alcoolismo nunca é bem-vindo em países muçulmanos, mesmo para turistas. Logo após a ponte, chega-se ao mercado egípcio, o milenar mercado das especiarias, que foram o centro da ambição dos ocidentais e criaram o império português, que moveu mundos e fundos em sua busca.

Para mim, Istambul perdeu um pouco de sua magia, pois, diante da grandiosidade da Mesquita Azul, da Santa Sofia, do palácio Topkapi, não sabemos se fotografamos, posamos, admiramos ou nos preocupemos com as mãos estendidas pedindo uma esmola por amor de Alah. E o pior: Istambul virou pontaria para os radicais do Exército Islâmico, pela ajuda que a Turquia tem dado aos que os combatem na Síria e no Iraque e também pelos radicais curdos, que lutam por um país independente. Estive lá há um ano, em agosto de 2015, e comentei com minha esposa ter um pressentimento de que Istambul seria atacada em breve. De lá para cá, foram cinco ataques, o último há pouco no aeroporto, com centenas de mortos e feridos. Uma lástima! A bela Istambul não merecia isso.

Azerbaijão, onde a Europa termina

Pois é. Sempre pensei que a Europa terminasse em Istambul, mas estenderam a fronteira até o Azerbaijão, nela incluindo os três países do Cáucaso, Geórgia, Armênia e Azerbaijão, que visitamos em junho de 2015. E o mais complicado de ir é o Azerbaijão, mas vale a pena. O primeiro obstáculo a vencer é o visto. Enquanto a Geórgia não o exige, e o da Armênia pode ser tirado no Brasil, sem problema, o do Azerbaijão dá um trabalho… É preciso que alguém de lá nos convide: geralmente, uma agência de viagem, que faz isso cobrando, evidentemente. Depois, a taxa, fotos, documentos etc. Fica bem caro e demorado. O visto chegou para nós, já na Armênia, às vésperas de embarcar. Pensamos que estava tudo tranquilo e favorável. Que nada! Ao chegarmos a Baku, de um voo vindo de Tblisi, a entrada foi um perrengue, pois tínhamos visto da Armênia no passaporte. Como eles estão em guerra, ficamos uma meia-hora entre idas e vindas de homens mal-encarados, cópias de passaporte, telefonemas, até que nos liberaram a entrada. E éramos um grupo de doze portugueses e dois brasileiros, todos sexagenários pra riba. Ninguém com cara de terrorista ou de armênio, penso. Ou todos. Vai saber.

A surpresa começa no aeroporto, um dos mais modernos do mundo. Lembrou-me o de Dubai. E o Azerbaijão é, mais ou menos, isto: um Emirado Árabe agora europeu. Desde que se libertaram da URSS, após uma guerra sangrenta contra os russos, no início dos anos noventa, estão nadando em dinheiro do petróleo. E estão transformando um país antes atrasado da Ásia, num moderno país quase europeu. Baku está cheia de prédios modernos, shoppings de arquitetura arrojada, estádios, hotéis e uma juventude sequiosa de consumo e de novidades como toda do mundo. Embora o país seja muçulmano, não é radical. Poucas mulheres usam véu, shador ou burka, só as mais velhas e do interior. A maioria usa roupas ocidentais, fuma e dirige como as ocidentais.

Chegamos em plenos jogos olímpicos europeus e a cidade estava fervilhando de atletas, já nos últimos dias de competição. Pudemos assistir, pela tevê, à cerimônia de encerramento dos jogos, uma festa em que eles procuravam mostrar suas tradições e sua inserção na modernidade. Por causa da festa, tivemos alguns problemas no último dia, em Baku, quando resolvemos ficar sozinhos, no centro da cidade, após visita a um sítio pré-histórico na fronteira do Irã e tivemos dificuldade para voltar para o hotel. Trânsito impedido, metrô fechado, ausência de táxis. Com dificuldade, conseguimos um táxi, mas o motorista nada entendia de inglês e havia vários hotéis com o mesmo nome do nosso, Quafkas. Custou a acertar o que queríamos. Provavelmente, de propósito, como sói acontecer com os taxistas no mundo todo.

Diferente dos guias anteriores, o do Azerbaijão era um jovem, estudante universitário de letras espanholas. Inexperiente, fez o que pôde, mas como ia à balada, chegava cansado e mal dormido das noitadas. Afinal, a cidade estava cheia de gatas e ele era louco pelas nórdicas. Ainda não tinha pegado nenhuma; não sei se conseguiu no último dia. Pelo menos, foi o que me disse. Nossa primeira visita em Baku foi ao Memorial aos mortos da guerra contra os russos. Assistimos à troca da guarda e de lá se tem uma vista ampla da bela Baku. Depois, visitamos a fortaleza medieval da velha cidade, tombada como Patrimônio Mundial pela Unesco. Fizemos um pequeno cruzeiro pelo mar Cáspio, de onde se tem uma bela vista da cidade, almoçamos num restaurante típico da cidade medieval e à tarde fomos visitar  a península Absheron, com seus fogos eternos e lugar de adoração dos cultuadores de Zoroastro. A Montanha de Fogo é outro lugar classificado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, por ser única no mundo. No outro dia, visitamos Gobustan, um sítio arqueológico precioso, moderníssimo, onde se pode ver grande parte da história da região e da humanidade, também local tombado pela Unesco.

