O Marrocos é, sempre, um país encantador para se visitar. Estive lá pela primeira vez em 1988, quando visitamos as cidades imperiais, Fez, Mekhnes, Rabat, Casablanca e Marrakech. Depois, em outra viagem, fomos a Tânger, atravessando o estreito de Gibraltar, de ferry-boat, a partir de Algeciras. Em outra viagem, de navio, paramos em Casablanca e de lá fomos a Rabat. Em outro cruzeiro, paramos, de novo, em Casablanca, e de lá fomos a El Jadida, a antiga Mazagão portuguesa. Mais recentemente, também em cruzeiro, paramos em Tânger e decidimos conhecer Tetouán, a antiga capital do Protetorado Espanhol, hoje, tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.
Tetouán se localiza a 60 km a sudeste de Tânger, distância que pode ser percorrida em pouco mais de uma hora, exceto em horário de pico, quando o trânsito fica congestionado e esse tempo aumenta muito. O mais importante da cidade é a sua Medina, um labirinto de ruas e de lojas, tombada como Patrimônio Mundial pela Unesco, desde 1997. Entrar ali, sem guia, traz um risco grande de se perder e não conseguir sair. Tetouán é conhecida como a “Pomba Branca”, o símbolo da cidade, ou a “Filha de Granada”. Possui uma arquitetura andaluza-mourisca única, muito bem preservada, e percorrer suas ruas e avenidas é como voltar a uma cidade espanhola há cem anos.
A cidade possui cerca de 380 mil habitantes e carrega séculos de história, mas se notabilizou como capital do protetorado espanhol entre 1912 a 1956. Nesse período, o Marrocos estava ocupado por Espanha e França e os reflexos dessa herança hispano-mourisca se refletem por todos os cantos de Tetouán, manifestando-se na sua arquitetura singular, nas tradições locais e na gastronomia, cuja pastelaria e confeitaria, de herança espanhola, figuram entre as mais refinadas do território marroquino.
Deixamos o ônibus na praça Lopes de Rivera e saímos a caminhar pela cidade, a melhor maneira de conhecê-la e de senti-la. Estava um friozinho gostoso de primavera, pois a cidade está a poucos quilômetros do Mediterrâneo, num vale, aos pés do Monte Dersa. Caminhamos pela Medina, passando pelos bairros árabes e judeus, o Mellah, onde viviam os judeus expulsos da Espanha, em 1492. Depois da criação de Israel, o bairro se esvaziou e, hoje, poucos judeus vivem ali. Tetouán guarda tesouros culturais impressionantes no seu Museu Arqueológico e Museu de Artes Marroquinas. Além deles, possui a Escola Nacional de Artes e Ofícios, estabelecida desde 1919, durante o Protetorado Espanhol e o Instituto Nacional de Belas Artes, fundado em 1945 pelo pintor Mariano Bertuchi, até oje a única instituição nacional de ensino superior artístico no Marrocos.
Tetouán foi escolhida pelo rei Mohamed VI para residência de verão e lá está um de seus palácios, sempre nas cores branca e verde, a cor sagrada do Islam. A cidade possui sete portões históricos monumentais e um cemitério de judeus extraordinário, com cerca de 35 mil sepulturas, conhecido como “Pequena Jerusalém”. Após uma chatíssima e demorada visita a uma antiga farmácia, onde ouvimos, por mais de uma hora, os efeitos mágicos do óleo de Argán, fomos a um restaurante, onde ouvimos a música tradicional marroquina, enquanto saboreávamos o chá local com biscoitos. A viagem de volta a Tânger foi mais demorada, pois o trânsito engarrafado não ajudou. O Marrocos ainda carece de boas rodovias, antes construídas pelos passos lentos dos camelos. É um país fascinante e Tetouán, uma boa descoberta. Infelizmente, o mercantilismo de comerciantes e de guias afoitos por uma comissão podem empanar o brilho de uma experiência de viagem.





