Viagem ao Ártico

                                 Viagem ao Ártico

   Nunca havíamos planejado ir ao Ártico. Estivemos próximo, quando fomos à Islândia, em Akureyri, há alguns anos. Sempre quisemos ir à Antártida, mais próxima de nós, já que vivemos no hemisfério sul. No entanto, escolhemos para nosso passeio anual, neste ano, um cruzeiro à Noruega, que incluía uma travessia do Círculo Ártico, Lat, 66°C 33.7”N, Long. 010° 42.6’ E, e chegamos até o Cabo Norte, Latitude 71°N, Longitude 025° 49.0’E, o ponto mais extremo ao norte da Europa. Felizmente, a temperatura estava extremamente agradável e, em Honingsvag, onde aportamos, fazia 8°C, pela manhã e 12°C, à tarde. Era final de verão, a melhor época para se ir de navio a essas paragens.

   Saímos de Southtampton, na Inglaterra, no dia 19 de agosto e, dois dias depois, chegávamos a Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Bergen situa-se na costa sudoeste da Noruega e possui cerca de 250 mil habitantes. Fundada em 1070, foi a capital do país na Idade Média. Era uma importante fortificação viking  e o cais do porto antigo, o Bryggen, ainda preserva o antigo centro comercial repleto de casinhas de madeira coloridas, hoje tombadas como Patrimônio Mundial pela Unesco. Nos armazéns e estalagens de outrora, atualmente funcionam museus, restaurantes e lojinhas, numa atmosfera acolhedora, com turistas circulando a um cenário quase cenográfico. Há muito o que se fazer em Bergen. Há muito o que se admirar na cidade. Para os que curtem, vale subir até o Monte Floyen, de teleférico, para admirar a paisagem, ou então, sentar-se no mercado de peixes e apreciar os saborosos pratos à base de peixes frescos de vários tipos. Também vendem petiscos de alce, rena e baleia, já que a Noruega é, infelizmente, um dos poucos países que ainda caçam baleias, junto da Islândia e do Japão. Bergen é a porta de entrada para visitar os famosos fiordes, uma das paisagens mais lindas do mundo.

  Após uma visita à bucólica Flam, povoação de 450 habitantes, onde passei meu aniversário, chegamos a Trondheim, a terceira maior cidade do país, com pouco mais de duzentos mil habitantes. Fundada em 997, foi a capital da Noruega durante a era Viking, até 1217. Era um entreposto comercial, que ligava o norte e o sul do país e de 1152 a 1537 foi sede da Arquidiocese de Nidaros, o antigo nome da cidade, onde se situa a Catedral de Nidaros, a maior do país e centro de peregrinação durante a Idade Média. Segundo a tradição, ali foi sepultado Santo Olavo, que converteu o país ao cristianismo e, durante muitos anos, era o local de coroação dos reis da Noruega. Atualmente, consagração e casamentos reais ocorrem nessa imponente catedral gótica, uma das mais bonitas do norte da Europa. Ao lado da catedral, pode-se visitar o antigo Palácio do Arcebispo, hoje um museu, onde, dentre muitas relíquias, encontram-se objetos valiosos dos antigos reis da Noruega. Trondheim é uma cidade universitária e importante centro comercial. Fácil de caminhar, repleta de museus e de construções modernas ao lado de antigas, é uma das mais belas cidades da Noruega.

   Mais alguns dias de navegação e atravessamos o Círculo Polar Ártico, dobramos o Cabo Norte e chegamos a Honningsvag, a pequena e simpática cidade de 3.500 habitantes, uma das mais ao norte da Europa. Localizada à latitude 70° 58’N, no município de Nordkapp, na costa sul da ilha de Mageroya, Honningsvag disputa com Hammerfest e Longyearbyen, também na Noruega, e Barrow, no Alasca, o título de cidade mais setentrional do mundo. O seu porto abriga navios de cruzeiro por passageiros ávidos por irem até o Cabo Norte, uma viagem de três horas de ônibus para ir e mais três para voltar. Também há passeios de helicóptero para os mais abonados financeiramente. Não há muitas atrações na cidade, mas se pode visitar um pequeno museu e a pequena igreja luterana, no alto da colina, a única construção que restou, após a II Guerra Mundial. Os nazistas ocuparam a localidade para alcançar a Rússia e grandes batalhas foram travadas ali. Nada restou da antiga povoação, a não ser a pequena igreja, testemunha solitária da ambição e da violência humanas.

   Na volta, visitamos Tromso, intitulada a capital do Ártico. A cidade possui cerca de 40 mil habitantes e é o melhor lugar para se ver as “luzes do Norte”, ou “aurora boreal”, mais comuns durante o inverno. É a maior cidade do norte da Noruega e se localiza a 300 km ao norte do círculo polar ártico. De novembro a janeiro, a cidade está imersa numa noite ártica. O sol volta a aparecer em 21 de janeiro, quando a cidade celebra o “Dia do Sol”. No verão, é época de ver o sol da meia-noite. Era domingo, quando chegamos a Tromso, por isso a cidade estava bem deserta, com poucas lojas abertas na praça da antiga catedral. A moderna catedral situa-se do outro lado da ponte, que não atravessamos. Caminhamos pela beira-mar e visitamos o Museu do Troll, muito apreciado pelas crianças e o Museu Polar, onde se pode ver uma pequena história da conquista do Polo Norte. Amundsen, o célebre conquistador, é natural de Tromso e sua estátua está na entrada do Museu. Tivemos bom tempo, embora a cidade seja famosa pela chuva e pelo frio congelante. Muita gente se aventura a ir lá, no inverno, na tentativa de ver a aurora boreal. Já a vimos, na Finlândia, há alguns anos, e não voltaria a Tromso, no inverno, nem que a vaca tussa rs.

