

Volto ao Egito, pela terceira vez. Estive lá há 35 anos, em 1988, depois em 2012 e, agora. O país se transformou muito, nessas três décadas. O turismo voltou com força, após passar maus pedaços com ações terroristas: sequestro de ônibus de turistas no Sinai, ataques a voos em Sharm-el-Sheik, insegurança nos lugares turísticos. Não é um paraíso. Cairo é uma das cidades mais caóticas do mundo, com seus cerca de vinte e cinco milhões de habitantes divididos entre Giza e Cairo, nas duas margens do Rio Nilo. O país não tem qualquer política ambiental. Por todo lado se vê lixo amontoado, contaminação ambiental na água, terra e ar. O trânsito caótico do Cairo não dá espaço a pedestres. Lá, ninguém pode caminhar, pois não há sinal de trânsito e pedestre ou ciclista não têm vez. O controle de segurança é rígido, nos hotéis, aeroportos e rodovias. Não se anda muito sem ter de parar em cheque-points. Ou seja, não é tranquilo fazer turismo no Egito. Ainda há muito risco para o turista, por mais que haja controle de segurança.
O que, no entanto, faz com que milhares de turistas para lá se desloquem, de todas as partes do mundo? Resposta fácil: seu passado histórico. O Egito concentra milhares de anos de muita história e por toda parte se pode visitar o que esse país representou na história da humanidade, há cinco mil anos. Talvez tenha sido um dos primeiros países a organizar o turismo em função de seu patrimônio histórico, desde o século XIX. Naquela época, nosso Imperador D. Pedro II, sábio viajante, esteve lá para visitar esse tesouro da humanidade e trouxe de lembrança do rei de lá alguns presentes como a múmia do sacerdote queimada no incêndio do Museu Nacional. Talvez seja hora de o Lula visitar o Egito e trazer de lá outra múmia, pois têm milhares. Recentemente, foram descobertas umas trezentas, ocultas sob as pirâmides de Sakhara.
O que me espantou, nessa última viagem ao Egito, foi o surto imobiliário que se desenvolve em direção às pirâmides e à esfinge de Gizé. Na primeira vez em que estive lá, as pirâmides e as esfinge estavam retiradas da cidade. Agora, estão, praticamente, dentro dela. Hoje, se pode alugar apartamentos ou ficar em hotéis com vista para elas, constrói-se um novo museu ao lado das pirâmides, e um shopping center já funciona bem em frente às pirâmides. Ou seja, não há qualquer proteção ao sítio histórico dessa que é a única sobrevivente das maravilhas do mundo antigo, ainda admirada até hoje. Dizem que vão reconstruir o Farol de Alexandria, há muito destruído, e talvez até a famosa biblioteca de Alexandria venha a renascer para guardar os preciosos papiros que ainda se encontram enrolando as múmias descobertas.
Mas o Egito não é só o Cairo, há também Luxor e Karnac, e o Vale dos Reis. No Mediterrâneo, Alexandria e Port Said, cidades turísticas de cruzeiros; dessa vez, conheci também o turismo do azulíssimo Mar Vermelho, embarcando em Sokhna e visitando Sofaga e a bela Hurghada. Há excelentes resorts à beira do Mar Vermelho e modernas autopistas levam a esses destinos paradisíacos. Também se pode fazer um cruzeiro pelo Nilo, indo a Abu Simbel e a outras paradas, curtindo relíquias restauradas de um tempo histórico, que nos deslumbram até hoje. Por isso, tanta gente vai ao Egito, apesar do perrengue, do calor, da insegurança, das filas, das lojas-arapuca, da comida, da poluição, do trânsito etc. Pelo seu passado histórico, vale a pena visitar o Egito e até voltar, como fiz recentemente.