Imagine o que é chegar a um país do qual você não conhece nada, nunca ouviu falar sobre e onde a população se comunica em uma língua de origem turcomana, o quirguis, e só tem uma língua comum, o russo, com só uma palavra mais conhecida por nós, spacibo, o obrigado? Pois é, isso aconteceu, recentemente, comigo, quando cheguei ao Quirguistão, em maio. Localizado na Ásia Central, o Quirguistão é um país sem saída para o mar e faz fronteira com o Cazaquistão, ao norte, Uzbequistão, a oeste, Tadjiquistão, ao sudoeste, e China, a leste, tendo Bishkek como capital. Não é tão rico como Cazaquistão, pois não produz petróleo e gás, nem tem as beleza culturais milenárias do Uzbequistão, o mais turístico, mas produz ouro, urânio e carvão, além de ter vastas áreas de pastagem que sustentam uma economia pastoril tradicional. Por que ir ao Quirguistão? me pergunta o possível leitor desta crônica. A resposta é simples, amável leitor, por suas belezas naturais. Mais de noventa por cento do país é coberto por montanhas, dentre as quais as cadeias de montanha Tian Shan e Pamir, onde se encontra o Jengish Chokusu, o pico mais alto país, com cerca de 7.500m de altitude. O país também é conhecido por seus lagos alpinos, os situados a mais de mil metros, sendo o Issyk-kul, o mais famoso e o segundo maior do mundo, só perde para o Titicaca, na Bolívia/Peru, uma importante atração turística, que visitamos em nosso segundo dia no país.
Pois é, para nossa alegria, ao chegarmos à fronteira do Cazaquistão, de onde vínhamos, com o Quirguistão, lá estava o nosso guia, um jovem de trinta anos, simpático, que nos deu, de cara, um tratamento especial. Viajava com um amigo 70+, como eu, e ele nos disse: – Vim recebê-los, para ajudá-los com as maletas e nos trâmites de fronteira. Tínhamos apenas mala de bordo, com 10kg cada, e mochila; mesmo assim, pegou nossas malas e a mochila e nos disse: – Tragam apenas os passaportes. Quisemos ir ao banheiro, localizado antes da imigração, mas não tínhamos o dinheiro cobrado: 20 sons ou 100 tenges. Não tínhamos nenhuma das duas, ele pagou. Saímos do Cazaquistão, tudo certo, andamos mais um pouco e chegamos à aduana do Quirguistão. Edil Dalilov, nosso guia, atrás de nós, nos respaldava, se algo nos fosse perguntado. Deu tudo certo. Passaporte carimbado, entramos no Quirguistão e nos dirigimos a carro que nos conduziria naqueles dias e apresentados ao Rustán, o motorista experiente, que, durante quinze anos, trabalhou de caminhoneiro na Europa. Falava um pouco de inglês, e com ele estávamos em boas mãos. Pacientes e educados, assim nos pareceram ambos, desde o primeiro contato.
Da fronteira a Bishkek, a capital, foram 30km, mas gastamos quase uma hora, pois a estrada estava em obras, começou a chover, e nossa primeira visita foi à maior mesquita da cidade, pois atende a 30 mil fiéis, feita pelos turcos. Embora o país tenha vivido muitos anos sob domínio soviético, a maioria da população é muçulmana, ainda que boa parte não seja praticante. Edil nos disse que era muçulmano, por tradição familiar, mas não praticante, pois gostava de tomar uma cerveja, o que é proibido pela religião e de sair com garotas, o que também não é bem visto. Falava um espanhol perfeito, aprendido na internet e nos contou sua vida e as dificuldade por que a família passou, quando a URSS acabou e o país se tornou independente, em final de 1991. Desde o século XIX, o Quirguistão foi anexado pelo império russo, e, no século XX, transformado em República Socialista Soviética. Atualmente, é uma República Presidencialista, possui cerca de 6,5 milhões de habitantes e uma renda per capita em torno de 4 mil dólares e um IDH de 0,701, considerado alto. Embora seja mais pobre que os seus vizinhos, não vimos miséria, nem moradores de rua, nem pedintes.
Edil Dalilov, no intervalo de suas explicações turísticas, ia nos contando sua vida. Por ter nascido cinco anos após a independência da URSS, sua infância foi de muita penúria. Seus pais eram operários das inúmeras fábricas construídas pelos russos no país e ficaram desempregados, após a independência. Tiveram de sair de sua pequena cidade natal, Balykchy, às margens do lago Issyk kul, para a capital, onde sua mãe costurava roupas para o pai vender nas ruas. Com três filhos para criar, Edil era o caçula, nem sempre tinham comida para comer. O pai se tornou alcoólatra e morreu. Os dois irmãos se casaram, mas Edil ficou solteiro para cuidar da mãe. O que ganha como guia não daria para sustentar a mãe e uma família. Edil foi nosso anjo da guarda, nos conduziu até a saída de seu país. Nunca vou esquecê-lo. Até a sua internet compartilhou conosco e, em pequenos gestos, como nos ajudar a regular o chuveiro no moderno hotel de Issyk Kul, mostrou seu carinho, atenção e cuidado com dois brasileiros viajantes em seu país. Deus o abençoe!