Stonehenge e seu misticismo

Há muito tempo, desejávamos visitar Stonehenge, na Inglaterra, mas a pandemia de coronavírus adiou nossos planos. Agora, chegou a hora e conseguimos. Valeu a pena! Saímos de Southampton, o segundo maior porto da Inglaterra, com uma excelente guia, e passamos por lugares incríveis como a New Forest e Salisbury, com a sua Velha Sarun, como é conhecida sua imponente catedral. Confesso que me deu vontade de parar e ficar em Salisbury. O centro histórico estava todo enfeitado de bandeirinhas e nos lembrou as nossas tradicionais festas de São João. Ao chegarmos a Stonehenge, após uma hora e meia de uma viagem muito agradável, avistamos da estrada as famosas pedras, em formato circular, cujo significado real até hoje ninguém descobriu. Existem algumas teorias ou suposições, criadas após as descobertas de alguns indícios. A primeira é que Stonehenge era um templo onde os druidas, os sacerdotes celtas, realizavam sacrifícios humanos em oferenda aos deuses. Já no século vinte, o astrônomo Sir Norman Lockyer sugeriu o que, atualmente, é considerado o verdadeiro objetivo da edificação: um calendário que capacitava os antigos sacerdotes a calcular as posições do Sol, da Lua e dos planetas, ao longo do ano. Espaços entre os trílitos (três pedras, sendo duas verticais e uma horizontal) permitem uma visão acurada das ascensões solares e lunares, enquanto as aberturas entre eles, uma série de 56 cavidades cheias, servem como uma sofisticada calculadora de eclipses lunares. Portanto, Stonehenge tem sua fama por sua dupla natureza: um lugar cerimonial, de práticas místicas e religiosas, e um calendário astronômico, quase científico, que mostra como o conhecimento das estações do ano e do próprio tempo ligava-se, intimamente, às práticas agrícolas, época de plantio e de colheita, intimamente ligado a antigas práticas religiosas e rituais.

   A palavra henge, em inglês, significa um círculo pré-histórico constituído de grandes pedras ou objetos de madeira. Stonehenge não foi o maior deles. O grande complexo megalítico de Avebury, em Wiltshire, próximo dali, foi, no passado, maior do que Stonehenge.  Sua parte mais antiga, o “Santuário”, data da mesma época, cerca de 3.000 a.C. Havia um enorme círculo de 90 blocos de pedra, cada um com cerca de cinco mil toneladas, e dois círculos menores com 30 pedras cada. Na Idade Média, muitas das pedras foram utilizadas em outras construções ou enterradas, para desencorajar ritos pagãos. Stonehenge foi construída, incialmente, cerca de 3.000 a. C, em madeira. O primeiro “henge” era de pedras azuis, compreendendo uma vala circular de 98 metros de diâmetro e com as 56 “Aberturas Aubrey”; os espaços entre elas, foi construído por volta de 2.000 a.C. Muitas das pedras azuis foram retiradas, quando se ergueu Stonehenge III, ao redor de 1.900 a.C, o grande círculo de 30 megalitos (grandes pedras) com lintéis (verga de madeira ou pedra que constitui o acabamento da parte superior de portas e janelas) e uma ferradura constituída por cinco trílitos. Stonehenge se alinha com a velha catedral de Salisbury e a outras construções neolíticas ou medievais próximas dali. Enfim, há todo um misticismo em torno dessas ruínas e isso fez seu tombamento pela Unesco como “Patrimônio Mundial da Humanidade”, juntamente com Avebury, em 1986. Dali pra cá, se tornou um dos lugares mais visitados da Inglaterra e do mundo.   

   Ao chegar ao Centro de Visitantes, há uma exibição com vários objetos arqueológicos e uma experiência audiovisual em 360°, que nos dá uma amostra da história de Stonehenge e de suas relações com outros sítios históricos próximos dali. Após a ida ao banheiro e ao café, é hora de se dirigir às pedras. Há duas maneiras: uma de ônibus gratuito, e, em menos de dez minutos, você é deixado bem perto do monumento; a outra é ir a pé, caminhando pelo pasto, entre as vacas inglesas. Como o tempo estava agradável e convidativo, fomos a pé, para nos prepararmos para a longa espera de aeroporto, que teríamos mais tarde. Foi bom, mas não recomendo para os que não tiverem boa disposição e boa forma física. Adoramos Stonehenge. Valeu a espera.  

VISÕES DA NORUEGA

   Passei quinze dias viajando de navio pela Noruega, de Bergen a Honingsvag, no extremo norte do país, já quase na fronteira com a Rússia, e deu para ter uma noção legal desse país que é considerado um dos mais desenvolvidos do mundo, um dos maiores IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, e um dos mais pacíficos e agradáveis para viver. Claro, era final de verão, peguei uma temperatura superagradável, nunca menos de 8° C e não superior a 18°C. Uma delícia de clima para viajar, caminhar, contemplar a natureza exuberante, navegar em seus encantadores fiordes, com cascatas desaguando no mar e casinhas coloridas à margem, cada paisagem mais bonita do que a outra.  A Noruega é um país para se viver em contato com a natureza, daí ser o paraíso para os que fazem caminhada, escalada, alpinismo, canoagem, todo tipo de esporte em contato com a natureza. Por todo lado, veem-se montanhas e água. Herdeiro do povo viking, que teve seu auge de 799 a 1.066 d.C, e viajou pelo mundo todo, chegando às Américas quinhentos anos antes de Colombo, o norueguês se alimenta e vive da água.

