Aniversário em Atenas

Resolvi comemorar meu aniversário de sessenta anos em Atenas, por ser uma cidade que me encanta, berço da filosofia, da literatura e da academia tal qual à que pertenço, em nosso estado. Queria, também, ver como era a crise grega em comparação com a nossa. Afinal, a palavra crise vem do grego “krisis”, do vocabulário médico, e significa o estado das situações e ações quando em mudanças, sendo essas para melhores ou piores; ou seja, estar em crise é quando as coisas estão mudando, não estão como antes e, com o passar do tempo, se saberá se mudou para melhor ou para pior. Crise, portanto, é momento de passagem, significa ruptura, término, separação de um estágio anterior para outro desconhecido. Voltar a Atenas, onde já estive em outras ocasiões, era confrontar situações já vividas, tanto as minhas, já que saio da maturidade para a velhice, quanto as do país onde vivo e as do que escolhi para visitar.

Já no voo de ida, leio nos jornais que o parlamento alemão aprovara o empréstimo feito ao governo grego e, na chegada a Atenas, na praça Sintagma (que significa “Constituição”), coração e alma da cidade, onde está a bela construção do Parlamento, vejo uma multidão concentrada, silenciosa, ouvindo a renúncia do Primeiro Ministro grego. Meu hotel era perto dali; saltei do ônibus que me conduzia desde o aeroporto por módicos cinco euros e saí arrastando a mala em meio à multidão atenta e silenciosa. Nenhuma manifestação de aplauso ou de rejeição. Os gregos sabem, por experiência milenar, que tudo passa e que nenhum governo, popular ou não, socialista ou conservador, é para sempre. Acabado o pronunciamento, voltam todos para as suas rotinas, como se nada tivesse acontecido.

À noite, saio para caminhar até a Plaka, bairro aos pés da Acrópole, majestosamente iluminada. Tudo é tranquilo, nenhuma sensação de insegurança, bares e restaurantes lotados de turistas, músicos tocando pelas ruas milenárias, comida boa e razoavelmente barata e uma lua majestosa no céu. A lua cheia tornava ainda mais nítidos os monumentos de tantas eras, cujas ruínas ainda permanecem para recordar a grandiosidade do passado daquele povo e daquela cidade. Atenas é única, no mundo, como Roma ou Istambul. Na manhã seguinte, caminho pela antiga Ágora romana, mas nada vejo da crise grega. Centenas de lojas vendem lembranças aos turistas. Gente do mundo todo sobe e desce ruas milenares, onde caminharam filósofos, apóstolos, soldados, marinheiros, comerciantes, mendigos. Todos estão ainda ali, nesse lugar mítico, simbólico, de tantos credos e de tanta história. O sol é para todos, inclemente, neste final de verão europeu, mas os japoneses, sábios, são os únicos a se protegerem com sombrinhas antitérmicas e totalmente cobertos como se estivessem no inverno de Nagoia.

Para nós, os incautos, há os bonés com a bandeira grega, e as camisetas para levarmos de souvenires, onde está escrito: “Greek crisis: no job, no food, no problem”. Afinal, foram eles que nos legaram, também, a palavra “estoicismo”, filosofia caracterizada pela aceitação resignada do destino. Mais ou menos como o “Diante do inevitável, relaxa e goza”, da filósofa ex-ministra  ex-petista tupiniquim. No dia seguinte, concedo-me um presente de aniversário que há muito almejava: uma visita a Meteora, ao norte da Grécia, quase divisa com a Macedônia, para visitar os mosteiros medievais construídos por eremitas, na Idade Média. Um deslumbramento! Como não há mais espaço nesta crônica, convido o leitor a visitar o Google para ver um pouco do que vi, vivi e senti nesse lugar místico e sagrado da encantadora Grécia.

Notícias do velho mundo por um Torna-viagem

Antigamente, quando a comunicação era precária e não havia Internet, celular, tevê e o rádio se iniciava, havia a figura do Torna-viagem, alguém que chegava do estrangeiro e trazia notícias e pequenas encomendas para os que ficavam. Geralmente, era um padre, pastor ou parente, que ia à Europa e de lá trazia notícias do velho mundo para os imigrantes do novo. Retomo esse personagem para lhes contar um pouco do que vi, embora corra o risco de ser redundante, se o que narrar não for novidade para ninguém.