Armênia, país milenar

A Armênia é um país muito antigo, cuja história se perde nas brumas do tempo. Eles se dizem descendentes de Jafé, filho de Noé, que, de acordo com a tradição e a história bíblica, ancorou sua arca, após o Dilúvio, sobre o Monte Ararat. Antigamente, esse monte estava no centro da Armênia, pois o país se formou em torno dele. Hoje, pertence à Turquia, o maior inimigo da Armênia e hoje detentora da maior parte de seu antigo território. Os armênios celebraram, no ano passado, o centenário do grande genocídio de seu povo, ocorrido durante a primeira guerra mundial, em 1915. Os turcos não concordam com essa palavra. Dizem que foi uma guerra normal com perdas de ambos os lados. A verdade é que mais de um milhão de armênios foram exterminados, dentre homens, mulheres e crianças. Os turcos só perderam alguns soldados em combate. Uma visita ao museu do genocídio, em Yerevan, é importante para conhecer essa história terrível e que pode ter servido de inspiração aos nazistas para exterminar os judeus, na segunda grande guerra. Armênios e judeus são muito parecidos em suas convicções religiosas e têm uma história comum de luta e de união de seu povo em torno de crenças religiosas. Foram os armênios o primeiro povo a se converter ao cristianismo e, em Echiamiadzin, a sede episcopal do país, encontra-se a primeira igreja cristã do mundo, patrimônio tombado pela Unesco.

Saímos da Geórgia pela fronteira de Sadakhlo e lá trocamos de guia e de ônibus. A simpática guia georgiana deu lugar à jovem e refinada guia armênia. Como é bom ter guia nativo para se conhecer um novo país! Vamos aprendendo a história do país e de seu povo, coisas que nunca aprendemos na escola ou nunca saberíamos, se não tivéssemos um guia para orientar. Guias e motoristas são encarnações de brâmanes, nos dizem os sábios indianos, e é verdade. Entramos na Armênia pelo vale do rio Debed e perto da fronteira já fomo visitar os mosteiros de Sanshin e Haghpat, patrimônios da Unesco. Ali almoçamos a deliciosa comida armênia, que lembra a de todo oriente médio, à base de berinjelas, azeite, grão de bico, azeitonas, carne de frango ou de carneiro. Continuamos a viagem até Yerevan pelas montanhas da Armênia, carneiros pastando e picos nevados. Uma paisagem inesquecível! Passamos por comunidades rurais antiquíssimas até chegarmos a Yerevan, a moderna capital do país. Antes de chegarmos lá, fizemos uma parada no monumento ao alfabeto armênio. Eles têm muito orgulho de sua língua, única no mundo, e de sua literatura. A primeira visita que fizemos, na capital, foi ao museu dos manuscritos antigos Matenadaram, onde se conservam mais de 17 mil manuscritos, a maior coleção do mundo, um tesouro da Armênia e da história da humanidade.

À tarde, fomos até Khor Virap, de onde se avista, no lado turco da fronteira, o monte Ararat, que, na verdade, são dois, um maior e outro menor. Lindo panorama! Depois, fomos a Artasaat, antiga capital da Armênia, onde visitamos o poço onde esteve prisioneiro S. Jorge, o iluminador, um dos santos cristãos do país. Depois, visitamos Vagharsapat, Ecchmiadzin e o museu dos tesouros religiosos armênios, Apesar de anos de domínio soviético e do massacre dos muçulmanos armênios, é muito forte o cristianismo armênio, que é único, pois a igreja armênia na está ligada à romana, nem à grega ou à russa. O país tem inúmeros mosteiros da era medieval, a maioria tombada pela Unesco, e visitamos alguns comol o Geghard, uma joia, onde assistimos a um concerto de música armênia medieval. O povo armênio é muito musical, e dentre seus descendentes espalhados pelo mundo há músicos famosos, tanto clássicos quanto populares como a Cher. Como estávamos no verão, a grande atração de Yerevan era sair de casa para ouvir as músicas tocadas na fonte musical e suas luzes coloridas na praça em frente ao museu Histórico Nacional. Lá, tivemos outra aula sobre a história e a cultura desse país milenar. Nosso último dia na Armênia foi uma visita ao lago Sevan, a 2.000 metros de altitude, onde visitamos o cemitério Noratus com seus 900 jachkárs, cruzes de pedra e o mosteiro de Sevanavank. Nossa última noite na Armênia foi na cidade termal de Dilijan, no Parque Nacional do mesmo nome. Jantamos num hotel das montanhas e à noite tivemos a surpresa de um concerto de piano de um célebre músico local, que estava no hotel. Saímos bem cedo em direção à fronteira da Geórgia, levando de lanche o que eles costumam comer no café da manhã: pepino, tomate, ovo cozido, café gelado e iogurte. Tirando o café gelado, o resto foi devorado durante a viagem até Tblisi, a capital da Geórgia, onde embarcaríamos para Baku, no Azerbaijão. Como Armênia e Azerbaijão são inimigos, desde a guerra pela disputa de Nagorno-Karabah, eles não têm relações diplomáticas. Por isso, tivemos de voltar à Geórgia, para embarcarmos para o Azerbaijão. Foram cinco dias intensos na Armênia, um mergulho na cultura daquele país tão antigo e saímos conhecendo bastante de um povo que resiste à destruição há tantos anos e contra tantos inimigos. Como os judeus, mas sem o apoio dos Estados Unidos.