   Nós, brasileiros, nos acostumamos, desde a colonização portuguesa, a associar a Noruega ao bacalhau, esse peixe curtido em sal, barato, no passado e, hoje, caro para nós. No entanto, o bacalhau é um alimento dos portugueses, que o usava para as grandes travessias, sem estragar. Fui a vários supermercados na Noruega, a mercados de peixe, a restaurantes e em nenhum lugar vi bacalhau, como o comemos aqui. Eles comem, e muito, peixe fresco, principalmente salmão e truta, mas há uma enorme variedade de pescado, o principal alimento deles, comido fresco. Talvez daí venha a longevidade do povo e a sua saúde. Vi muitos carneiros e pouco gado bovino. Eles não têm grandes pastagens para o cultivo desses animais, por isso, a carne é importada, e cara. Nada é barato, para nós, na Noruega, que tem um salário mínimo em torno de quinze mil reais, ou seja, 2.800 euros. Embora não pertença à União Europeia e nem adote o Euro como moeda, a moeda local é o NOK, a coroa norueguesa, a Noruega é membro fundador da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, pois foi invadida pelos nazistas, na II Guerra, que a usaram como trampolim para chegar à URSS. É um país pacífico, com pequeno contingente nas forças armadas, que procura se manter neutro nas brigas mundiais, mas teme a proximidade com a Rússia, país bélico, sempre disposto a aumentar suas fronteiras.

   O que faz ser a Noruega um país tão desenvolvido, entre os top 5 do mundo? Em alguns quesitos, só fica atrás de Luxemburgo e do Catar, países muito pequenos e pouco populosos, cuja renda vem do mercado financeiro, no caso do primeiro, ou da exportação de petróleo e gás, no do segundo. Parece que o sucesso da Noruega, no cenário mundial, esteja no modelo social adotado nos países nórdicos, concentrando recursos na saúde universal, num regime abrangente de previdência social e, sobretudo, na educação de qualidade para todos, subsidiada até o ensino superior. Desde 2001, a Noruega está classificada como um dos países mais desenvolvidos do mundo e o Índice Global da Paz a coloca entre os mais pacíficos. Em 2017, um estudo feito por peritos internacionais classificou-a como o país mais feliz do mundo, superando a Dinamarca, eleita em 2016.  Um paraíso na terra? Talvez seja, embora para nós, brasileiros, não seja fácil viver lá, pelo clima, pela língua, tão diferente da nossa, pelos costumes, pela alimentação, pela falta de praias, sol, calor, carnaval e cerveja barata. Um chope custa em torno de 100 NOK, cerca de 50 reais. Quem se habilita? Bebida é cara, pois os impostos são altos. Afinal, o estado precisa arrecadar para oferecer os serviços de qualidade que dá à população. E lá, o que se arrecada é devolvido ao povo. A Transparência Internacional, em 2022, colocou a Noruega em segundo lugar, logo após a Dinamarca, entre os países menos corruptos do mundo. Como nem tudo é perfeito, comem alce, baleia e rena! 

Do porto de Safaga a Hurghada, no Egito

                        

   Geralmente, quem vai ao Egito o faz para visitar as pirâmides, a famosa esfinge de Gizé e o Museu do Cairo com as suas preciosidades históricas. Isso pode ser feito em três dias. Depois, as pessoas escolhem visitar Luxor e o Vale dos Reis, ao sul, ou fazer um cruzeiro pelo Rio Nilo de três a sete dias, dependendo de até onde quer ir ou de quanto tempo dispõe. Mas o Egito não é só isso. Há as cidades de Alexandria e Porto Said, no Mediterrâneo, que podem ser visitadas quando se faz cruzeiro pelo Mediterrâneo ou a Península do Sinai, para os que pretendem subir o Monte Sinai, local sagrado para os que têm a Bíblia como livro sagrado, hospedando-se no Mosteiro de Santa Catarina, aos pés do Monte.

   Para europeus, sobretudo, além desses roteiros clássicos, há o turismo de praia, que se desenvolve na costa do Mar Vermelho. O mais conhecido é Sharm El-Sheik, ao sul da península do Sinai, em direção a Eilat, a única cidade israelense situada no Mar Vermelho. É um local paradisíaco muito apreciado para congressos e conferências, mas muito visado pelos terroristas, pois é um local estratégico e eles querem desestabilizar o país e implantar ali um islamismo fundamentalista. A segurança no Egito é levada a sério, a todo momento há check-points para proteger os turistas.  Isso torna as viagens um tanto mais demoradas e cansativas, mas, é o preço que se paga por visitar um lugar tão visado por terroristas sanguinários.

   Como é a terceira vez que viajo ao Egito, optei por conhecer, dessa vez, a região turística do Mar Vermelho, do Porto de Safaga a Hurghada. O Porto de Safaga situa-se a 63 Km ao sul de Hurghada e de lá pode-se fazer os passeis a Luxor, ao Vale dos Reis e a Karnac, que levam o dia inteiro e muitas horas de estrada pelo deserto sob um sol causticante. Ainda bem que já fui a esses lugares e pude optar por um roteiro mais leve e agradável, indo de Safaga a Hurghada, por uma estrada asfaltada e pouco movimentada, passando por alguns balneários à beira-mar e resorts confortáveis para todos os gostos e preços. Essa região é famosa por turismo especializado em submarinismo, visto que  a cor que dá nome ao Mar Vermelho só pode ser vista no fundo do mar, pelas algas e a sua extraordinária fauna marinha. Por cima, o Mar Vermelho é azulzinho, em várias tonalidades de azul, com areia branquinha e várias ilhas que se tornaram paraísos para os amantes do mar. Safaga já foi sede do Campeonato Mundial de Windsurfing e a região é famosa, também por suas minas de fosfatos. Parece que suas águas e areias também têm poder terapêutico, se não pelos minérios, por sua beleza convidativa ao desestresse.