Primeiro, os grandes problemas do oeste europeu, hoje, são a imigração e o desemprego. Itália, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra não sabem mais o que fazer para conter a onda imigratória vinda da África, América e dos países do Leste Europeu. A eles atribuem todos os males que sofrem, hoje, como a violência urbana, poluição, mendicância, insegurança. No entanto, precisam da mão de obra desses imigrantes, pois a população envelheceu e eles não têm gente para fazer o serviço essencial e pesado. Os políticos direitistas ganharam as eleições recentes prometendo expulsar os imigrantes, mas como o farão, eis o problema.

Na Espanha, milhares de pessoas protestaram, na ocasião da Feira de S. Firmino, que abre a temporada de touradas, contra essa tradição secular. Disseram os manifestantes que doze mil touros são mortos por ano, no que não consideram “arte nem cultura, mas tortura”. Os catalães são contra as touradas, e eu, também. Que vivam os touros!

Em Hamburgo, na Alemanha, deve existir mais área verde que em todo o Espírito Santo. Apesar de ser uma das cidades mais industrializadas da Europa e de ter um porto super movimentado, não há poluição, em terra, ar ou água. No rio que banha a cidade, podem-se ver cisnes e outras aves, nadando solenemente. Por ser uma cidade de tradição portuária, é grande a exploração do erotismo e da sexualidade, em todas as suas formas possíveis e imagináveis. Há um bairro todo dedicado a esse comércio, atração turística, chamado Sant Pauli, maior que o Pigalle, de Paris, ou o Bairro Vermelho, de Amsterdam.

Estocolmo é a capital mundial do design. Não, não é Nova York, brothers. Basta ir ao Museu Nacional para ver como os suecos eram adiantados na criação de objetos de uso diário e de decoração, desde o século XVIII.O design de mesas e cadeiras, de utensílios domésticos, tão comuns nos dias atuais, surgiu da cabeça de um sueco, esse descendente dos vikings, povo de bem com a vida, em todos os sentidos.

Na Finlândia, não existe mais telefone público nem cabine telefônica. Orelhão, pra eles, é pré-histórico. Como todos os finlandeses têm celular e computador, os turistas que se danem. Para ligar de lá, só se levar um celular. Passam seis meses do ano dentro de casa, por causa do frio, e na primavera-verão, saem todos para ouvir música, tomar sol, caminhar pelos parques, fazer piquenique, aproveitando ao máximo o longo dia de quase 22h.

Na Rússia, acabou o comunismo, mas a burocracia é ainda soviética. A livre iniciativa é incipiente e o povo parece macambúzio, melancólico, de difícil sorriso. São Petersburgo está linda, com suas noites brancas, em que o sol se põe à meia-noite e volta três horas depois, toda restaurada, cheia de gente e a vida noturna é muito agitada. As luzes da cidade refletidas no formoso rio Nava tornam a cidade dos czares uma das mais belas da Europa.

Viagens e Leitura

fotos  cruzeiro santiago-los angeles 231Sou neto de imigrantes europeus: um era italiano, veio com o pai e a mãe, aos seis anos, antepassado longínquo de um Mateo Ricci, que foi até a China, como Marco Polo; o outro, português, chegou com a mãe e a irmã, para trabalhar e mandar dinheiro para o pai, doente, em Portugal. Ambos vieram atrás da ilusão da terra prometida e, se não a encontraram, me transmitiram, geneticamente, seus sonhos. Minhas avós também são frutos de outros imigrantes: a mãe do meu pai era branca e magrinha, de olhos azuis, descendentes de portugueses ou de galegos; a mãe de minha mãe era filha de índia Puri e de pai negro. Tinha a pele morena e os cabelos muito lisos, que amarrava em tranças como as italianas, com quem aprendeu a fazer o pão nosso de cada dia, tão apreciado por meu avô e por todos nós. Santas mulheres, com a vida dignificada pelo trabalho, pela dedicação total à família e pela honradez de todas as virtudes.

