Há 37 anos vou a Lisboa, esporadicamente, a passeio, uma cidade europeia que sempre me encanta pelos laços ancestrais que nos unem. Meu avô era português, veio do Amarante para o Brasil, no início do século XX, aqui se casou, deixou alguns filhos e netos chamados Francisco, dentro os quais eu me incluo. A primeira vez que fui a Lisboa, em 1988, a cidade era ainda bem provinciana, parecia uma Ouro Preto à beira-mar ou rio Tejo e os portugueses me pareciam tristes ou melancólicos, se comparados aos alegres e barulhentos brasileiros. Tudo mudou, nesses quase quarenta anos em que a visito. Atualmente, Lisboa é uma das cidades mais vibrantes das capitais europeias, está repleta de turistas, o ano todo, que pra lá se dirigem em busca de cenários instagramáveis para suas selfies, de um patrimônio histórico diferenciado de tudo o que se vê na Europa, de uma comida maravilhosa, em que o bacalhau é soberano, e de um povo que, apesar de tudo, é colhedor, se o compararmos a outros europeus, franceses e espanhóis, por exemplo.
Mas, o turismo em massa tem um preço. A cidade ficou cara para os brasileiros que a visitam e atraente para os milhares que para lá se dirigem para trabalhar e ganhar em euro, moeda seis vezes mais valiosa que o nosso enfraquecido real. Bons tempos em que o real valia mais de cem escudos ou era cotado um por um, na época da criação do euro. Enfim, o que resta é procurar hotéis mais em conta, o que não é fácil, e comida em lugares mais populares. Sempre os há, mas haja sola de tênis para caminhar. E, por falar em caminhar, Lisboa é uma cidade ótima para se andar a pé, subindo e descendo ladeiras, sempre tendo a gigantesca Praça do Comércio como rumo.
Dessa vez, optei por um hotel na baixa pombalina, bem no centrão de Lisboa, para evitar táxi, caro e pouco confiável, como na maioria dos lugares turísticos. Bem ao lado do Rossio, pude acompanhar a “fervida lisboeta”, como era comum em Madri, nos anos oitenta, a chamada “fervida madrileña. Aos finais de semana, a população se aglomera nas praças e nas ruas em torno do Rossio, nos inúmeros bares turísticos da Rua Augusta, da Rua das Portas de Santo Antão, da Praça da Figueira e arredores. Há sempre um bolinho de bacalhau de aperitivo, um bacalhau ao Brás, a lagareiro ou com natas para saborear e o delicioso pastel de natas de sobremesa, sempre acompanhados de um vinho tinto ou branco “da casa”, mais barato e leve para acompanhar uma refeição.
Para passear, a moda, agora, é alugar um tuc-tuc elétrico, que virou uma epidemia em Lisboa, sempre conduzidos por simpáticos brasileiros, que para lá se foram para “tentar a sorte”. O nosso “driver” foi o Roberto Jr., um simpático piauiense, que nos levou a lugares aonde não conseguiríamos ir, sem a sua preciosa ajuda e valente condução. Havíamos subido a escadaria do Carmo para ir até à igreja de São Roque, visitar a capela de S. João Batista, considerada uma das mais ricas da Europa, por seu valor artístico e, ao sairmos, o encontramos na praça em frente à igreja. Simpaticíssimo, falante e agradável como são os nordestinos, de modo geral, nos mostrou três opções de roteiros, a oitenta euros por hora. Escolhemos o que nos levava à Capela do Monte, onde se tem uma vista deslumbrante de Lisboa, e a São Vicente de Fora, onde está o Panteão dos Bragança e dos Patriarcas de Lisboa. Na volta, nos deixou na Praça do Comércio, de onde partimos em busca de um lugar tranquilo para almoçar.
Além dos condutores de tuc, como dizem, os brasileiros também são maioria nos restaurantes, como garçons ou trabalhando na cozinha e nos hotéis. Lisboa não teria como atender à multidão de turistas que a invade, se não fossem os imigrantes. As arrumadeiras de quarto são carbo-verdianas, as atendentes de loja, angolanas ou moçambicanas, os garçons, brasileiros ou hindus, de Bangladesh ou do Nepal, enfim, Lisboa é uma babel de imigrantes, onde a língua que mais se fala não é o português, mas o inglês. Confesso que tive de solicitar um garçom que falasse português para explicar o cardápio. A todos que perguntei se falavam português, respondiam: “um pouco”, mas a comunicação não fluía. Enfim, creio que, se continuar assim, o português lusitano deixará de existir, e só existirá o brasileiro, porque aqui o inglês nunca vai passar de “more or less” rs