 

Zanzibar, a ilha das especiarias

Na juventude, adorava ler as obras de Júlio Verne. Talvez elas tenham sido responsáveis pela criação de um imaginário aventureiro de estar sempre à procura de lugares exóticos, povos diferentes e culturas diversas para conhecer. Dentre os livros que li havia um que se chamava “De Dakar a Zanzibar”, os dois extremos das costas oriental e ocidental da África. Há poucos anos, visitei Dakar, numa viagem de cruzeiro, que fazia uma parada lá. Foi um dia apenas e fiquei com vontade de permanecer mais alguns dias naquela cidade para visitar as belezas e os contrastes do Senegal. Agora, pude ir a Zanzibar, a ilha das especiarias, hoje pertencente à Tanzânia.  Até a independência dos ingleses, na década de 1960, Zanzibar, a ilha, e Tanganika, a parte continental, tinham independência. Juntos, formaram a República Federativa da Tanzânia, um dos mais tranquilos países africanos, destino favorito de europeus para safáris e, especificamente, de Zanzibar, para relax nas praias paradisíacas de areias brancas e finas do Oceano Índico.

Zanzibar tem vários atrativos. O primeiro é o fato de ser conhecida como a ilha das especiarias desde a época dos portugueses, que ali chegaram com Vasco da Gama, em 1498. Portugal teve soberania sobre a ilha por uns duzentos anos, até que foram expulsos pelos omanis, que  a dominaram e implantaram o islamismo, religião predominante na ilha. A velha Zanzibar, também chamada de “Cidade de Pedra”, é patrimônio histórico da humanidade, com suas relíquias tombadas pela Unesco, como o antigo Palácio dos Sultões, a Casa das Maravilhas, o velho Forte português, os banhos turcos e o antigo mercado de escravos. Percorrer suas vielas labirínticas, que lembram as ruas estreitas de Fez, no Marrocos, caminhar em círculos, daí a necessidade de um guia local ou de GPS, é um dos grandes prazeres dos turistas que ali acorrem vindos do mundo todo. À tarde, ver o pôr do sol perto do cais e do antigo Palácio do Sultão é prazer garantido para os amantes das viagens e das belezas do mundo.

Para chegar a Zanzibar, pode-se ir de avião ou de barco rápido (um catamarã) vindo de Zanzibar, numa viagem aérea de meia hora ou de duas horas, marítima. Há bons hotéis para se hospedar na Cidade de Pedra e maravilhosos resortes nas praias do leste para se descansar após o agito de Dar-es-Salaam ou alguns dias de safári. Zanzibar tem como atrativo ainda ter sido o berço natal de Fred Mercury, nome artístico de Farrokh Bulsara, que ali nasceu em 5 de setembro de 1946, filho de pais persas,  tendo morrido em Londres, em 24 de novembro de 1991. Fred Mercury foi um cantor, pianista e compositor britânico, que ficou mundialmente famoso como fundador e vocalista da banda britânica de rock Queen, que ele integrou de 1970 até o ano de sua morte. Pode-se visitar a casa onde nasceu, em Zanzibar, e outros locais em que viveu na infância. Há um bar com seu nome e pratos no cardápio que o homenageiam, bem à frente da Casa das Maravilhas, e um belo lugar para contemplar o pôr do sol, enquanto se saboreia uma Kilimanjaro, a cerveja local. Para os amantes da natureza, há passeios para se visitar tartarugas gigantes, golfinhos e um macaco de cara vermelha, original dali. Lugar imperdível para se curtir uma lua de mel, passar alguns dias inesquecíveis, pouco conhecido dos brasileiros, que ainda não descobriram Zanzibar.

Comida em viagens

Para quem viaja muito, como eu, e para lugares distantes e com hábitos e costumes bem diversos dos nossos, há de se ter cuidado com a alimentação. Comida de avião é um perigo; aquela maionese da salada ou o suco do copinho podem estragar uma viagem. Bebida, também, é outro veneno, em voos longos. Lugar de beber todas é em casa, nunca fora. Se for beber, não viaje, nem se tiver alguém pilotando. Quando era jovem, e a Varig ainda existia, “ai que saudades que tenho da aurora da minha vida”, qualquer viagem para Buenos Aires era uma festa de comes e bebes, em fartura e qualidade. Hoje, você voa de lá pra cá, num ônibus da Gol ou da Tam, e  aterrissa na rodoviária de Vitória, isso mesmo, pois não temos aeroporto, sem direito a um sanduba, só pago. Vá lá, servem um copo d’água, de má vontade.