   Hurghada é uma cidade maior, com cerca de 200 mil habitantes. Seu balneário e resorts se estendem por uma faixa de 40 km pela costa egípcia do mar Vermelho. Possui uma parte antiga, El-Dahar, e a moderna, com hotéis, restaurantes e lojas comerciais. Há pouco tempo, inaugurou-se o Museu de Hurghada, moderníssimo, o primeiro museu de antiguidades do Mar Vermelho, com cerca de 2 mil peças em exposição. Todo feito para visitas pedagógicas, as exposições estão organizadas pela linha do tempo, passando por todas as fases históricas do Egito, da Antiguidade Clássica aos tempos atuais. Show! Embora o Museu do Cairo seja maior e mais importante, pela quantidade de peças que possui, a maioria amontoada, e possui o tesouro de Tuthankamon, que todos querem visitar, ainda que rápido e sob pressão, rs,  o de Hurghada é mais organizado, didático e moderno. Super-recomendo a visita aos que podem ter o prazer de curtir as praias desse paraíso no Mar Vermelho. E ainda há um centro comercial excelente no início do museu para compras de qualidade, caso você não esteja em grupo com guia, pois eles só o deixam comprar nos lugares indicados por eles. Claro, as comissões que complementam seus salários.    

Áqaba, na Jordânia

Áqaba, na Jordânia   Creio que se pode considerar a Jordânia uma ilha de relativa paz, no meio de vizinhos belicosos. Ao norte, está a Síria, vivendo uma guerra insana e fratricida há doze anos. Estive na Síria, um ano antes da guerra, e a situação já estava se deteriorando. De lá, entramos na Jordânia, para irmos a Jerash, uma cidade romana ainda bem conservada e, onde, conforme relatos bíblicos, Jesus esteve em pregação. De lá, fomos a Ammam, visitamos Petra, a cidade dos nabateus que tinha sido declarada Maravilha da Humanidade o Deserto de Wadi Rum, com suas areias coloridas e onde foi filmado o Lawrence da Arábia. Faltava visitar Áqaba, o que fiz, agora, num cruzeiro pelo Mar Vermelho. É a cidade que dá nome ao Golfo de Áqaba e é vizinha de Eilat, em Israel, que já visitei, e de lá também se avista o Egito, onde o sol se põe.

   Adorei Áqaba, pois queria nadar no Mar Vermelho e lá o pude fazer. Na Arábia e no Egito, fica mais difícil, pois não há praias públicas, só as ligadas aos resorts. Melhor ainda para os que gostam de mergulhar, pois é o fundo do mar que dá o nome ao Mar Vermelho. Por cima, a água é azul turquesa, límpida, e o vermelho vem das algas do seu fundo. Como não mergulhei, não as pude contemplar. Após o rigor do controle de segurança tanto no Egito quanto na Arábia, entrar na Jordânia foi como chegar ao paraíso. Foi só mostrar o passaporte, carimbar a entrada e se dirigir ao ônibus gratuito que leva os passageiros do porto ao centro da cidade. Lá, havia o assédio dos taxistas, oferecendo passeios a Petra ou a Wadi Rum, que já tinha visitado. Agradeci e lhes disse que gostaria de curtir a cidade por mim mesmo. Entenderam e não me amolaram mais.

   Peguei um ônibus para fazer um city-tour, paguei apenas 5 euros, e fiz um passeio de quarenta minutos pela orla, subindo até um local mais elevado, de onde se pode avistar três países: Jordânia, Israel e Egito. Com isso, também me localizei para poder caminhar pela cidade e identificar os lugares aonde gostaria de ir: a praia, algumas comprinhas e locais para se tomar uma cerveja gelada. É o único país muçulmano da região, em que se pode fazer isso, sem restrições.  No Egito, só em lugares reservados a turistas, hotéis e restaurantes; na Arábia Saudita, em lugar nenhum. Até o navio que ficou 48h no país, não pôde servir bebida alcoólica. Ai de quem comprou pacote de bebida no navio! Dos sete dias de cruzeiros, dois dias na Arábia e o dia do desembarque não se pôde servir bebida, ou seja, pagou e não pôde consumir.

   Áqaba é uma cidade pequena, acolhedora, excelente comércio, bonita, moderna. Os jordanianos são muçulmanos light, não são repressores como árabes e egípcios, aceitaram a civilização ocidental com facilidade, sobretudo após Petra ter sido declarada Patrimônio da Humanidade. A chegada de turistas em grande escala trouxe ao país emprego, estabilidade econômica e social. Não se veem tantos pobres na rua, como no Egito, e nem mulheres encapuzadas como na Arábia. Total segurança, mesmo sem ter tanto controle de segurança como nos dois outros antes visitados. Enfim, é uma cidade que se respira paz e tranquilidade, um oásis, após tanto deserto.

   Caminhei, fiz compras, tomei cerveja e fui à praia, como em qualquer outra cidade do mundo ocidental a que já estou acostumado. Fotografei a grande mesquita, os modernos palacetes, as ruas limpas e bem cuidadas, o paisagismo. Não me senti atraído a ver ruínas ou museus, embora os haja. Queria paz, tranquilidade e nem me interessava mais acrescentar nenhum conhecimento ao tanto que já tinha aprendido no Egito e na Arábia. Queria curtir um dia de lazer, sem guia a falar ininterruptamente, sem relógio para controlar o tempo, para ver ou comer,  exceto o de voltar para o navio, claro, sem atribulações. E tudo isso obtive em Áqaba, na Jordânia. Pena que acaba rs.

Na Arábia Saudita

      A Arábia Saudita abriu-se, recentemente, para o turismo comum e não somente para o turismo religioso de muçulmanos que vão a Meca. Atualmente, os navios de cruzeiros podem fazer três paradas lá: uma em Damam, no Golfo Pérsico, e duas no Mar Vermelho, em Jeddah e em Yambu. Fui nessas duas últimas. Dá muito trabalho tirar visto para ir à Arábia, mesmo o visto de trânsito facilitado com validade para quatro dias, mas só uma entrada. Há de se preencher o requerimento de entrada no site da embaixada, pagar-se uma taxa de dez dólares e pouco de seguro, e aguardar-se para a aprovação. Essa, se vier, chega dois dias antes de a pessoa desembarcar nas cidades a serem visitadas. O meu chegou e pude descer, primeiramente, em Jeddah, a segunda maior cidade da Arábia depois de Riad, a capital. É o maior porto da Arábia e é considerada a capital comercial do país, sendo considerada a cidade mais rica do Oriente Médio e da Ásia Ocidental. Lá está sendo construído o que virá a ser o maior edifício do mundo, a Torre do Reino, com mais de mil metros de altura. Atualmente, a construção está parada em trezentos metros por problemas com a empreiteira.

