Albânia: adeus ao passado comunista

Minha maior curiosidade por tudo que iria visitar, na viagem que fiz, pelo leste europeu, era a Albânia. Afinal, ela ficara fechada ao turismo por 45 anos. Quanto mais nos aproximávamos da fronteira Montenegro-Albânia, mais meus olhos percorriam os dois lados da pequena e sinuosa estrada que nos levava ao desconhecido. Saímos da pista bastante razoável do belíssimo litoral montenegrino, logo após a cidade de Bar, e nosso ônibus dobrou à esquerda, sem que percebêssemos qualquer sinalização indicando a Albânia. Começamos a subir por uma estrada cheia de curvas e que mal dava para um veículo. Quanto mais subíamos, mais estreita era a pista e, quando vinha outro veículo, era uma ginástica para passarem os dois. Felizmente, nosso motorista croata, o Marian, era experiente e muito calmo. A paisagem era bucólica e cenas pré-históricas nos mostravam bois arando como há dois mil anos, famílias inteiras cortando e armazenando feno, vacas com chocalhos no pescoço, cabritos e carneiros sendo pastoreados por mulheres que teciam em antigos teares. À medida que nos aproximávamos da fronteira, víamos dezenas de casamatas ou bunkers construídos no meio do nada. Disse-nos o guia, o simpático e competente croata Daniel, que existiam cerca de 700 mil deles construídos pelo ditador Enver Hodja, um paronoico que dominou a Albânia de 1944 a 1985 e a fechou para o mundo. Com isso, a Albânia, tão perto da Itália e da Grécia, se tornou um país pré-histórico, sem estradas para carros, já que só tinha cavalos e carroças. Com o fim do domínio comunista, em 1989, e a volta da democracia, em 1991, tudo mudou e os milhares de albaneses espalhados pelo mundo começaram a enviar dinheiro para reconstruir o país. Hoje, vivem uma febre consumista sem tamanho.

Entramos pela fronteira por Skhoda, uma cidade situada à margem do lago Escutari, uma região montanhosa, e tudo foi muito tranquilo. Nem visto nos foi exigido. Esperamos os passaportes trazidos pelo guia, num restaurante, tomando café e experimentando o bom conhaque local, já dentro da Albânia. Daí até chegarmos a Tirana, a capital,foram umas três horas de viagem, passando por cidades habitadas por ciganos, outras com fortalezas construídas desde os tempos dos ilírios, indústrias abandonadas do período comunista e, mais perto da capital, as pequenas estradas carroçáveis estão sendo reconstruídas para dar passagem às possantes Mercedes que invadem o país. A Albânia é um país de grandes contrastes e as carroças estão sendo substituídas por Mercedes de última geração enviadas por albaneses que trabalham no exterior. O pior é que os atuais motoristas são os ex-carroceiros, que desconhecem qualquer lei de trânsito. É um salve-se quem puder! Nos últimos 20 anos, o país entrou num capitalismo selvagem da pior espécie possível e o capital internacional é bem-vindo de todas as formas. Por todo lado, abrem-se postos de combustível e lava a jato, para atender à febre automobilística que dominou o país.

Albanês não usa mais a sainha plissada, à moda grega, nem o fez, o chapeuzinho à moda turca. Agora, todos querem roupa de grife e, não podendo usar a original, usam as falsificadas pela Camorra, a máfia italiana, de que são os principais operários. A juventude é igual à do mundo todo, fala inglês, come fast-food, ouve e dança Lady Gaga. O país de origem de Madre Teresa de Calcutá, pois, embora tenha nascido em Skopje, na Macedônia, era albanesa, e autoproclamado o primeiro país ateu do mundo, na época do comunismo, dá adeus à pobreza e à miséria do passado, assumiu o materialismo consumista dos tempos hipermodernos, sem ter passado pelo moderno, e quer lavar toda a poeira do passado,  nas dezenas de lava a jato, a desperdiçar água, como os que vimos em todo o país até  a fronteira com a Macedônia.

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