Quando se chega ao destino, resolvido o problema da acomodação, vem o da comida. Comer o quê, na Malásia ou no Vietnã, por exemplo, onde estive, recentemente. Comida de rua, comum por lá e por cá, é sempre um perigo, embora seja barata. Comer em hotel é comer a mesma coisa, em toda parte do mundo. Comida típica é sempre um risco. Imagine oferecer uma feijoada com caipirinha para os gringos, em pleno mês de fevereiro, no Carnaval. Morte na certa ou, pelo menos, internação no banheiro do quarto. Já fiquei internado em banheiro de quarto de hotel em Katmandu, nos três dias que por lá passei. O Nepal, divulgado na novela  Joia rara, da Globo,  é bem diferente do que pude ver por lá. Pelo menos, na novela, não existem a poluição da cidade, a falta de higiene e a miséria nas ruas que tanto me impressionaram, quando conseguia sair do banheiro e sair um pouco pelas ruas, como o príncipe Sidarta, antes de se tornar Buda.

Sempre aviso aos viajantes com menos milhas voadas que eu: não é porque o bufê do restaurante é farto que se deve experimentar tudo. Evite comer o que não conhece e fuja dos óleos, azeites, cremes e das especiarias que tanta cobiça despertavam nos nossos antepassados europeus. Enfiar o pé na jaca no café da manhã, para economizar o almoço, é correr o risco de passar o dia em busca de toaletes em museus, estações, lojas e nas ruas, nem sempre fáceis de encontrar ou possíveis de usar. Já tive grupo inteiro com diarreia, em visita às pirâmides do Egito, local onde não há banheiro. Já contei, em crônica sempre lembrada por amigos, o aperto que passei nas muralhas da China. Em Macchu Picchu, também não há banheiro disponível para os milhares de turistas que ali vão, diariamente. Limpos, então, é luxo que só se encontra na Suíça.

Beber e comer pouco, comida saudável, em locais limpos, deveriam ser os hábitos comuns a todo viajante, mas como resistir a um chouriço oferecido por uma simpática vietnamita no mercado de Hue? A razão dizia não, mas o olhar dela oferecendo era tão parecido com o de minha avó, que o fazia tão bem, que não resisti, para horror dos espanhois que me acompanhavam. Felizmente, não aconteceu nada de grave, mas poderia ter acontecido. Da mesma maneira que provei uma jaca fedorenta da Malásia chamada Durian, muito apreciada por lá, mas proibida de ser consumida em hotéis, aeroportos ou transportadas em aviões, pelo mau-cheiro que exala. O sabor é de jaca… podre. O gosto na boca fica pelo resto do dia. Enfim, comida boa, pra nós, é o arroz com feijão de cada dia. O resto é experiência gastronômica ou culinária de cada povo e cultura. Gostar de caviar e escargô pode ser chique pra uns; pros malaios é comer Durian; pros vietnamitas, embrião de pato. E assim caminha e come a humanidade….

 

Safári na Tanzânia

Hakuna matata é a expressão em suaíli, língua oficial da Tanzânia, que bem define o país: “Sem problema” ou “Não se preocupe”. A frase é muito utilizada em países como a Tanzânia e o  Quênia, com o sentido de “ok “e “sem problemas”, para responder perguntas. “Hakuna” significa não há e   “matata” significa problemas. A frase ficou famosa na época do lançamento do filme “Rei Leão”,em 1994, pois dá nome à canção temática. Para quem quer conhecer um país africano tranquilo, acolhedor, com muitas belezas naturais quase intocadas, grande diversidade cultural, a Tanzânia é o que há de melhor.

Acabo de chegar de lá, após um longo voo, via África do Sul. A vantagem é que vim pela South África e o vinho servido a bordo é muito bom, além das películas e do bom serviço de bordo. Há uma grande diferença quando voamos por companhias europeias e não europeias. Viajar pela Air France, KLM e Air Europa, na classe turística, é uma verdadeira tortura. Por outro lado, as asiáticas Etihad, Singapore, Catar, Emirates e as africanas South África e Ethyopian dão aos viajantes das classes econômicas uma dignidade que as europeias ignoram.

 

A Tanzânia possui cinquenta milhões de habitantes e dez por cento vivem em Dar-es-Salaam, uma metrópole às margens do oceano Índico. De cima, geograficamente. Me lembrou Vitória, capital do Espírito Santo, pelo canal e o porto da cidade. Embaixo, no entanto, é bem diferente, com um trânsito caótico, quase sem semáforos, ruas espremidas de pedestres, carros velhos, tuc-tucs, ônibus modernos e pequenos entupidos de gente, poeira, cheiro de óleo diesel, esgoto na rua e pedintes, geralmente refugiados da Etiópia ou da Somália.