   Jeddah é uma cidade ultramoderna, com um paisagismo exuberante à beira-mar, a Corniche deles. Os árabes fazem tudo para apagar tudo o que lembra seu passado medieval e, aos poucos, vão destruindo velhas mesquitas, bairros inteiros vão abaixo e modernos centros comerciais vão surgindo onde antes eram vielas com lojas comerciais, como ainda se pode ver algumas em Al-Balad, o bairro antigo, que vai dando lugar a modernas ruas pavimentadas para automóveis e vias exclusivas para pedestres. Em dias de chegada de navio, pode-se ver grupos acompanhando guias com suas roupas tradicionais, placas na mão e explicando a história do lugar. Jeddah era e é a porta de entrada para Meca, situada a uma hora dali. Por isso, o navio estava repleto de muçulmanos que vestem suas roupas típicas para visitar sua cidade sagrada, onde nasceu Maomé. Só eles podem ir a Meca; não muçulmanos, se transgredirem essa norma, podem ser presos, responder a processo e a fiança é alta, para responder em liberdade. Começa em U$800 dólares.

   Em 2014, a área histórica da cidade, próxima ao porto, com suas edificações centenárias e, em especial, o monumento “Porta para Meca”, passou a constar da lista de Patrimônio Mundial da Unesco, visto que a cidade de Jeddah vem-se desenvolvendo por centenas de anos como porta de passagem para Meca e transformou-se em uma das mais importantes rotas comerciais do Mar Vermelho, além de ser a principal e porta de entrada dos peregrinos com destino à cidade sagrada. Possui um conjunto arquitetônico multicultural singular, erguido ao longo de séculos, devido tanto a sua importância comercial quanto à passagem dos peregrinos. No entanto, o que vi foram muitas obras, uma ânsia de modernização e de ocidentalização como ocorreu também nos Emirados Árabes e em outros países do Golfo Pérsico. Todos sabem que o petróleo não é para sempre e correm para se modernizar, criando outras fontes de renda, como o turismo, os empreendimentos imobiliários e financeiros, para manter sua imensa fortuna gerada pelos petrodólares. Cheguei a Jeddah às vésperas do grande Prêmio de Automobilismo e a televisão transmitia os treinos pelas belas avenidas da Corniche, passando ao lado da Mesquita suspensa sobre ao mar, obra-prima da arquitetura contemporânea.

   Em Yambu, porto industrial, peguei o ônibus para Medina, a segunda cidade sagrada do islamismo, onde morreu e está sepultado Maomé. São três horas de viagem, em autopista de primeiro mundo construída sobre o deserto. Os árabes investem em infraestrutura e por vários quilômetros, vi dezenas de refinarias de petróleo à beira-mar. Depois, só deserto, pequenos oásis onde vivem pastores, pequenos comerciantes, alguns camelos, ovelhas e burricos. Nada plantado. Algumas tamareiras e mais nenhuma vegetação. Surpreendi-me com Medina, que pensava ser uma cidade velha e ruelas medievais. Nada disso. A cidade é moderníssima e vive em torno da Grande Mesquita onde está enterrado o Profeta Maomé. Os não-muçulmanos só podem contemplar seu exterior, suas sombrinhas ultramodernas construídas pelo último rei para proteger do sol escaldante os peregrinos, a beleza de sua arquitetura e ver o local sagrado com teto verde, a cor representativa do Islã, onde foi sepultado o Profeta. Ao lado, se encontra um Museu moderno onde se pode conhecer a história da construção da Mesquita em seus quase 1.500  anos de existência.  Também visitamos uma praça, onde existem quatro mesquitas antigas, onde Maomé pregava, segundo a tradição. E, por último, visitamos a Mesquita de Quba, que, de acordo com  a história, é a mais antiga do mundo, pois foi a primeira fundada por Maomé. Voltamos ao anoitecer, contemplando o belo pôr do sol sobre a segunda cidade mais sagrada do islamismo, Al Madinah, como dizem. Oxalá, um dia, ainda abram a visita a Meca para não muçulmanos.

Impressões do Egito

   Volto ao Egito, pela terceira vez. Estive lá há 35 anos, em 1988, depois em 2012 e, agora. O país se transformou muito, nessas três décadas. O turismo voltou com força, após passar maus pedaços com ações terroristas: sequestro de ônibus de turistas no Sinai, ataques a voos em Sharm-el-Sheik, insegurança nos lugares turísticos. Não é um paraíso. Cairo é uma das cidades mais caóticas do mundo, com seus cerca de vinte e cinco milhões de habitantes divididos entre Giza e Cairo, nas duas margens do Rio Nilo. O país não tem qualquer política ambiental. Por todo lado se vê lixo amontoado, contaminação ambiental na água, terra e ar. O trânsito caótico do Cairo não dá espaço a pedestres. Lá, ninguém pode caminhar, pois não há sinal de trânsito e pedestre ou ciclista não têm vez. O controle de segurança é rígido, nos hotéis, aeroportos e rodovias. Não se anda muito sem ter de parar em cheque-points. Ou seja, não é tranquilo fazer turismo no Egito. Ainda há muito risco para o turista, por mais que haja controle de segurança.

