É sempre um prazer voltar à Espanha, sobretudo às cidades à beira-mar, fora do verão, quando o clima está mais ameno e não há mais tantos turistas quanto no verão. O turismo em massa ficou insuportável e é necessário frear isso, com algumas regras de visitação. Veneza já o fez, quando proibiu a entrada na cidade de grandes navios de cruzeiro, mas eles, agora, aportam em Marghera, do outro lado de Veneza, ou em Trieste, um pouco mais distante e todos dão um jeito de ir a Veneza. A cidade instituiu taxas de visitação e creio que isso ocorrerá também em outras cidades como Roma, Florença, Milão e Nápoles. Parece que isso não resolveu a frequência à cidade, só contribuiu com uma receita maior para a sua manutenção.
As cidades espanholas também sofrem com o excesso de turistas, sobretudo Barcelona. Os locais fazem protestos contra os visitantes em massa, e não deixam de ter razão. Alicante é tranquila fora do verão, bem como Cádiz, ponto de encontro da Europa com a África. O problema é Málaga, terra do Picasso, uma cidade-museu, onde se pode vistar a herança romana, árabe e cristã, uma ao lado da outra. O teatro romano, a Alcazaba e a velha catedral estão próximas, e daria para visitá-los em um um dia, se não fossem as filas enormes, com milhares de turistas querendo fazer a mesma coisa. Ou seja, impossível. Há de se escolher uma e, se der por satisfeito, se conseguir. Optamos por uma visita à Catedral, mas não conseguimos. Havia vários navios de cruzeiro no porto, era domingo e filas de pessoas se aglomeravam à porta da catedral. Os guardas, carrancudos, de duas em duas horas, autorizavam algumas pessoas a entrar. Quem não conseguia teria de retornar duas horas depois. Tempo demais para quem já viveu muito e visitou centenas de catedrais tão grandiosas como aquela.
O jeito era visitar o museu Picasso, há dois na cidade, ou um dos tantos museus de Málaga, conhecida por ser a “Cidade dos Museus”, ou nenhum deles, e parar para tomar um vinho ou um chope, naquela cidade sempre calorenta. Optamos por um que anunciava “tapas a 3,90 euros”, o que nos parecia uma boa opção para acompanhar a bebida. Antigamente, admirávamos, na Espanha, o fato de a bebida ser acompanhada por uma tapa, sempre oferecida como cortesia. Sempre havia tortilha, azeitonas, presunto, croquetes, alguma coisa para “forrar o estômago”, enquanto se bebia. Achávamos esse hábito espanhol uma das coisas mais civilizadas da Espanha e, quando gostávamos do que era servido, repetíamos, claro, pagando o extra. Isso acabou. Em Alicante, o mesmo vinho que nos serviram, foi acompanhado de azeitonas para a mesa do lado. Para nós, nada. Em Málaga, as tais tapas de 3,90 eram uma porcaria. Dois croquetes sem gosto de nada ou duas tiras de presunto duro que nem pau. Arapuca para turista. Em Cádiz, chovia, a primeira chuva do ano, segundo o lojista, e não se podia caminhar pela cidade sem o risco de tomar um banho de chuva ou de uma poça de água jogada por algum carro. A imponente catedral estava fechada, em “lunes” não abre, e o jeito foi voltar para o navio, esperando melhor tempo, algum dia, se ainda por lá passarmos.