Dar, como a chamam, tem bons hotéis, diversos restaurantes com uma comida bem saborosa, muita influência indiana e uma tranquilidade africana. Está situada proporcionalmente à altura da Bahia e, em alguns momentos, me senti em Salvador. Até a comida picante é a mesma! Lá, visitei o Museu Nacional, o Jardim Botânico, igrejas e praças. Caminhei uns cinco quilômetros pelas ruas, no meio do povo, curtindo-lhe a beleza dos trajes, o contraste de suas peles negras e roupas imaculadamente brancas ou multicoloridas.

O maior atrativo da Tanzânia são seus Parques de Proteção à Vida Natural e os mais famosos são o Serenguetti e o Ngorongoro, na fronteira com o Quênia. Para chegar lá, tem-se de ir de avião até Arusha, a segunda maior cidade do país. Além dos Parques Nacionais, existem as Reservas onde se pode caçar, sendo uma das maiores a Selous, com 55 mil quilômetros, maior do que muitos países e até mesmo o Espírito Santo, com 45 mil quilômetros. Há uma taxa que se paga para matar bicho, variando de 300 dólares para um Impala (pequeno veado) a 50 mil dólares (um leão). Acho isso terrível, mas é de onde tiram renda para sustentar os parques e sua enorme estrutura. Visitei o Mikumi, o quinto maior do país, com 3.500 quilômetros e, em um dia, percorremos 250 Km fotografando impalas, gnus, zebras, girafas, hipopótamos, elefantes, crocodilos e macacos aos milhares, que roubaram parte do meu almoço. Adorei e vi um dos mais belos pores de sol da minha vida, na lagoa dos hipopótamos. Pretendo voltar à Tanzânia e visitar outros parques, incluindo o do Kilimanjaro, o maior pico da África, com 5.600m de altura. Não tenho mais idade para subi-lo, pois o trekking até lá leva uma semana, apenas fotografá-lo. Em compensação, tomarei algumas Kilimanjaro, a boa cerveja de lá, enquanto os mais jovens fazem essa aventura.

Xangrilao, o coração da Indochina

Saímos do gigantesco e tumultuado aeroporto de Bangkok, na Tailândia, para o singelo e discreto Laos,no coração da Indochina. Vientiane, a capital do país, está às margens do importante rio Mekong, o maior da Ásia, essencial para o cultivo do arroz e para o transporte de pessoas e de mercadorias na região pantanosa, na época das monções. Vientiane separa-se da Tailândia por uma ponte moderna; todas as terras à direita do Mekong foram tomadas do Laos pelo antigo reino do Sião, atual Tailândia, em guerras passadas. Por isso, se odeiam.

Pouco sabia do Laos, República Democrática Popular do Laos,  país desconhecido para nós, encravado na ex-Indochina francesa, quase sem importância no mundial, ao contrário de seus poderosos vizinhos: China, ao norte; Vietnã, ao leste e, ao oeste,a Tailândia. É, ainda, um dos poucos países comunistas do mundo, desde 1975, quando o último rei foi deposto. Chegamos ao país e nos encaminhamos ao setor de vistos; tudo é muito tranquilo, apesar da burocracia comunista, sempre lenta e imprevisível. Um agente recolhe os documentos, passa para o segundo e esse para o terceiro, que recebe a taxa. Tudo metódica e mecanicamente, sem um sorriso, uma palavra, como manda o manual bolchevista. Os uniformes verde-oliva e os galões dourados dos agentes com suas estrelas hierárquicas lembram os dos generais soviéticos, mas a fisionomia é nirvânica, como se estivessem em outro lugar e não ali, recebendo turistas curiosos por seu país misterioso.Após o visto e o carimbo no passaporte, somos liberados para pegar a bagagem, que já chegou e está ao lado da esteira. Sempre me admiro de uma mala chegar sem extravio a um lugar tão distante, após ter saído de Vitória, Rio, passado por Dubai, Bangkok e estar ali, pronta para ser aberta, em Vientiane, capital do Laos, dois dias e duas noites após ter sido despachada. Quase abraço a mala, quando a vejo ali, paciente, à minha espera.

Saímos da imigração e sentimos o calor manauense do país. Estamos no período das monções, com chuvas que caem torrencialmente, embora por pouco tempo. Chegamos ao hotel, bem no centro da modesta Vientiane, cidade plana, horizontal, sem edifícios, muito tranquila. Não há o trânsito infernal de Bangkok, nem a ostentação faraônica de Dubai; na rua, poucos carros, alguns tuc-tucs, muitas motos e bicicletas, quase penumbra. É uma cidade pobre, mas não miserável. Não vejo mendigos, somente algumas moças e travestis bem jovens se prostituindo. Reflexos da vizinha Tailândia, creio. Tomamos uma ducha e saímos para jantar, mas, mesmo sendo sábado, nenhum restaurante está aberto, após as dez da noite. Alguns bares estão abertos, com turistas alternativos. Escolhemos um, pela música. Um conjunto de jazz tocava, maravilhosamente, enquanto turistas escutavam, embevecidos. Poucos olhares de dirigiram a nós, quando entramos. A música era tudo. Sentamos em dois bancos livres, no balcão, tomamos chope (a beerlao é ótima!), comemos um delicioso pão de passas com patê de azeitona preta (herança francesa) e ficamos até o final do show, à meia-noite. Era a única apresentação do conjunto de jazz e bossa-nova no pub “I deam”, de Vientiane. Pedimos a conta, que veio em três moedas: Kip (Lao), Baht (Tailândia) e Dólar (americano). Imaginamos que pudesse ser um pouco alta, pelo couvert artístico, mas não. Total: dez dólares, cinco para cada um, o que, no Brasil, não pagariam nem a cerveja.  Bom começo de viagem.

