A primeira vez que fui a Veneza foi em 1988, numa excursão em grupo de turistas latino-americanos. Saímos de Madri, percorrermos a Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Suíça, Alemanha e chegamos à Itália, atravessando os Alpes e acompanhando as Dolomitas. Nos hospedamos em Mestre, vizinho a Veneza, pois a cidade não recebia grupos de turistas. Nunca vou esquecer a primeira ida à Praça São Marcos, de vaporetto, a condução típica da cidade. Foi um deslumbramento! Era abril e o sol de primavera tingia de vários tons de amarelo as cúpulas das casas e das igrejas, dos palácios e dos museus, da cidade que já foi uma das mais importantes na Idade Média, por sua atividade comercia e, agora, por ser uma das principais atrações turísticas do mundo. Construída sobre ilhas, Veneza não possui jardins com flores, praças como as demais cidades, chafarizes, carros, nada que a identifique com outros lugares. Veneza é única! Inteiramente construída pelo homem sobre as águas, ela resiste ao tempo, por milênios, mas, até quando?
Voltei a Veneza outras cinco ou seis vezes, sempre de navio, que atracava na Estação Marítima, próximo à Piazzale Roma. Era deslumbrante passar em frente à Praça São Marcos, na ida e na volta, espetáculo que enchia os olhos de todos que se debruçavam na amurada dos navios para se deliciar com a paisagem. Até que, na tentativa de proteger a cidade, que, a cada dia mais se afunda no mar, os navios de cruzeiro foram proibidos de passar pelo Grande Canal e os turistas ficaram privados desse êxtase visual. Agora, eles atracam em Marghera, em um porto industrial do outro lado da baía e a ida a Veneza é uma odisseia. Pega-se um ônibus ou um aquatáxi até a Estação Marítima, de lá um trenzinho até a Piazzale Roma e, depois, o vaporetto ou se caminha até a Praça São Marcos. Gastamos mais de duas horas para fazer esse percurso e, quando chegamos à Praça São Marcos lotada de gente, já era hora de voltar. Com as filas para descer, subir, entrar, sair, gasta-se um tempão e não se tem tempo para visitar nada. Ou seja, ir a Veneza, num bate-e-volta, ficou inviável. Por isso, o governo instituiu uma taxa de visitação para turistas que não ficam na cidade por mais tempo. Tira-se na internet e deve ser levada em mãos, impressa ou no celular, pois, a todo instante, jovens uniformizados ficam checando se a taxa foi paga.
Milhares de pessoas inundam as vielas, passando pelas pontes e canais de Veneza, da Piazzalle Roma à Praça São Marcos, percurso que fizemos a pé e gastamos mais de uma hora. Quanto mais perto da Praça São Marcos, mais gente. O mundo inteiro vai a Veneza e quer tirar fotos, passear de gôndola, visitar igrejas e museus, sentar-se em restaurantes para comer ou beber, mas a cidade não cabe mais. Veneza está saturada e pede socorro. Talvez se tenha de limitar o número de visitantes diário. Não sei o que deve ser feito, mas sei que a atração irresistível aos olhos, que tanto encantou artistas e escritores no passado e os turistas do presente, não se esgotou, embora a cidade não suporte mais tanta gente.

