Etiópia, berço da humanidade

Há pouco tempo, li o livro “Luzes da África”, de Haroldo Castro, que faz uma viagem com o filho da África do Sul ao Sudão, buscando mostrar o que a África tem de belo, interessante e importante para a humanidade. Fiquei impressionado com o parágrafo “Segundo os parâmetros do Banco Mundial, estou em um dos países mais pobres do mundo. Mas, se os indicadores artísticos e espirituais pudessem ser computados, a Etiópia seria considerada uma das nações mais ricas do planeta” (p.377). Foi  com essa referência na cabeça que fui para a Etiópia, uma viagem que só iria confirmar o que tinha lido, ainda que só tivesse conhecido a parte norte do país. Em primeiro lugar, a Etiópia é o berço da humanidade, pois ali foi o “Jardim do Éden”, segundo a Bíblia, o que tem sido confirmado pelos arqueólogos com a descoberta dos mais antigos hominídeos, dentre os quais a famosa Lucy, que podem ser visitados no Museu Arqueológico Nacional, em Addis Abeba.

Após uma pequena parada na capital, uma moderna cidade com uma cara árabe-africana e um clima belo-horizontino, fui para Bahir Dar, cidade turística às margens do lago Tana. De lá, pode-se atravessar o lago para visitar alguns dos mosteiros centenários à sua margem e, enquanto se navega em pequenas e seguras embarcações, vai-se encontrando, pelo caminho, pequenos barcos de junco com coletores de madeira que a comercializam na cidade. São barcos muito parecidos com os que vi no Titicaca, há muitos anos. Só não faz tanto frio, pois a altitude é menor, pouco menos de 2.000m. Desde o avião, pode-se ver como a Etiópia possui altas montanhas, algumas chegando a 4.500m como a Dashen, que também é nome de uma boa cerveja de lá, vales profundos, lagos, florestas selvagens e desertos. É um país africano bem diferente dos que eu já conhecia, principalmente por ser uma região muito montanhosa e fria. De Bahir Dar, fui até as cascatas do Nilo Azul, um percurso de 32 km, mas em uma estrada muito ruim, cheia de costelas. Jemal, o motorista, me disse que era uma “massagem africana”;  o pior era a poeira, pois estava muito seco e cada carro por que passávamos levantava uma nuvem de pó que tínhamos de engolir. Pelo caminho, muita gente pela estrada, pequenos pastores com seus rebanhos de carneiros, cabritos, jegues e vacas, a maioria vestida em lenços que, um dia, devem ter sido brancos. Meninos aravam a terra com charruas pré-históricas puxadas por bois, para plantar, quando chover, a comida de subsistência. Lá, uma decepção, pois o rio estava bem seco, a deslumbrante cascata da foto não passava de um filete d’água escorrendo nas pedras. Passamos por uma ponte de pedra feita pelos portugueses, há 400 anos, e outra recém-construída pelos suíços sobre o cânion por onde passa o esquálido rio que será, no Egito, o gigantesco Nilo.

No outro dia, seguimos, por terra, de Bahir Dahr a Gondar, a cidade dos castelos, um percurso de 180 km feito em menos de três horas, pois a estrada é boa, recém-pavimentada pelos chineses. Pelo caminho, passamos por pequenas cidades repletas de gentes coloridas, muitos rebanhos e pastores pelas estradas, mulheres vendendo galos garnisés, muita gente pedindo carona, uma profusão de cores e de sons proferidos numa língua tão antiga quanto o hebreu e o árabe, o amárico, de difícil aprendizado. “Olá”, para eles é “Tenayestellegne”; “Obrigado”, “Amesegnalehu”. Muito difícil para o turista! Por isso, todos estudam inglês, na escola, e as crianças vêm conversar com os “farangi”, para treinar a língua, e, quem sabe, ganhar alguma lembrança ou comida diferente. O etíope é um povo hospitaleiro, amistoso, orgulhoso de sua cultura e nem um pouco violento. Saí de lá encantado com o povo e o país.

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