Camboja e o império Khmer

 

Após termos visitado o Laos e o Vietnã, chegamos ao Camboja, o único dos três países da Indochina que não era comunista, mas uma monarquia religiosa, como se intitula. E a primeira surpresa que tivemos foi com a presença de mendigos e de pedintes, o que não tínhamos presenciado nos dois países anteriormente visitados. Nossa primeira parada foi em Siem Reap, cidade ao norte e construída às margens das antigas ruínas de Angkor Wat, um dos lugares mais visitados do mundo. Do aeroporto ao centro da pequena cidade já se pode visualizar algumas das ruínas do que foi a maior cidade do mundo, há mil anos, e sede do império Khmer, que abrangia a maior parte do que é, hoje, a Tailândia, Myamar, Laos e Camboja, indo da baía de Bengala, na Índia, até o mar da China Meridional.

As ruínas dos templos do império Khmer, construídos com elementos das religiões hinduístas e budistas, floresceram de 802 a 1432, sendo, depois, abandonados nas selvas após o florescimento de outros reinos, como o do Sião, atual Tailândia.  Siem Reap significa “queda do Sião”, mas, quem caiu, na verdade, foi o reino Khmer. Hoje, eles tentam se reerguer de anos de destruição, a última provocada pela guerra do Vietnã e o genocídio provocado por Pol Pot, o líder sanguinário comunista que tomou o poder de 1975 a 1979, instalando o regime de terror do Khmer Vermelho. Os vietnamitas, que haviam derrotado franceses e norte-americanos, também venceram o Khmer Vermelho em 1979 e tomaram conta do país por uma década. Somente com a morte de Pol Pot, em 1998, a reinstalação da monarquia e o julgamento dos crimes do Khmer Vermelho, as belezas do Camboja foram reabertas para visita. Hoje, o país recebe milhares de turistas do mundo todo ávidos por conhecer a história de seu glorioso passado e de suas lutas recentes.

Siem Reap é uma cidade pequena que vive do turismo de Angkor. Com hotéis modernos, restaurantes e um artesanato maravilhoso, possui toda infraestrutura necessária ao turista que passa o dia todo subindo escadas de pedra e ouvindo explicações em diferentes línguas. Alguns nem vão a Phnom Penh, a capital do país, 300 km ao sul, situada às margens do rio Mekong. Mas deveriam. Phnom Penh é uma cidade sem graça, feia até. No entanto, possui alguns sítios históricos indispensáveis para se conhecer melhor a história desse pequeno país: o Palácio real, com seus templos e relíquias bem conservados, apesar dos saques sofridos; o Museu Nacional, com suas salas repletas de deuses e ídolos dos templos de Angkor e o Museu do Genocídio, que não estava no programa, mas que fizemos questão de visitar, na única tarde livre que tivemos, antes de regressar. Pegamos um tuc-tuc, à porta do hotel Juliana onde estávamos e pedimos ao simpático condutor que nos levasse ao Tuol Sleng, uma antiga escola secundária da época dos franceses. No meio do caminho, caiu um toró típico da época das monções; nosso motorista, solícito, parou o veículo, pegou sua capa de chuva sob nosso banco e abaixou as sanefas para que não nos molhássemos, deixando-nos sãos e secos à porta do museu. É indescritível o que vimos lá! É inenarrável o que pode a crueldade humana com os seus próprios irmãos, em nome de crenças e de ideologias! O Museu do genocídio Tuol Sleng foi aberto em 1979 e se mantém como era quando foi derrotado o regime de Pol Pot, chamado, ironicamente, República Democrática do Camboja. Ainda há sangue no chão de cada célula dos prisioneiros e um dos sobreviventes desse genocídio estava lá, lançando seu livro de memórias de um tempo que não poder ser esquecido, para não se repetir.

Vietnã, um novo alvorecer

Acabo de chegar do Vietnã e, quando dizia que estava indo pra lá, as pessoas me perguntavam: – Fazer o quê, lá? O país não foi destruído pela guerra dos anos sessenta e setenta? Pois é, foi mesmo, mas está todo reconstruído e hoje é um dos destinos turísticos “exóticos” mais procurados do mundo, recebendo mais visitantes do que o Brasil e possui uma das economias que mais crescem entre os países emergentes da Ásia.

