Xangrilao, o coração da Indochina

Saímos do gigantesco e tumultuado aeroporto de Bangkok, na Tailândia, para o singelo e discreto Laos,no coração da Indochina. Vientiane, a capital do país, está às margens do importante rio Mekong, o maior da Ásia, essencial para o cultivo do arroz e para o transporte de pessoas e de mercadorias na região pantanosa, na época das monções. Vientiane separa-se da Tailândia por uma ponte moderna; todas as terras à direita do Mekong foram tomadas do Laos pelo antigo reino do Sião, atual Tailândia, em guerras passadas. Por isso, se odeiam.

Pouco sabia do Laos, República Democrática Popular do Laos,  país desconhecido para nós, encravado na ex-Indochina francesa, quase sem importância no mundial, ao contrário de seus poderosos vizinhos: China, ao norte; Vietnã, ao leste e, ao oeste,a Tailândia. É, ainda, um dos poucos países comunistas do mundo, desde 1975, quando o último rei foi deposto. Chegamos ao país e nos encaminhamos ao setor de vistos; tudo é muito tranquilo, apesar da burocracia comunista, sempre lenta e imprevisível. Um agente recolhe os documentos, passa para o segundo e esse para o terceiro, que recebe a taxa. Tudo metódica e mecanicamente, sem um sorriso, uma palavra, como manda o manual bolchevista. Os uniformes verde-oliva e os galões dourados dos agentes com suas estrelas hierárquicas lembram os dos generais soviéticos, mas a fisionomia é nirvânica, como se estivessem em outro lugar e não ali, recebendo turistas curiosos por seu país misterioso.Após o visto e o carimbo no passaporte, somos liberados para pegar a bagagem, que já chegou e está ao lado da esteira. Sempre me admiro de uma mala chegar sem extravio a um lugar tão distante, após ter saído de Vitória, Rio, passado por Dubai, Bangkok e estar ali, pronta para ser aberta, em Vientiane, capital do Laos, dois dias e duas noites após ter sido despachada. Quase abraço a mala, quando a vejo ali, paciente, à minha espera.

Saímos da imigração e sentimos o calor manauense do país. Estamos no período das monções, com chuvas que caem torrencialmente, embora por pouco tempo. Chegamos ao hotel, bem no centro da modesta Vientiane, cidade plana, horizontal, sem edifícios, muito tranquila. Não há o trânsito infernal de Bangkok, nem a ostentação faraônica de Dubai; na rua, poucos carros, alguns tuc-tucs, muitas motos e bicicletas, quase penumbra. É uma cidade pobre, mas não miserável. Não vejo mendigos, somente algumas moças e travestis bem jovens se prostituindo. Reflexos da vizinha Tailândia, creio. Tomamos uma ducha e saímos para jantar, mas, mesmo sendo sábado, nenhum restaurante está aberto, após as dez da noite. Alguns bares estão abertos, com turistas alternativos. Escolhemos um, pela música. Um conjunto de jazz tocava, maravilhosamente, enquanto turistas escutavam, embevecidos. Poucos olhares de dirigiram a nós, quando entramos. A música era tudo. Sentamos em dois bancos livres, no balcão, tomamos chope (a beerlao é ótima!), comemos um delicioso pão de passas com patê de azeitona preta (herança francesa) e ficamos até o final do show, à meia-noite. Era a única apresentação do conjunto de jazz e bossa-nova no pub “I deam”, de Vientiane. Pedimos a conta, que veio em três moedas: Kip (Lao), Baht (Tailândia) e Dólar (americano). Imaginamos que pudesse ser um pouco alta, pelo couvert artístico, mas não. Total: dez dólares, cinco para cada um, o que, no Brasil, não pagariam nem a cerveja.  Bom começo de viagem.

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