   O que, no entanto, faz com que milhares de turistas para lá se desloquem, de todas as partes do mundo? Resposta fácil: seu passado histórico. O Egito concentra milhares de anos de muita história e por toda parte se pode visitar o que esse país representou na história da humanidade, há cinco mil anos. Talvez tenha sido um dos primeiros países a organizar o turismo em função de seu patrimônio histórico, desde o século XIX. Naquela época, nosso Imperador D. Pedro II, sábio viajante, esteve lá para visitar esse tesouro da humanidade e trouxe de lembrança do rei de lá alguns presentes como a múmia do sacerdote queimada no incêndio do Museu Nacional. Talvez seja hora de o Lula visitar o Egito e trazer de lá outra múmia, pois têm milhares. Recentemente, foram descobertas umas trezentas, ocultas sob as pirâmides de Sakhara.

   O que me espantou, nessa última viagem ao Egito, foi o surto imobiliário que se desenvolve em direção às pirâmides e à esfinge de Gizé. Na primeira vez em que estive lá, as pirâmides e as esfinge estavam retiradas da cidade. Agora, estão, praticamente, dentro dela. Hoje, se pode alugar apartamentos ou ficar em hotéis com vista para elas, constrói-se um novo museu ao lado das pirâmides, e um shopping center já funciona bem em frente às pirâmides. Ou seja, não há qualquer proteção ao sítio histórico dessa que é a única sobrevivente das maravilhas do mundo antigo, ainda admirada até hoje. Dizem que vão reconstruir o Farol de Alexandria, há muito destruído, e talvez até a famosa biblioteca de Alexandria venha a renascer para guardar os preciosos papiros que ainda se encontram enrolando as múmias descobertas.

   Mas o Egito não é só o Cairo, há também Luxor e Karnac, e o Vale dos Reis. No Mediterrâneo, Alexandria e Port Said, cidades turísticas de cruzeiros; dessa vez, conheci também o turismo do azulíssimo Mar Vermelho, embarcando em Sokhna e visitando Sofaga e a bela Hurghada. Há excelentes resorts à beira do Mar Vermelho e modernas autopistas levam a esses destinos paradisíacos. Também se pode fazer um cruzeiro pelo Nilo, indo a Abu Simbel e a outras paradas, curtindo relíquias restauradas de um tempo histórico, que nos deslumbram até hoje. Por isso, tanta gente vai ao Egito, apesar do perrengue, do calor, da insegurança, das filas, das lojas-arapuca, da comida, da poluição, do trânsito etc. Pelo seu passado histórico, vale a pena visitar o Egito e  até voltar, como fiz recentemente.

Las Palmas da Grã-Canária, pérola do Atlântico

Depois de dois anos e meio afastados de cruzeiros, eis-nos de volta a eles, para uma travessia do Atlântico, do Rio de Janeiro a Genova, na Itália, caminho inverso ao feito por nossos avós, há 130 anos. Inicialmente, estavam previstas paradas em Santa Cruz de La Palma, Las Palmas de Grã Canária e Santa Cruz de Tenerife, mas, após uma semana de céu e mar e a visita de alguns golfinhos, recebemos comunicado do comandante de que o roteiro tinha sido alterado, por “necessidade operacional”, ou seja, “falta de combustível”.  Inimaginável uma situação desta, visto que o navio ficou dois meses parado. Houve um começo de revolta entre os passageiros, alguma compensação foi oferecida, mas nos sentimos lesados, visto que o principal objetivo ao ter escolhido este cruzeiro foi visitar La Laguna, em Tenerife, e a Casa onde nasceu o Pe. José de Anchieta, hoje, Santo. Ele é considerado o “Apóstolo do Brasil”, fundou São Paulo e foi enterrado em Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo, meu estado natal. Por sinal, a única excursão que havia comprado era a pra visitar Laguna e o museu antropológico. Anchieta foi o iniciador da literatura em terras brasílicas, com suas poesias à Virgem e seu teatro de catequese. Fiquei, literalmente, sem chão, frustrado e inconformado. O comandante ofereceu 500 tíquetes de ferry-boat a quem quisesse ir a Tenerife, mas não consegui pegar e, mesmo se o conseguisse, talvez não pudesse ir a Laguna, pelo, pouco tempo destinado a essa aventura.

   Las Palmas é uma grande cidade, a maior do arquipélago das Canárias, com seus 600 mil habitantes e um dos centros do turismo europeu. Pessoas da Escandinávia a procuram o ano todo, fugindo dom frio e das terras geladas do norte europeu. Las Palmas tem um clima médio de 22oC, tido como o melhor do mundo, uma eterna primavera, nem muito quente, nem frio. Quando chegamos, estava 18oC, uma delícia para caminhar pelas ruas antigas da velha cidade. Saímos para um passeio noturno pela cidade e nos admiramos com o clima ameno, a tranquilidade de suas ruas e praças, a total ausência de insegurança que nos domina no Brasil. O clima gostoso nos convidava a tomar um vinho e comermos tapas espanhóis, ou canarinos, na secular Praça de Sant’Ana, em frente à vetusta catedral de mais de 500 anos, curtindo o prazer de estar em terra, após tantos dias de mar, o clima agradável, a companhia de amigos recém-conquistados. No dia seguinte, fizemos compras, visitamos a majestosa catedral, cuja construção se iniciou em 1.500, imponente em seu estilo gótico-neoclássico, o museu diocesano com suas relíquias eclesiásticas e o claustro com pés de mamão e palmas que dão nome à cidade. Caminhamos mais um pouco pelas ruas centenárias, visitamos a Casa de Colombo, mas nos faltou tempo para visitar a Casa-museu de Perez Galdós, o escritor mais famoso da ilha e ídolo local. Há de se destacar a simpatia dos nativos com os turistas, os bons preços de perfumes e produtos importados, visto que os impostos ali são de apenas 7% e a vontade de voltar, um dia, para curtir suas praias, museus, montanhas, parques. Visita em navio sempre termina assim: fica-se com gostinho de quero voltar. E Las Palmas, com certeza, é destino certo para se retornar, um dia.