Saímos do calmo, bucólico e místico Laos, para a tumultuada capital do Vietnã, Hanói. Ao chegarmos, tivemos um choque cultural, pois nunca tínhamos visto um trânsito tão caótico, com milhares de motos juntas, circulando por todos os lados, sem se colidirem. Atravessar uma rua, em Hanói, como pedestre, é uma experiência única: não existem sinais para pedestres, ou, se existirem, ninguém respeita. Ao contrário do trânsito nas cidades civilizadas, no Vietnã, não se olha para as motos ou carros, tem-se de seguir em frente, sem pressa e eles vão desviando de você. Não espere que alguém pare pra você atravessar e não corra, vá devagar. Conseguimos sobreviver, mas não quero repetir essa experiência. Uma loucura!

Ainda que seja, oficialmente, comunista, a República Socialista do Vietnã, unificada após vencerem os norte-americanos e seus aliados, em 1975,guerra essa que durou 21 anos (1954-1971) e foi uma das mais cruentas da história da humanidade,  é, hoje, um país de economia aberta, em franco desenvolvimento, onde todos podem ter seus negócios, propriedades privadas, disputando, avidamente, cada freguês e cada dólar. É o segundo maior produtor de arroz do mundo, atrás da Tailândia, e o segundo de café, atrás do Brasil. O país recebe milhares de turistas para visitar a maravilhosa baía de Halong, um dos patrimônios naturais da humanidade, a cidadela de Hue, sua antiga cidade imperial, seus inúmeros templos, pagodes, ruínas de antigas civilizações e a bela cidade de Ho-Chi-min, a antiga Saigon, uma das mais belas da Ásia. Também muito visitados pelos turistas do mundo todo, inclusive os norte-americanos, são os túneis de Cu Chi, escavados pelos vietcongs e de onde exerceram a resistência à invasão ianque por vários anos.

Desde 1994, o Vietnã restabeleceu relação diplomática com os EUA e, hoje, mantém parceria com eles em vários projetos; é uma forma de contrabalançar a grande influência da China, seu vizinho ao norte, temido por eles, pois foram dominados por chineses por mil anos. A sobrevivência do Vietnã é, por si só, um fenômeno impressionante, pois foram dominados pela China por um milênio, pelos franceses, por cem anos, por norte-americanos, vinte e um; estiveram sob a influência da URSS por mais uns vinte; lutaram contra os cambojanos de Pol Pot, de 1975 a 1979 e contra os chineses, mesmo destruídos após a guerra contra os norte-americanos. Ganharam todas as guerras, mas passaram muita fome nos anos oitenta. O povo vietnamita é pequeno, aparentemente frágil, mas valente, guerreiro e imbatível. Oficialmente é um povo ateu, mas cultivam crenças animistas, hinduístas e budistas, com os templos cheios de oferendas. Comem de tudo, insetos, ovo de pata com embrião e até cachorros. O povo ainda sofre consequências das armas químicas jogadas pelos ianques e há muitos mutilados de bombas e deformados por anomalias genéticas. No entanto, não vi um mendigo, pedinte, velho ou criança. É um país barato para comer, beber e fazer compras. Tranquilo e seguro, sem violência. Possui excelentes hotéis e praias. Um novo destino turístico para os que gostam de viajar e de conhecer antigas culturas.

Anjos de viagem

Há pessoas que acreditam em anjos, sabem até o nome de seu anjo da guarda e continuam rezando o “Santo anjo do Senhor/ meu zeloso protetor”, aprendido na infância. Anjos do bem ou do mal, como Lúcifer, existem mesmo entre os humanos. Disso tenho a certeza. Em viagens, então, tenho gratas recordações de anjos que se materializaram em seres humanos, na hora certa. Tinha um amigo, o poeta Roberto Almada que, ao fazer sua primeira viagem para a Europa com a esposa, a querida amiga Vilma Almada, essa teve um infarto e morreu na piscina do hotel em que estavam, em Palma de Mallorca. Contou-me ele, mais tarde, que, diante dessa fatalidade, ficou sem saber o que fazer, completamente só, em terras estranhas, sem a menor condição de tomar qualquer providência com relação ao corpo, embalsamento, papelada e traslado ao Brasil. Inexplicavelmente, surgiu uma mulher desconhecida que se ofereceu para ajudá-lo e tomou todas as providências burocráticas e necessárias, sem lhe cobrar nada por isso. Após tudo resolvido, desapareceu da mesma forma como surgira, sem deixar nenhum contato. Mais tarde, meu amigo tentou localizá-la na Espanha, sem sucesso. Ele, agnóstico de natureza, disse-me que, a partir desse fato, passou a acreditar em anjos.

