Jalapão, coração do Brasil

Acabo de chegar do Parque Estadual do Jalapão, situado no Estado de Tocantins, um dos mais novos da federação brasileira, em cuja capital, Palmas, se localiza o centro geodésico do Brasil. O Parque Estadual do Jalapão é uma unidade de conservação da natureza, criado em 2001, com uma área de mais de 158 mil hectares, equivalente ao estado do Sergipe. O nome Jalapão deriva de uma planta chamada jalapa, comum a diversas plantas do gênero Ipomea, geralmente trepadeiras, cujo tubérculo é usado pela medicina popular como purgativo. A vegetação predominante é a do cerrado e a de campos limpos com veredas. Faz parte do imaginário de Guimarães Rosa, o maior prosador brasileiro, criador do épico: “Grande Sertão: Veredas”.

 

Percorri quase mil quilômetros de estradas pelo Jalapão, saindo de Palmas, em direção a Taquaruçu, um distrito da capital, em que se localizam oitenta e três cachoeiras. Só visitei duas, a da Roncadeira e a Escorrega Macaco, onde os amantes do rapel podem exercer essa prática. Pela trilha de 1,5 km que se faz até chegar às cachoeiras, pode-se observar exemplares da fauna nativa, sobretudo araras e macacos. Seguindo viagem, entra-se, formalmente, no parque em Santa Teresa do Tocantins, onde está o portal de entrada, seguindo viagem em direção a Ponte Alta do Tocantins, a cidade mais desenvolvida da região, e onde termina o asfalto. Daí pra frente, é chão e poeira, em estradas cheias de costela, atravessando pontes estreitas, poças d’água, areais, que só permitem passagem de veículos 4×4. Portanto, nada de se aventurar em carros pequenos, não preparados para esse tipo de terreno. O melhor é confiar nos experientes guias das agências locais, sempre simpáticos e solícitos, experientes e prudentes, como o jovem Samuel Marinho que guiou nosso grupo pelas estradas e veredas jalapeiras. Lá se diz que “coração de jalapeiro não bate, trepida”.

Além dos rios e cachoeiras, as características principais do Jalapão são os fervedouros e o capim dourado. Fervedouros são poços com pequenos lagos onde brotam água cristalina do interior da terra, cuja profundidade pode chegar a dezenas de metros, e onde não se afunda, pela pressão da água vinda de baixo para cima. São oásis rodeados de plantas nativas, buritis ou bananeiras e existem cerca de 21 catalogados na região, mas apenas 11 visitáveis. Paga-se cerca de 20 reais para usufruir por 15 minutos dessa maravilha e todos estão localizados em áreas particulares pertencentes aos quilombolas, antigos escravos provenientes da Bahia, detentores também dos direitos de extrair e comercializar produtos artesanais feitos com o capim dourado, famosos em todo país. O capim dourado, nativo na região, é colhido em setembro, na primavera, na mesma época em que florescem os ipês, de variadas cores, espalhados em todo cerrado. Recomendo se visitar o Jalapão nesse mês, no final da estação seca, antes de se iniciar o período das chuvas, em outubro, em que fica muito mais difícil visitar os pontos de interesse.

Não se pode sair do Jalapão sem visitar, também, suas dunas de areia vermelha e apreciar um dos mais lindos pores do sol do mundo, espetáculo que também pode ser vivido na Pedra Furada, local mágico e precioso, talvez tão sagrado quanto o famoso Uluru australiano. Infelizmente, pessoas sem consciência ambiental levam drones para soltar ali, o que irrita as centenas de araras e papagaios que ali fazem seus ninhos e as abelhas com suas colmeias. Deveria ser terminantemente proibido tal prática ali, como já ocorre nas dunas. Também fiquei impressionado com o cânion de Sussuapara, lugar onde os veados nativos, assim chamados pelos índios, bebiam água e, provavelmente, eram mais facilmente abatidos. Infelizmente, nada mais restou deles na natureza, assim como vão sendo exterminados emas, lobos-guarás, cobras e todo tipo de fauna antes soberana na região, hoje paulatinamente mortos com as queimadas comuns nessa época do ano. Aos poucos, mesmo dentro do parque, a mata nativa do cerrado vai sendo destruída para a plantação de capim para os bois ou de eucaliptos, única cultura que produz naquele terreno arenoso. É preciso uma vigilância ambiental maior para combater as queimadas, quase sempre intencionais. Talvez, o melhor seja transformar essa região espetacular como parque nacional, para que sejam preservados com mais eficiência sua flora e fauna, terra, água e ar. O Jalapão é o coração do Brasil, como está registrado no Morro do Sereno, e é preciso que todo brasileiro saiba disso, pois sua riqueza natural pode deixar de existir diante da ambição e da ignorância humanas.

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