Depois de dois anos e meio afastados de cruzeiros, eis-nos de volta a eles, para uma travessia do Atlântico, do Rio de Janeiro a Genova, na Itália, caminho inverso ao feito por nossos avós, há 130 anos. Inicialmente, estavam previstas paradas em Santa Cruz de La Palma, Las Palmas de Grã Canária e Santa Cruz de Tenerife, mas, após uma semana de céu e mar e a visita de alguns golfinhos, recebemos comunicado do comandante de que o roteiro tinha sido alterado, por “necessidade operacional”, ou seja, “falta de combustível”.  Inimaginável uma situação desta, visto que o navio ficou dois meses parado. Houve um começo de revolta entre os passageiros, alguma compensação foi oferecida, mas nos sentimos lesados, visto que o principal objetivo ao ter escolhido este cruzeiro foi visitar La Laguna, em Tenerife, e a Casa onde nasceu o Pe. José de Anchieta, hoje, Santo. Ele é considerado o “Apóstolo do Brasil”, fundou São Paulo e foi enterrado em Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo, meu estado natal. Por sinal, a única excursão que havia comprado era a pra visitar Laguna e o museu antropológico. Anchieta foi o iniciador da literatura em terras brasílicas, com suas poesias à Virgem e seu teatro de catequese. Fiquei, literalmente, sem chão, frustrado e inconformado. O comandante ofereceu 500 tíquetes de ferry-boat a quem quisesse ir a Tenerife, mas não consegui pegar e, mesmo se o conseguisse, talvez não pudesse ir a Laguna, pelo, pouco tempo destinado a essa aventura.

   Las Palmas é uma grande cidade, a maior do arquipélago das Canárias, com seus 600 mil habitantes e um dos centros do turismo europeu. Pessoas da Escandinávia a procuram o ano todo, fugindo dom frio e das terras geladas do norte europeu. Las Palmas tem um clima médio de 22oC, tido como o melhor do mundo, uma eterna primavera, nem muito quente, nem frio. Quando chegamos, estava 18oC, uma delícia para caminhar pelas ruas antigas da velha cidade. Saímos para um passeio noturno pela cidade e nos admiramos com o clima ameno, a tranquilidade de suas ruas e praças, a total ausência de insegurança que nos domina no Brasil. O clima gostoso nos convidava a tomar um vinho e comermos tapas espanhóis, ou canarinos, na secular Praça de Sant’Ana, em frente à vetusta catedral de mais de 500 anos, curtindo o prazer de estar em terra, após tantos dias de mar, o clima agradável, a companhia de amigos recém-conquistados. No dia seguinte, fizemos compras, visitamos a majestosa catedral, cuja construção se iniciou em 1.500, imponente em seu estilo gótico-neoclássico, o museu diocesano com suas relíquias eclesiásticas e o claustro com pés de mamão e palmas que dão nome à cidade. Caminhamos mais um pouco pelas ruas centenárias, visitamos a Casa de Colombo, mas nos faltou tempo para visitar a Casa-museu de Perez Galdós, o escritor mais famoso da ilha e ídolo local. Há de se destacar a simpatia dos nativos com os turistas, os bons preços de perfumes e produtos importados, visto que os impostos ali são de apenas 7% e a vontade de voltar, um dia, para curtir suas praias, museus, montanhas, parques. Visita em navio sempre termina assim: fica-se com gostinho de quero voltar. E Las Palmas, com certeza, é destino certo para se retornar, um dia.

San Salvador, simpática capital de um pequeno país

San Salvador, a capital de El Salvador, na América Central, é uma cidade de porte médio, com cerca de 500 mil habitantes, embora a população seja bem maior, pois a área metropolitana compreende vários municípios interligados como Santa Tecla, San Marcos, Mejicanos, dentre outros. É uma cidade montanhosa, espalhada entre cadeias vulcânicas e, por isso, tem sofrido grandes devastações sísmicas como as ocorridas em 1917, 1919 e 1986. O novo aeroporto internacional está situado a cinquenta quilômetros da cidade e chama-se Monsenhor Óscar Romero, o grande herói nacional, assassinado em 1980. Canonizado em 2018, o túmulo de Dom Romero, no subsolo da Catedral, é ponto de romaria para milhares de devotos. O outro herói nacional é o futebolista “Mágico” González, que nomeia um dos estádios locais.

Confesso que me senti tranquilo em San Salvador, que já foi considerada uma das cidades mais perigosas das Américas, por causa das “maras”, gangues de delinquentes que dominavam o centro da cidade e a região periférica. Andei a pé pela cidade, frequentei bares e restaurantes, caminhei pelo centro, entre os ambulantes e não senti a menor insegurança, como tenho, às vezes, em cidades de meu país. O povo é supersimpático, simples, cordial. Experimentei e gostei das “pupusas”, prato típico do país, uma espécie de minipizza em que não se enxerga o recheio, que pode ser de queijo, carne ou algum legume. Também gostei do café da manhã típico, feito de tutu de feijão com um pouco de arroz cozido, banana da terra frita (a que os falantes de espanhol chamam “plátano”), ovos mexidos e pãezinhos doces com um creme de leite desnatado. É uma delícia e sustenta por boa parte do dia. Não é uma cidade careira e se come bem por dez dólares. O churrasco deles é uma carne argentina, muito macia, acompanhada de um molho de tomate e cebola, bananas fritas e o tal tutu de feijão com arroz,que, parece, eles comem como acompanhamento de muitos pratos.

