Notícias do velho mundo por um Torna-viagem
Antigamente, quando a comunicação era precária e não havia Internet, celular, tevê e o rádio se iniciava, havia a figura do Torna-viagem, alguém que chegava do estrangeiro e trazia notícias e pequenas encomendas para os que ficavam. Geralmente, era um padre, pastor ou parente, que ia à Europa e de lá trazia notícias do velho mundo para os imigrantes do novo. Retomo esse personagem para lhes contar um pouco do que vi, embora corra o risco de ser redundante, se o que narrar não for novidade para ninguém.
Primeiro, os grandes problemas do oeste europeu, hoje, são a imigração e o desemprego. Itália, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra não sabem mais o que fazer para conter a onda imigratória vinda da África, América e dos países do Leste Europeu. A eles atribuem todos os males que sofrem, hoje, como a violência urbana, poluição, mendicância, insegurança. No entanto, precisam da mão de obra desses imigrantes, pois a população envelheceu e eles não têm gente para fazer o serviço essencial e pesado. Os políticos direitistas ganharam as eleições recentes prometendo expulsar os imigrantes, mas como o farão, eis o problema.
Na Espanha, milhares de pessoas protestaram, na ocasião da Feira de S. Firmino, que abre a temporada de touradas, contra essa tradição secular. Disseram os manifestantes que doze mil touros são mortos por ano, no que não consideram “arte nem cultura, mas tortura”. Os catalães são contra as touradas, e eu, também. Que vivam os touros!
Em Hamburgo, na Alemanha, deve existir mais área verde que em todo o Espírito Santo. Apesar de ser uma das cidades mais industrializadas da Europa e de ter um porto super movimentado, não há poluição, em terra, ar ou água. No rio que banha a cidade, podem-se ver cisnes e outras aves, nadando solenemente. Por ser uma cidade de tradição portuária, é grande a exploração do erotismo e da sexualidade, em todas as suas formas possíveis e imagináveis. Há um bairro todo dedicado a esse comércio, atração turística, chamado Sant Pauli, maior que o Pigalle, de Paris, ou o Bairro Vermelho, de Amsterdam.
Estocolmo é a capital mundial do design. Não, não é Nova York, brothers. Basta ir ao Museu Nacional para ver como os suecos eram adiantados na criação de objetos de uso diário e de decoração, desde o século XVIII.O design de mesas e cadeiras, de utensílios domésticos, tão comuns nos dias atuais, surgiu da cabeça de um sueco, esse descendente dos vikings, povo de bem com a vida, em todos os sentidos.
Na Finlândia, não existe mais telefone público nem cabine telefônica. Orelhão, pra eles, é pré-histórico. Como todos os finlandeses têm celular e computador, os turistas que se danem. Para ligar de lá, só se levar um celular. Passam seis meses do ano dentro de casa, por causa do frio, e na primavera-verão, saem todos para ouvir música, tomar sol, caminhar pelos parques, fazer piquenique, aproveitando ao máximo o longo dia de quase 22h.
Na Rússia, acabou o comunismo, mas a burocracia é ainda soviética. A livre iniciativa é incipiente e o povo parece macambúzio, melancólico, de difícil sorriso. São Petersburgo está linda, com suas noites brancas, em que o sol se põe à meia-noite e volta três horas depois, toda restaurada, cheia de gente e a vida noturna é muito agitada. As luzes da cidade refletidas no formoso rio Nava tornam a cidade dos czares uma das mais belas da Europa.
Sou neto de imigrantes europeus: um era italiano, veio com o pai e a mãe, aos seis anos, antepassado longínquo de um Mateo Ricci, que foi até a China, como Marco Polo; o outro, português, chegou com a mãe e a irmã, para trabalhar e mandar dinheiro para o pai, doente, em Portugal. Ambos vieram atrás da ilusão da terra prometida e, se não a encontraram, me transmitiram, geneticamente, seus sonhos. Minhas avós também são frutos de outros imigrantes: a mãe do meu pai era branca e magrinha, de olhos azuis, descendentes de portugueses ou de galegos; a mãe de minha mãe era filha de índia Puri e de pai negro. Tinha a pele morena e os cabelos muito lisos, que amarrava em tranças como as italianas, com quem aprendeu a fazer o pão nosso de cada dia, tão apreciado por meu avô e por todos nós. Santas mulheres, com a vida dignificada pelo trabalho, pela dedicação total à família e pela honradez de todas as virtudes.