Palmira, a rainha do deserto

É difícil imaginar que, há quase 2000 anos, tenha existido uma civilização, o reino de Palmira, entre os dois maiores impérios da época, o persa e o romano, num lugar como esse, no meio do deserto, e, por algum tempo, os tenha desafiado em pé de igualdade! Pois é, isso aconteceu entre o século I e II d. C, e, de 167 a 171, uma rainha, Zenóbia, tornou-se a mulher reinante mais famosa de sua época, cuja fama perdura até os nossos dias como a de outras não menos importantes como a rainha de Sabá, a faraona Hatshepsut, Cleópatra, Catarina de Médicis, Isabel de Castela, Elizabeth I e tantas outras.

Palmira é um oásis, no caminho da antiga rota da seda e das caravanas que ligava o oriente ao ocidente, daí sua riqueza, no passado. Hoje, nos confins da Síria, a 150 km da fronteira com o Iraque, guarda a memória daqueles tempos nas ruínas de sua cidade, com ruas, templos, tumbas e monumentos. Milhares de turistas do mundo todo lá acorrem para visitar o que restou do antigo reino de Palmira, fundado por selêucidas, descendentes de Alexandre Magno, da Macedônia.

Hoje, patrimônio da humanidade, Palmira continua um oásis de paz entre as guerras contemporâneas. Após sua destruição por terremotos, por invasores e por seus últimos conquistadores, árabes, turcos otomanos e ingleses, as ruínas de Palmira são um lugar mágico, seja refletidas pelos holofotes ou pela lua cheia, seja pelos reflexos do sol que a tudo incendeiam. Dizem que, no passado, o templo de Júpiter era coberto de bronze e, de longe, as caravanas se impressionavam com o seu brilho ao sol, ofuscando-se ao poder de Palmira. Hoje, no lugar do bronze, retirados para a fabricação de armas, ficaram buracos onde os pássaros que ali sobrevivem fazem seus ninhos, recriando a vida.

Palmira não é só um lugar de visita; é, sobretudo, uma pausa para reflexão. De um lado, judeus e palestinos, filhos do mesmo pai, se matam, irracionalmente, pois não podem dividir o mesmo chão; do outro, turcos e curdos não se reconhecem no mesmo território; muito perto dali, xiitas e sunitas, invadidos por norte-americanos, ameaçam a paz mundial. Os homens se esquecem de que a vida é breve, para viver em guerra; só a arte é longa. Por causa de toda a barbárie e de tantas guerras, e, apesar de tanto poder no passado, pouco restou dos grandes impérios. Sobraram, apenas, ruínas, colunas, fragmentos de mosaicos, restos de arte como testemunha de um tempo, que já se foi, como também se foram os grandes reinos destruídos pela soberba, o maior dos pecados humanos, e que destrói a todos dominados por ela, inexoravelmente.

(Esta crônica foi escrita em 2010, quando estive em Palmira. Republico-a, em homenagem a sua reconquista pelos sírios, após ter sido retomada do Exército Islâmico, há poucos dias).

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