A cidade é bem provida de parques, de shoppings, de praças e de alguma área verde. Despertaram um pouco tarde para a conservação ambiental, comol me disse o guia, talvez até em função da violenta guerra civil, que matou e expulsou tanta gente, de 1980 a 1992. Desde então, o país vive em paz, luta para se desenvolver e a cidade possui alguns pontos turísticos de interesse como a Catedral, igrejas, o Teatro e o Palácio Nacional, o Museu de Arqueologia e o de Artes. Uns cinco dias na cidade são suficientes para se conhecer a maior parte delas, mas para visitar vulcões, lagos e ruínas maias, é necessário um pouco mais, pois se encontram fora da capital. Dizem os salvadorenhos que é o “país dos 45 minutos”, pois se pode ir a qualquer parte nesse tempo, mas é brincadeira, pois o tráfico é pesado e até para ir pro aeroporto pode-se gastar mais que isso. O país e sua capital são pequenos, mas simpáticos e agradáveis para se visitar. O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, o famosos autor de O Pequeno Príncipe, se casou, em Buenos Aires, com uma jovem viúva salvadorenha, Consuelo de Suncín, artista, pintora, escultora e de saúde frágil. Dizem que há várias referências a esse amor pela artista salvadorenha na obra O Pequeno Príncipe. Por isso, há uma bela praça dedicada a adultos e crianças em San Salvador, com personagens e passagens dessa obra tão conhecida no mundo todo.

El Salvador, o Pequeno Polegar das Américas

Acabo de chegar de El Salvador, o menor país das Américas, com seus 21 mil quilômetros quadrados e população de mais de sete milhões de pessoas, a maioria mestiços de índios e de europeus. Era o último país que me faltava visitar dentre todos os que constituem as Américas e Caribe, 35 ao todo. É um país que passou por uma guerra civil terrível, de 1980 a 1992, em que morreram milhares de pessoas. Hoje, o país está calmo, e sua maior fonte de sobrevivência é o envio de divisas dos milhares de salvadorenhos que saíram do país e hoje vivem nos EUA, Canadá ou em navios pelo mundo.

San Salvador, a Capital, é uma cidade que se moderniza, rapidamente, com seus centros comerciais e cadeias americanas de lojas e de comidas. Não é uma cidade violenta, perigosa para turistas, pois existem muitos guardas armados à frente de restaurantes, lojas e por todas as partes. Assustei-me, no primeiro dia, pois saí à tardinha para jantar e me deparei com muitos guardas armados à porta dos restaurantes. Depois, vi que isso era normal lá, para garantir a segurança dos cidadãos. Em Salvador, andei de ônibus populares, que são muitos e levam a toda parte, por um preço irrisório, 25 centavos, sem ar condicionado e 35, com ar. O país é, se comparado a outros, barato, e se pode comer e ficar em hotéis por preços razoáveis. Por oito dólares se faz uma boa refeição e por trinta se hospeda em hotel regular, com café da manhã incluído. O povo é bom, simpático, humilde e cordial. Anos e anos de guerra transformaram as pessoas em sobreviventes ansiosos pela paz e pela justiça social, pois ainda há muitas diferenças sociais e econômicas e a maior parte da população luta pela sobrevivência. Todavia, não vi mendigos em excesso e nem muita gente morando nas ruas, como aqui. Só dei esmola uma vez para um idoso, incapacitado de trabalhar, que entrou no ônibus a que me dirigia ao centro, pedindo ajuda. Mesmo assim, trabalhava, vendendo pequenos objetos, o que constitui a maior parte da renda de grande parte da população. É um país que vive da economia informal, pois não tem fábricas e empregos suficientes para todos. A jovens, explorando filhos para conseguir a caridade alheia, ou aos pedintes de porta de igreja, não dou esmolas. No centro, também é comum a presença de jovens que tentam extorquir motoristas, jogando água nos para-brisas dos carros numa velocidade tal, que não se lhes consegue dizer não. Ao contrário dos realmente necessitados, não se conformam com os centavos e reagem agressivamente.

Em El Salvador, se pode fazer turismo de praias, ecológicos ou culturais. O país é pequeno e tem uma diversidade de opções de passeio, menor que a Costa Rica, mas, também, interessante. Na capital, deve ser visitada a Catedral, onde se encontra a cripta do Monsenhor Romero, santificado em 2018 e assassinado em 1980, quando celebrava missa. O bispo Óscar Romero foi um dos maiores nomes da Teologia da Libertação, área da igreja católica socialista, tendo pagado com a vida sua opção pelos pobres. Junto com o futebolista Mágico González, constitui a dupla mais famosa do país no mundo. Outra igreja que deve ser visitada é a do Rosário, cuja obra modernista da década de 1960, é uma joia de arquitetura. Por fora, é feia e não se dá nada por ela. Por dentro, é uma maravilha saída da mente luminosa do arquiteto local Rubén Martínez. Também no centro, deve-se visitar o Palácio do Governo, em restauração e o Teatro Nacional, dentre outros sítios históricos. Perto de Salvador, é imprescindível subir ao El Boquerón, o maior vulcão da cidade, passear pelo parque bem preservado com seus pássaros nativos, dentre os quais o belo Torogoz, a ave nacional. Fora da cidade, fui ao Cerro Verde, outro parque nacional, onde se situam os maiores vulcões do país, já perto de Santa Ana, a segunda maior cidade, e o belo lago de Coatepeque, a oitava maravilha natural do mundo.

El Salvador também possui ruínas maias, embora as maiores estejam no México, na Guatemala e em Honduras. Fui visitar as de San Andrés, em La Libertad, e Joya de Cerén, o único Patrimônio da Humanidade do país, decretado em 1993 pela Unesco, antigo povoado maia, sepultado pelas cinzas do vulcão Ilamatepec, há centenas de anos, só recentemente descoberto. Enfim, El Salvador é uma boa surpresa para os que já viram muito, mas ainda acham que sempre há algo mais para descobrir no mundo. Aos guias Eduardo e Irving, meus agradecimentos pelas lições que me deram sobre seu país.