Talvez desse sangue de europeus sempre em busca de outras terras para conquistar, ou do sangue africano e puri dos bisavós, também exilados da terra natal, herdei, desde cedo, o destino cigano de ir sempre além, em busca do desconhecido. Desde menino, acostumei-me a subir as montanhas do Caparaó para indagar o que havia além do horizonte. Tinha a curiosidade dos que não se prendem a vales ou a depressões e o meu primeiro livro de prazer foram As aventuras de Simbad, o marujo. Aprendi com meu pai que, se não houver ponte para atravessar o rio, façamos uma pinguela. E nunca tive medo de viajar sozinho, de ônibus, de carona ou de trem, quando meu pai se foi, levado por uma dessas enchentes de janeiro, por longas distâncias que uma criança de hoje não faz, pois não vai a pé nem à escola, ao lado de casa. Mudaram-se os tempos e a violência só aumentou.

Na juventude, já percorria o Brasil, em busca de um conhecimento que satisfizesse meu desejo de sempre ver e aprender. O mundo era mais romântico e acreditávamos nas flores vencendo canhões. Aos dezoito anos, deprimido pela ditadura, tirei meu primeiro passaporte, com a intenção de cumprir o sonho de ser mochileiro na Europa. Minha mãe não queria, mas me apoiava; no entanto, ela morreu e tive de adiar esse plano, que só pude realizar, mais tarde, na maturidade. Aos vinte, fiz minha primeira viagem internacional. Atravessei, emocionado, a pé, a Ponte da Amizade, e fui dar em terras paraguaias, onde embarquei no expresso ‘Caaguazu’ hasta Assunción. Lá, participei, com exilados chilenos, de uma noite de protesto contra a ditadura, no Teatro Municipal. Na época, toda a América Latina era uma ditadura só, que fui conhecendo, aos poucos. Também visitei, pouco mais tarde, a Cuba marxista-leninista e o Panamá, ‘colônia imperialista’. Depois, vieram Europa, América do Norte, Caribe, África, Ásia e Oceania. Já percorri cento e vinte países dos cinco continentes, dei a volta ao mundo algumas vezes, fui a mais da metade do mundo, e a parte que falta não sei se terei tempo, dinheiro e disposição para visitar. Se isso é sina de imigrante ou praga de ciganos que quase me levaram, um dia, não sei. Só sei que viajar é, para mim, uma forma de conhecer o mundo e suas diversidades. Santo Agostinho disse que “o mundo é um livro e quem não viaja só lê uma página”. Já li mais da metade desse livro, lendo bem devagar, para não chegar logo ao final, a última viagem, cujo retorno já veio incluído no bilhete de vinda, o único que ganhei, sem ter comprado, há 60 anos. Foi um belo presente dos meus pais essa viagem para o mundo, que tenho procurado vivenciar, com olhos bem atentos e coração aberto.

Por outro lado, aprendi a gostar de ler desde pequeno, pois tinha uma mãe e um avô contadores de história. Minha casa não tinha livros, somente uma bíblia ilustrada que foi um dos primeiros que li. Mas meus pais, embora tivessem educação primária, sabiam da importância da leitura e do livro e me incentivaram dando-me livros de presente. Neles, eu viajava pelo mundo todo, sem sair do lugar. Aos dez anos, ganhei o “O Tesouro da Juventude”, o Google de nossa época. Durante o ginásio, os trinta e seis volumes daquela enciclopédia de capa cinzenta me acompanharam e foram minha companhia mais frequente nos momentos de solidão. Ler e viajar são, até hoje, minhas maiores diversões. Não me cansam os voos longos, nem horas intermináveis de aeroporto, se estiver bem acompanhado com um livro.  Ainda não me acostumei com a leitura de livros eletrônicos, por isso, prefiro os de papel, que deixo em aviões, aeroporto, estações, após lidos. Também, quando acho algum interessante, carrego.

Este blog é uma tentativa de conversar com mais gente que goste do mesmo que eu: ler e viajar. Gosto de escrever e de ler crônicas, sobretudo sobre viagens. Até agora, escrevia em jornal impresso e publicava em livros de papel. Neste espaço, embarco num veículo deste novo século e convido-o a viajar comigo. Vamos nessa?