Stavros, o taxista de Pireus

Voltar a Atenas é sempre uma alegria, apesar dos voos longos, caros, lotados e das conexões demoradas. Já foi bem mais agradável viajar do Brasil para a Europa. Atenas é uma cidade que encanta, por sua história, passado tão estudo nos livros didáticos, por sua culinária, pela beleza natural de suas praias e, principalmente, pelo povo, ainda receptivo ao turista, sem o qual o país não vive, paciente, gentil, tolerante e sentimental. Paris é linda, mas aguentar a arrogância dos franceses e a sua pouca gentileza é osso. Os italianos são ríspidos com os turistas e é melhor evitar as cidades superlotadas como Roma e Veneza. Os gregos são diferentes, como aconteceu conosco com um taxista na estação marítima de Pireus.

   Chegamos a Atenas com um casal de amigos, estreantes na Grécia, mas super acostumados a viajar para a Europa, sobretudo a França. Do aeroporto ao hotel, no centro, perto da Praça Syntagma, com uma maravilhosa vista para a Acrópole, pegamos dois táxis, por causa da bagagem, duas malas para cada um, uma despachada e outra de bordo. Não havia uma van e nem um táxi grande que levasse os quatro. O preço foi o mesmo para cada um, 45 euros e mais a gorjeta, 50. No hotel, modesto e bem localizado, tudo funcionou muito bem: gentileza na chegada, quartos limpos, café da manhã farto e variado. Proximidade de tudo para andar a pé e visitar os principais pontos turísticos, perto de excelentes restaurantes, inclusive um com excelente comida grega. O souvlaki, churrasquinho de porco ou de frango, podia ser comido a 5 euros, enrolado no pão pita, ou a 12, no prato com salada e batata. Excelente!

   No dia seguinte ao da chegada, pegamos o ônibus turístico, cujo valor, 20 euros, dava direito a 48h de uso, com 3 roteiros a percorrer. Fizemos o primeiro e, após completarmos o circuito, descemos na Plaka, percorremos suas ruas lotadas de lojinhas de suvenires, muita coisa a 1 Euro, como sabonetes, bolsinhas, ímãs de geladeira, lembrancinhas para a família. Há muitos restaurantes por ali e pode-se almoçar por 10 a 15 euros por pessoa, sem as bebidas, claro. A cerveja grega é boa, se estiver quente e o vinho também, se não escolher o mais barato. Vinho bom é caro em qualquer lugar que o produz, pois demanda tempo e aperfeiçoamento.

   No outro dia, fizemos o outro roteiro, visitamos a Acrópole me cancelamos o roteiro das praias por estar frio e ventando. Nunca havíamos sentido tanto frio em Atenas, 12 a 13oC, pois é uma cidade geralmente quente, cujo calor é insuportável no verão. Agosto, lá, é insuportável! À tarde, visitamos o museu arqueológico, bom, mas incomparável aos principais museus europeus, onde se encontram as principais relíquias gregas.   Muita peça já foi devolvida, mas as principais ainda estão no Louvre, no Britânico ou no de Berlim. Os gregos exigem a sua devolução.

   Três dias depois, pegamos um táxi até a estação marítima de Pireus e, como o bagageiro era grande, coube todas as nossas malas. O taxista, de pouca conversa, mas gentil, voou, pois era feriado, o trânsito estava tranquilo e ele tinha pressa. Em poucos minutos percorremos o trajeto de 30km e o valor da corrida foi só 30 Euros. Demos-lhe 40 e ele ficou muito agradecido. Embarcamos, quase sem esperar. Check-in rápido, mas tivemos de carregar as malas até o navio, pois era Dia do Trabalho e todos os maleteiros e demais trabalhadores estavam de folga, inclusive os do rebocador, o que atrasou a saída do navio e a chegada em alguns itinerários, coisa pouca. O cruzeiro foi ótimo, mar de almirante, lugares lindos, tudo perfeito.

   Ao desembarcarmos no Pireus, uma semana depois, fomos pegar o táxi para o aeroporto, uma distância de 50 km ou mais. Queríamos um único táxi, como o da vinda, mas o primeiro da fila recusou, pois no bagageiro não cabia tanta mala; imediatamente, apareceu o Stavros, um senhorzinho de 64 anos, muito parecido com o pai da personagem do filme “O casamento grego”. Disse que nos levava ao aeroporto e que, se as malas não coubessem no bagageiro, amarraria a tampa do porta-malas com uma cordinha, que já trazias nas mãos. Sem esperar resposta, já foi pegando as malas e as arrumando no bagageiro. Já sabia a técnica, mas, claro, a tampa não fechava. Amarrou a porta no para-choque e lá fomos nós.