Comigo aconteceu ter recebido ajuda de pessoas desprendidas, mas nada tão extraordinário como o acontecido com o Roberto Almada. Certa vez, estava excursionando pelo Oriente e, em Hong Kong, resolvi ir até Macau, a pouco mais de uma hora de barco. O único tempo que tinha para isso era à noite, pois, no outro dia, continuaríamos a viagem. Havia barcos que levavam pessoas para jogar nos cassinos de Macau, que, na época, ainda pertencia a Portugal; saíam à noite e voltavam pela manhã. Fui, acompanhado de alguns colegas que ousaram fazer essa aventura. Ao chegarmos a Macau, somente os guardas da fronteira falavam português; o resto era tudo chinês. Sem saber o que fazer, entramos no primeiro ônibus que passou e, em alta voz, perguntei se alguém ali falava português. Levantou-se um senhor, sexagenário, que se apresentou como Fernando, era português, casado com uma chinesa e morava ali. Pedi-lhe se poderia nos auxiliar naquela noite e ele, prontamente, nos atendeu, passando toda a noite conosco. Levou-nos a caminhar pela cidade, a conhecer as ruínas da igreja de S. Francisco Xavier, símbolo da colonização portuguesa, e nos encomendou um bacalhau a um seu amigo, dono de restaurante. Na hora de pagar a conta, não aceitou nosso dinheiro e nos disse que pagaríamos a ele quando viesse ao Brasil, o que nunca fez. Depois, nos levou ao porto, deixou-nos já perto da hora em que saía a primeira barca para Hong-Kong e ainda me deu uma nota de dez patacas, que guardo de lembrança até hoje.

Outra vez, eu e um amigo fizemos uma viagem de trem pela Europa, incluindo alguns países do leste europeu, recém saídos do comunismo. Chegamos à Hungria e decidimos ir à Croácia, que estava em guerra de libertação contra a Iugoslávia, dominada pelos sérvios. Em Budapest, conhecemos, no albergue em que estávamos, dois jornalistas brasileiros, que nos auxiliaram a tirar o visto para Croácia, também como jornalistas, já que não havia visto de turista. Esperávamos encontrá-los em Zagreb, mas nunca mais os vimos. Chegamos a Zagreb num trem cheio de soldados e de viúvas de guerra. Éramos os únicos estrangeiros ali. Na estação de Zagreb, tudo estava deserto, era domingo e não havia nenhum balcão de informação ou casa de câmbio para trocarmos dinheiro. O único endereço que tínhamos lá era Celska, 36, de um antigo correspondente do meu amigo. Resolvemos procurar o tal endereço e quando o localizamos era o de uma igreja católica. O correspondente do meu amigo era o Milan, sacristão da tal igreja e, surpreso com nossa chegada, convidou-nos para assistir à missa que seria celebrada, a poucos instantes, pelos jovens mortos na tomada de Dubrovnik. Foi horrível. Pais e mães dos jovens assassinados, também jovens, choravam por seus filhos, lamentando-lhes a morte tão precoce, vitimados por uma guerra fratricida e cruel. Após a missa, Milan nos apresentou ao padre da igreja, a jovens bósnios refugiados ali e nos levou ao melhor hotel da cidade em funcionamento porque hospedava os soldados da ONU, os capacetes azuis. Pagou a diária antecipadamente. À noite, nos levou a conhecer a  vida noturna da cidade, seus bares subterrâneos, toda uma vida que proliferava silenciosamente, mesmo num país em guerra. Mais tarde, atravessou a montanha conosco, levando-nos a comer truta, num restaurante de um amigo dele, já nos Alpes da Eslovênia. No outro dia, levou-nos a conhecer sua irmã, em Ptuj, na Eslovênia, onde passamos o dia e almoçamos. Não nos deixou pegar o trem em Zagreb, só em Ljubliana, capital da Eslovênia, que era seu país natal, e ainda nos comprou um lanche para a viagem até a Itália. Não nos deixou gastar um tostão e nos disse que faríamos o mesmo por ele quando viesse ao Brasil. Também nunca mais o vimos.

Por último, mais um caso de anjo salvador. Estávamos no aeroporto de Amsterdã, recém chegados de um cruzeiro no Mar do Norte. Tínhamos o dia livre e resolvemos pegar o trem e passarmos o dia na cidade, pois o voo para o Brasil era noturno. Deixamos a bagagem no aeroporto e fomos. Passamos um dia maravilhoso, visitamos o museu erótico, o mercado de flores, galeria de arte e almoçamos. Quando chegamos ao aeroporto, faltava pouco mais de uma hora para o voo, o que achávamos tempo suficiente, mas não era, pois o aeroporto é enorme e tudo muito longe. Tivemos dificuldade até para localizar onde tínhamos deixado a bagagem. Quando olhamos no relógio, faltava menos de uma hora para nosso voo e não tínhamos feito ainda nem o check in. E não sabíamos nem localizar o balcão de embarque da companhia aérea. Como não visse balcão de informação, perguntei a um atendente da Swiss Air, que nos atendeu em castiço português. Disse-nos que não conseguiríamos chegar a tempo, se não nos ajudasse. Então, deixou o seu posto e levou-nos até o local exato, depois de subirmos e descermos inúmeras escadarias. Chegamos na hora exata, poucos minutos antes de encerrarem o embarque e nem tivemos tempo de agradecer-lhe direito, pois ainda tínhamos de correr para alcançar o portão de embarque. Nem mesmo o nome de nosso anjo da guarda pudemos reter, mas rezamos por ele por nos ter auxiliado naquela hora de aperto, sem qualquer interesse a não ser o de ajudar. Há ou não anjos de viagem?