Viagens e Leitura

fotos  cruzeiro santiago-los angeles 231Sou neto de imigrantes europeus: um era italiano, veio com o pai e a mãe, aos seis anos, antepassado longínquo de um Mateo Ricci, que foi até a China, como Marco Polo; o outro, português, chegou com a mãe e a irmã, para trabalhar e mandar dinheiro para o pai, doente, em Portugal. Ambos vieram atrás da ilusão da terra prometida e, se não a encontraram, me transmitiram, geneticamente, seus sonhos. Minhas avós também são frutos de outros imigrantes: a mãe do meu pai era branca e magrinha, de olhos azuis, descendentes de portugueses ou de galegos; a mãe de minha mãe era filha de índia Puri e de pai negro. Tinha a pele morena e os cabelos muito lisos, que amarrava em tranças como as italianas, com quem aprendeu a fazer o pão nosso de cada dia, tão apreciado por meu avô e por todos nós. Santas mulheres, com a vida dignificada pelo trabalho, pela dedicação total à família e pela honradez de todas as virtudes.

Talvez desse sangue de europeus sempre em busca de outras terras para conquistar, ou do sangue africano e puri dos bisavós, também exilados da terra natal, herdei, desde cedo, o destino cigano de ir sempre além, em busca do desconhecido. Desde menino, acostumei-me a subir as montanhas do Caparaó para indagar o que havia além do horizonte. Tinha a curiosidade dos que não se prendem a vales ou a depressões e o meu primeiro livro de prazer foram As aventuras de Simbad, o marujo. Aprendi com meu pai que, se não houver ponte para atravessar o rio, façamos uma pinguela. E nunca tive medo de viajar sozinho, de ônibus, de carona ou de trem, quando meu pai se foi, levado por uma dessas enchentes de janeiro, por longas distâncias que uma criança de hoje não faz, pois não vai a pé nem à escola, ao lado de casa. Mudaram-se os tempos e a violência só aumentou.

Na juventude, já percorria o Brasil, em busca de um conhecimento que satisfizesse meu desejo de sempre ver e aprender. O mundo era mais romântico e acreditávamos nas flores vencendo canhões. Aos dezoito anos, deprimido pela ditadura, tirei meu primeiro passaporte, com a intenção de cumprir o sonho de ser mochileiro na Europa. Minha mãe não queria, mas me apoiava; no entanto, ela morreu e tive de adiar esse plano, que só pude realizar, mais tarde, na maturidade. Aos vinte, fiz minha primeira viagem internacional. Atravessei, emocionado, a pé, a Ponte da Amizade, e fui dar em terras paraguaias, onde embarquei no expresso ‘Caaguazu’ hasta Assunción. Lá, participei, com exilados chilenos, de uma noite de protesto contra a ditadura, no Teatro Municipal. Na época, toda a América Latina era uma ditadura só, que fui conhecendo, aos poucos. Também visitei, pouco mais tarde, a Cuba marxista-leninista e o Panamá, ‘colônia imperialista’. Depois, vieram Europa, América do Norte, Caribe, África, Ásia e Oceania. Já percorri cento e vinte países dos cinco continentes, dei a volta ao mundo algumas vezes, fui a mais da metade do mundo, e a parte que falta não sei se terei tempo, dinheiro e disposição para visitar. Se isso é sina de imigrante ou praga de ciganos que quase me levaram, um dia, não sei. Só sei que viajar é, para mim, uma forma de conhecer o mundo e suas diversidades. Santo Agostinho disse que “o mundo é um livro e quem não viaja só lê uma página”. Já li mais da metade desse livro, lendo bem devagar, para não chegar logo ao final, a última viagem, cujo retorno já veio incluído no bilhete de vinda, o único que ganhei, sem ter comprado, há 60 anos. Foi um belo presente dos meus pais essa viagem para o mundo, que tenho procurado vivenciar, com olhos bem atentos e coração aberto.

Por outro lado, aprendi a gostar de ler desde pequeno, pois tinha uma mãe e um avô contadores de história. Minha casa não tinha livros, somente uma bíblia ilustrada que foi um dos primeiros que li. Mas meus pais, embora tivessem educação primária, sabiam da importância da leitura e do livro e me incentivaram dando-me livros de presente. Neles, eu viajava pelo mundo todo, sem sair do lugar. Aos dez anos, ganhei o “O Tesouro da Juventude”, o Google de nossa época. Durante o ginásio, os trinta e seis volumes daquela enciclopédia de capa cinzenta me acompanharam e foram minha companhia mais frequente nos momentos de solidão. Ler e viajar são, até hoje, minhas maiores diversões. Não me cansam os voos longos, nem horas intermináveis de aeroporto, se estiver bem acompanhado com um livro.  Ainda não me acostumei com a leitura de livros eletrônicos, por isso, prefiro os de papel, que deixo em aviões, aeroporto, estações, após lidos. Também, quando acho algum interessante, carrego.

Este blog é uma tentativa de conversar com mais gente que goste do mesmo que eu: ler e viajar. Gosto de escrever e de ler crônicas, sobretudo sobre viagens. Até agora, escrevia em jornal impresso e publicava em livros de papel. Neste espaço, embarco num veículo deste novo século e convido-o a viajar comigo. Vamos nessa?

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