Camboja e o império Khmer

 

Após termos visitado o Laos e o Vietnã, chegamos ao Camboja, o único dos três países da Indochina que não era comunista, mas uma monarquia religiosa, como se intitula. E a primeira surpresa que tivemos foi com a presença de mendigos e de pedintes, o que não tínhamos presenciado nos dois países anteriormente visitados. Nossa primeira parada foi em Siem Reap, cidade ao norte e construída às margens das antigas ruínas de Angkor Wat, um dos lugares mais visitados do mundo. Do aeroporto ao centro da pequena cidade já se pode visualizar algumas das ruínas do que foi a maior cidade do mundo, há mil anos, e sede do império Khmer, que abrangia a maior parte do que é, hoje, a Tailândia, Myamar, Laos e Camboja, indo da baía de Bengala, na Índia, até o mar da China Meridional.

As ruínas dos templos do império Khmer, construídos com elementos das religiões hinduístas e budistas, floresceram de 802 a 1432, sendo, depois, abandonados nas selvas após o florescimento de outros reinos, como o do Sião, atual Tailândia.  Siem Reap significa “queda do Sião”, mas, quem caiu, na verdade, foi o reino Khmer. Hoje, eles tentam se reerguer de anos de destruição, a última provocada pela guerra do Vietnã e o genocídio provocado por Pol Pot, o líder sanguinário comunista que tomou o poder de 1975 a 1979, instalando o regime de terror do Khmer Vermelho. Os vietnamitas, que haviam derrotado franceses e norte-americanos, também venceram o Khmer Vermelho em 1979 e tomaram conta do país por uma década. Somente com a morte de Pol Pot, em 1998, a reinstalação da monarquia e o julgamento dos crimes do Khmer Vermelho, as belezas do Camboja foram reabertas para visita. Hoje, o país recebe milhares de turistas do mundo todo ávidos por conhecer a história de seu glorioso passado e de suas lutas recentes.

Siem Reap é uma cidade pequena que vive do turismo de Angkor. Com hotéis modernos, restaurantes e um artesanato maravilhoso, possui toda infraestrutura necessária ao turista que passa o dia todo subindo escadas de pedra e ouvindo explicações em diferentes línguas. Alguns nem vão a Phnom Penh, a capital do país, 300 km ao sul, situada às margens do rio Mekong. Mas deveriam. Phnom Penh é uma cidade sem graça, feia até. No entanto, possui alguns sítios históricos indispensáveis para se conhecer melhor a história desse pequeno país: o Palácio real, com seus templos e relíquias bem conservados, apesar dos saques sofridos; o Museu Nacional, com suas salas repletas de deuses e ídolos dos templos de Angkor e o Museu do Genocídio, que não estava no programa, mas que fizemos questão de visitar, na única tarde livre que tivemos, antes de regressar. Pegamos um tuc-tuc, à porta do hotel Juliana onde estávamos e pedimos ao simpático condutor que nos levasse ao Tuol Sleng, uma antiga escola secundária da época dos franceses. No meio do caminho, caiu um toró típico da época das monções; nosso motorista, solícito, parou o veículo, pegou sua capa de chuva sob nosso banco e abaixou as sanefas para que não nos molhássemos, deixando-nos sãos e secos à porta do museu. É indescritível o que vimos lá! É inenarrável o que pode a crueldade humana com os seus próprios irmãos, em nome de crenças e de ideologias! O Museu do genocídio Tuol Sleng foi aberto em 1979 e se mantém como era quando foi derrotado o regime de Pol Pot, chamado, ironicamente, República Democrática do Camboja. Ainda há sangue no chão de cada célula dos prisioneiros e um dos sobreviventes desse genocídio estava lá, lançando seu livro de memórias de um tempo que não poder ser esquecido, para não se repetir.

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