   Estava um calor infernal, o trânsito muito congestionado, os quatro apertados ali dentro e eu à frente com o Stavros, que falava sem parar, misturando grego, italiano, inglês. Falava de tudo, da crise econômica grega, da alta do preço dos alimentos, nos mostrava oliveiras, dizendo que o óleo de oliva, que antes era barato, agora custava os olhos da cara. Estávamos na época do conclave, para eleger o novo papa em Roma. Stavros xingou os cardeais de “maffiosi”, o luxo das igrejas, dizendo que Cristo não fundou igreja e nem a riqueza delas. Uma hora para chegar ao aeroporto, eu me divertindo com o Stavros, mas o pessoal de trás dormitava, embalados pelo calor e pelo palavrório do grego. Quando chegamos, nos cobrou 80 Euros, pelo excesso de malas. Demos-lhe 100 e ele quase morreu de alegria. Nos abraçava, beijava e lambujou minha cara toda. Era mais novo que nós, mas parecia nosso pai. Enfim, saímos da Grécia com a certeza de que é um destino a que se deve ir sempre, pois além da beleza das ilhas gregas, de seus monumentos históricos, há um povo sofrido e encantador, como o Stavros, taxista de Pireus.  

Veneza e o turismo de massa

   A primeira vez que fui a Veneza foi em 1988, numa excursão em grupo de turistas latino-americanos. Saímos de Madri, percorrermos a Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Suíça, Alemanha e chegamos à Itália, atravessando os Alpes e acompanhando as Dolomitas. Nos hospedamos em Mestre, vizinho a Veneza, pois a cidade não recebia grupos de turistas. Nunca vou esquecer a primeira ida à Praça São Marcos, de vaporetto, a condução típica da cidade. Foi um deslumbramento! Era abril e o sol de primavera tingia de vários tons de amarelo as cúpulas das casas e das igrejas, dos palácios e dos museus, da cidade que já foi uma das mais importantes na Idade Média, por sua atividade comercia e, agora, por ser uma das principais atrações turísticas do mundo. Construída sobre ilhas, Veneza não possui jardins com flores, praças como as demais cidades, chafarizes, carros, nada que a identifique com outros lugares. Veneza é única! Inteiramente construída pelo homem sobre as águas, ela resiste ao tempo, por milênios, mas, até quando?

   Voltei a Veneza outras cinco ou seis vezes, sempre de navio, que atracava na Estação Marítima, próximo à Piazzale Roma. Era deslumbrante passar em frente à Praça São Marcos, na ida e na volta, espetáculo que enchia os olhos de todos que se debruçavam na amurada dos navios para se deliciar com a paisagem. Até que, na tentativa de proteger a cidade, que, a cada dia mais se afunda no mar, os navios de cruzeiro foram proibidos de passar pelo Grande Canal e os turistas ficaram privados desse êxtase visual. Agora, eles atracam em Marghera, em um porto industrial do outro lado da baía e a ida a Veneza é uma odisseia. Pega-se um ônibus ou um aquatáxi até a Estação Marítima, de lá um trenzinho até a Piazzale Roma e, depois, o vaporetto ou se caminha até a Praça São Marcos. Gastamos mais de duas horas para fazer esse percurso e, quando chegamos à Praça São Marcos lotada de gente, já era hora de voltar. Com as filas para descer, subir, entrar, sair, gasta-se um tempão e não se tem tempo para visitar nada. Ou seja, ir a Veneza, num bate-e-volta, ficou inviável. Por isso, o governo instituiu uma taxa de visitação para turistas que não ficam na cidade por mais tempo. Tira-se na internet e deve ser levada em mãos, impressa ou no celular, pois, a todo instante, jovens uniformizados ficam checando se a taxa foi paga.

   Milhares de pessoas inundam as vielas, passando pelas pontes e canais de Veneza, da Piazzalle Roma à Praça São Marcos, percurso que fizemos a pé e gastamos mais de uma hora. Quanto mais perto da Praça São Marcos, mais gente. O mundo inteiro vai a Veneza e quer tirar fotos, passear de gôndola, visitar igrejas e museus, sentar-se em restaurantes para comer ou beber, mas a cidade não cabe mais. Veneza está saturada e pede socorro. Talvez se tenha de limitar o número de visitantes diário. Não sei o que deve ser feito, mas sei que a atração irresistível aos olhos, que tanto encantou artistas e escritores no passado e os turistas do presente, não se esgotou, embora a cidade não suporte mais tanta gente.